17 de fevereiro de 2010

Bem Vindo a Produção!

Para quem gosta da série True Blood da HBO, a espera pela 3ª temporada está sendo um processo longo, ainda mais por que ela promete...


Neste espírito a HBO lançou um vídeo mostrando como seria uma fábrica de True Blood, a bebida que permite aos vampiros "bonzinhos" da série viver sem se alimentar de sangue humano. 

No final do vídeo vemos a  frase "We're Back in Production" uma alusão a retomada dos trabalhos para a produção da terceira temporada, que estreia no meio do ano. É esperar pra ver!!


1 de fevereiro de 2010



Na última sexta feira do mês de janeiro foi possível observar a Lua Cheia, e foi um espetáculo incrível, pois sua proximidade com a Terra a fez ficar simplesmente maravilhosa!
Quem nunca parou e ficou contemplando a Lua? Assim por nada!? Ficou olhando e sentiu que existe muito mais a ser visto? Quem nunca parou e fixou seu olhar e percebeu-se banhado por uma misteriosa força? 
Se você nunca sentiu, nem que por um ínfimo momento o mistério, um sentimento estranho de imensidão, ou mesmo de conexão com Universo, me mande um e-mail você não é normal! 



A Lua é um satélite natural da Terra, aliás o único, ficando a cerca de 384.405 km do nosso planeta.
Seu nome vem do latim "Luna", em grego "Sélene".

Apresenta fases, exibindo sempre a mesma face o que gerou especulações sobre "o lado escuro da Lua", que na verdade se ilumina quando estamos no período da "Lua Nova". O tempo gasto para a realização do movimento de rotação da Lua é o mesmo de translação, ou seja, 27 dias e 7 horas.
Não apresenta atmosfera, com a presença escassa de água no estado sólido (cristais de gelo). Como não existe a presença de uma atmosfera, a Lua também não apresenta erosão, ou seja, sua face mantém-se da mesma forma durante milhões de anos, sendo apenas afetada pela colisão de meteoritos.


Lado escuro da Lua




Lado claro da Lua


Influência grandemente as marés, fenômeno que pode ser simplificado como a tendência que os oceanos possuem em acompanharem o movimento orbital da Lua. Ela é, proporcionalmente o maior satélite natural do nosso Sistema Solar.
Sua origem é incerta, mas elementos em comum indicam que tanto a Terra quanto a Lua apresentam uma origem em comum, existindo mais de uma teoria sobre sua existência.

Em 2010 a primeira lua cheia é foi a maior e mais brilhante, a explicação para o fenômeno é a proximidade do satélite em relação à Terra. A Lua esteve 14% maior e 30% mais brilhante na noite de sexta feira.

A Lua é um dos corpos celestes mais conhecidos, graças às várias missões realizadas. No dia 20 de julho de 1969 Neil Armstrong foi o primeiro homem a pisar na Lua, imortalizando a seguinte frase:

"Este é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade".

Existem divergências quanto à veracidade deste feito, e muitos acreditam que a ida a Lua não passa de uma fraude. (Clique para mais informações).






Sob o véu...


Como não poderia deixar de ser, a Lua sempre encantou o homem, que impressionado,influenciou uma série de mitos para explicar sua existência, aumentando consideravelmente o fascínio que ela exerce.


Mitologia Grega

Selene é a deusa grega (seu nome deriva do grego Selas, "Luz", "Claridade") que representava todas as fases da Lua. Filha dos titãs Hipérion e Téia, irmã de Hélio (Sol) e de Eos (Aurora).
Segundo lendas, os demais titãs acometidos pela inveja, lançaram o belo e feliz Hélio às águas do Erídano. Sua irmã, ao saber do triste destino do irmão se matou.
Téia, acometida pelo sofrimento, não acreditou que o filho estivesse morto, e pôr-se a procurá-lo sem descanso, nas águas negras do Erídano. Fatigada, adormeceu, e durante seu sono Hélio apareceu e pediu que não mais chorasse, pois ele e sua irmã Selene viviam juntos no Olimpo.
Ao acordar Téia viu seus filhos iluminando o sofrimento e a alegria de todos os mortais.
Assim, Selene acompanha a noite, Eos anuncia a chegada de Hélio que acompanha o dia.

Outra lenda fala que a deusa se apaixonou por um mortal, Edimion, com quem teve 50 filhos.
Edimion era humano, e por isso mortal, suscetível ao envelhecimento e a morte. Assim, Selene pediu a Zeus para que o tornasse imortal e eternamente jovem, e ele o fez, mas sob a condição de que seu amado dormiria eternamente.
Desta forma, a deusa o visitava todas as noites para se unir com ele.

Os gregos não possuíam um culto desenvolvido da Lua, quando o comparamos com outras culturas, mas existem indícios de um culto no Peloponeso após o período clássico. A deusa, segundo as histórias, não permanecia no Olimpo como os demais deuses e sim no céu onde fazia sua jornada, mas antes se banhava no mar. Possuia, nas crendices populares, considerável relação com o nascimento, falecimento, crescimento e fertilidade.
Na mitologia grega Artémis representava a Lua Nova, simbolizando o nascimento; Selene a Lua Cheia, e simbolizaria a magia; e Hécate o quarto minguante e crescente, simbolizando a magia, a bruxaria e a morte. Com o tempo, e dependendo da região estas deusas se tornaram uma só, sendo adaptadas por outras culturas como a romana.

Os romanos a identificavam como Diana (Deusa da Caça), e em sua forma primitiva era adorada como uma vaca com os "Chifres da Consagração", em forma de lua crescente.
É celebrada no dia 7 de fevereiro, sendo frequentemente associada à Hécate por sua influência na magia.


Mitologia Filipina

Os filipinos acreditavam que a Lua era um pente crescente de prata e as estrelas eram colares de diamantes.
Certa vez, uma comunidade que vivia em meio a um campo de arroz, onde a agricultura trazia sempre muita abundância para a comunidade havia uma bela jovem que se preocupava unicamente em cultivar sua beleza, se importando principalmente com seu longo cabelo negro. Nunca deixando que nada que não fosse o melhor o tocasse, escovando regularmente com um pente de prata na forma de um crescente. Revestindo seu cabelo de jóias e diamantes.
Um dia trabalhando, ela martelava grãos de milho e palay (hastes de arroz) em um pilão, sua mãe observou o colar de pedrarias em sua cabeça, do pente de prata furado em seu cabelo. Então ela lhe disse que coloca-se tudo de lado para poder trabalhar. Assim ela pendurou suas jóias no céu, e com pressa de terminar seu trabalho martelou os grãos muito fortemente, levantando o pilão. Com sua força ela também acertou o céu que foi mais alto ainda, levando consigo seus pentes e jóias, que se transformaram na lua e nas estrelas.



Mitologia Nórdica


Na Mitologia Nórdica Mani é o Deus da lua, irmão gêmeo da Deusa Sigel, por serem irmãos gêmeos são muito comparados com Ártemis e Apolo (deuses do sol e da lua da mitologia grega) que também são gêmeos.
Filho dos gigantes Mundilfari e Glaur, assim como sua irmã Sigel, Mani é constantemente perseguido por um lobo sangrento chamado Hati que o persegue durante a noite com o objetivo de matá-lo e libertar seu pai Fenrir.
De acordo com a profecia durante o Ragnarok Hati alcançará Mani, o matará e o devorará criando um eclipse junto com seu irmão Skoll, assim libertando seu pai Fenrir que está aprisionado pela corrente Gleipnir.




Encontrei outra versão, mas com a divindade Nanna (ou Sin), originalmente era a divindade suméria da Lua (associado à Lua Nova), protegendo a produção e a fertilidade dos campos, bem como o gado. Era representado por símbolos lunares (como o crescente sobre a cabeça). Era, sobretudo cultuado em Ur. Preferi colocar as duas informações, por não ter absoluta certeza de ambas.

A Lua era representada pela Deusa Nanna, que era casada com o deus Baldur (Sol). Tendo com ele um filho, Forseti, Deus da Justiça e Verdade.
Embora sejam os Deuses do Sol e da Lua, eles não eram o Sol e a Lua. Estes últimos eram os dois irmãos Arrak (lua) e Asvid (sol) que foram tirados de Midgard por Odin pela beleza e colocados em carruagens que rodam os céus perseguidos pelos lobos Skoll e Hati até o dia do Ragnarok quando então serão devorados.
Nanna morreu de sofrimento no enterro de Baldur, e foram colocados juntos, em um barco para um enterro viking. Existem lendas que Nanna retornará juntamente com Baldur após o Ragnarok.





Mitologia Egípcia

A Lua era representada pelo Deus Khonsu, filho de Amon e da Deusa Mut, é visto de duas maneiras diferentes. Na primeira ele se assemelha a Rá (representado por um falcão), mas diferentemente de Rá, Deus solar, Khonsu traz uma simbologia lunar, na cabeça traz o disco lunar. Em uma segunda representação ele se assemelha ao Deus Osíris, porém com uma trança egípcia infantil e com o símbolo lunar na cabeça, ao contrário da coroa com plumas de Osíris.
Khonsu também é Deus do conhecimento, sendo representado jogando Senet (um jogo de tabuleiro) com o Deus Toth.
Outro Deus lunar da mitologia egípcia é: Aah (representado por um homem barbado usando um disco e o crescente lunar na cabeça). A Deusa Bastet ficou associada a Lua, após o domínio grego no Egito, quando estes a associaram Ártemis.
Os ciclos da Lua também representam a luta entre os Deuses Seth e Hórus, ou seja, princípios de bem e mal, ordem e caos, luz e trevas.
O Eclipse Lunar representava então, o roubo do Olho Lunar de Hórus por seu tio Seth. Então Thoth, Deus da sabedoria, procura e encontra na escuridão o Olho, e o coloca no firmamento para voltar a refletir a luz solar.


Mitologia Asteca

A Lua ou Xochiquetzal (seu nome significa "flor preciosa) é companheira do Sol, protetora dos amantes, família e nascimento.
Sua morada está localizada em Tamoanchan (uma montanha), depósito das águas universais da vida em que o homem deposita os zoospermas. Lugar parasidíaco, adornado de flores, de fluentes rios azuis e onde cresce a xochitlikakan, a árvore maravilhosa que basta os apaixonados descansarem debaixo dela ou tocarem seus galhos e flores para que sejam eternamente felizes. É também a padroeira do dia 21 do calendário asteca.

Foi mulher do Deus Tlaloc, Deus da chuva, mas acabou sendo raptada por Tezcatlipoca que a levou aos nove céus. Permanecia um determinado tempo sobre a Terra, mas depois retornava ao seu lugar de origem.

Seu templo estava dentro do templo Maior de Tenochtitlan. Embora pequeno, reluzia entre bordados, plumas, pedras preciosas e adornos de ouro. Xochiquetzal tinha o poder de perdoar. A seu templo iam as mulheres grávidas, depois de tomar um banho lustral, para confessar seus pecados, pedir seu perdão e ajuda.

Em sua homenagem são celebradas grandes festas, nas quais se ofereciam flores, especialmente calêndulas. Teve vários nomes incluindo Ixquina e Tlaelquani. Vivia no alto da montanha dos nove céus.

Xochiquetzal era chamada pelas mulheres astecas como "A Senhora com saia de penas azuis" ou "A Mãe das flores" e era venerada com oferendas de pequenas figuras de barro.


Mitologia Maia

A Lua era chamada de Ixchel, sendo temida, pois controlava as tempestades e mares. Era também protetora das mulheres em trabalho de parto.
A "Senhora do Arco-íris" se chamava Ixchel, uma velha Deusa da Lua e da Serpente na mitologia maia. Os maias habitaram o sul do México e Guatemala. Viveram em torno de 250 d. C. e associavam os eventos humanos com as fases da Lua. Seu marido é o caritativo Deus da Lua, Itzamna.
O símbolo desta Deusa é o vaso emborcado do infortúnio. Sobre sua cabeça repousa uma serpente mortífera, suas mãos e pés têm garras afiadas de animais e seus traje é adornado com as cruzes feitas de ossos, emblema da morte.




Mitologia Celta

Era representado por Arianrhod que simbolizava os poderes divinatórios. Outra representação é Ceridwen, Deusa da Lua Nova, também representando os poderes divinatórios, além das ervas, feitiços e a morte.
A Lua Nova para o celtas, representava o início de um ciclo. Representa a donzela, a inocência, a potencialidade.
A Lua Cheia simboliza a fertilidade, a abundância e a clarividência por ser considerada a fase madura da Lua. Muito feminina e poderosa, ajuda as sementes a germinar.
O Quarto Minguante é considerado como a altura ideal para se adiar ou abandonar coisas, associado à magia negra.


Mitologia Indígena Brasileira

Jacyé a Deusa-Lua, a poderosa Mãe da Noite e Senhora dos Deuses. Tem duas formas: Jacy Omunhã (Lua Nova) e Jacy Icaua (Lua Cheia).
Uma lenda que mostra Jacy como entidade masculina:

"Há muitos anos, nas margens do majestoso Rio Amazonas, Naia, uma jovem e bela índia ficava a admirar e contemplar por longas horas a beleza da lua branca e o mistério das estrelas. Enquanto o aroma da noite tropical enfeitava aqueles sonhos, a lua deitava uma luz intensa nas águas, fazendo Naia subir numa árvore alta para tentar tocar a lua. Ela não obteve êxito. No próximo dia, ela decidiu subir as montanhas distantes para sentir com suas mãos a maciez aveludada do rosto da lua, mas novamente ela falhou. Quando chegou lá, a lua estava tão alta que retornou à aldeia desapontada. Ela acreditava que a Lua era um bonito guerreiro - Jaci, e sonhava em ser a noiva desse bravo guerreiro. Na noite seguinte, Naia deixou a aldeia esperando realizar seu sonho. Ela tomou o caminho do rio para encontrar a lua nas negras águas. Refletida no espelho das águas, lá estava a Lua, imensa, resplandescente. Naia, em sua inocência, pensou que a lua tinha vindo se banhar no rio e permitir que fosse tocada. Ela mergulhou nas profundezas das águas desaparecendo para sempre. A lua, sentindo pena daquela tão jovem vida agora perdida, transformou Naia em uma flor gigante - a Vitória Régia - com um inebriante perfume e pétalas que se abrem nas águas para receber em toda sua superfície, a luz da lua."

Outros deuses lunares: Uanana (Deusa-Lua andrógina dos tucanos), Urutau (Pássaro feérico amazônica considerado a Mãe da Lua)



Mitologia Japonesa


Na crença japonesa a Lua é representada por Tsukiyomi ou Tsukuyomi, irmão da Deusa Solar Amaterasu e de Susanoo.
Ele é a segunda das "Três Nobres Crianças" nascidas quando Izanagi, o Deus que criou a primeira terr, Onogoro-Shima, estava se purificando, enquanto se banhava após ter escapado do mundo subterrâneo e das correntes de sua enraivecida esposa Izanami. Tsukuyomi nasceu quando Izanagi lavou seu olho direito, dando origem a Deus Lunar.
Em uma versão alternativa, Tsukuyomi nasce de um espelho de cobre branco na mão direita de Izanagi.
Tsukuyomi vive em Takamagahara, com sua irmã Amaterasu, após ter subido a escada celestial.
Tsukuyomi também é conhecido por Tsukuyomi-no-kami.

obs.: a foto é de Amaterasu


Lua Negra

Lilith, em astrologia, é um corpo celeste que transita numa órbita invisível para a astronomia oficial. Os cabalistas hebreus denominam este astro misterioso de Lilith, a Lua Negra.
Embora, oficialmente não haja comprovações de sua existência, os astrônomos Riccioli, Cassini e Alischer confirmaram sua existência. Para os pitagóricos chamaram-no de Vulcano, elevando-o como um segundo satélite da Terra; alguns ocultistas chamam de Antiterra, um planeta análogo a Terra que descreveria uma elipse em sentido contrário ao terreno.

Para o tarot, Lilith está associada à carta da Lua e sua face obscura, que simbolizam o inconsciente, as ilusões, às práticas de magia e sortilégios.
Para os teósofos a Lua precede a Terra, sendo mais velha. Na evolução do cosmo, que segue uma hierarquia, a Lua seria mãe da Terra. Os "Deuses Lunares", ou "Pitris" (entre os indianos), são ancestrais da raça humana.
Um globo que morre transfere sua energia para outro que nasce, assim na cadeia planetária teosófica, a Lua tornou-se um planeta morto, em que sua rotação praticamente cessou. A Lua é o satélite da Terra, mas isso não quer dizer que ela não nos tenha dado tudo, exceto seu cadáver.

"A Lua é hoje frio resíduo, a sombra arrastada pelo corpo novo para o qual se fez a transfusão de seus poderes e princípios de vida. Está agora condenada a seguir a Terra durante longos evos, atraindo-a e sendo por ela atraída. Incessantemente vampirizada por sua filha, vinga-se impregnando-a com a influência nefasta, invisível e venenosa que emana do lado oculto de sua natureza. Pois é um Corpo morto, e no entanto vive. As partículas de seu cadáver em decomposição estão cheias de vida ativa e destruidora, embora o corpo que elas anteriormente formavam esteja sem alma e sem vida. (...) Como os fantasmas e vampiros, a Lua é amiga dos feiticeiros e inimiga dos imprudentes." (BLAVATSKY. 2000, p 200)."


Animais de simbologia lunar



Dragão - Apesar de inicialmente ligado a eclipses lunares e solares, os dragões estão associados à Lua. Essa noção de dragões e eclipses era comum na china, no norte da Ásia, na Finlândia, na Lituânia, no norte da África, na Pérsia. As lendas dizem que os dragões geralmente voam à luz do luar.


Boi - Na Grécia e em Roma, esse era considerado um animal lunar.

Cão - Cães vêm há muito tempo sendo associados a deidades lunares, especialmente deusas da Lua Crescente. Entre os nórdicos havia a história de Managarmr (cão lunar), o mais poderoso de todos os cabinos sobrenaturais. Cães de caça e matilhas de cães, como Alani de Diana, representavam as energias perigosas da Lua. Hécate sempre vagava pela noite com uma matilha de cães negros.


Cobra - Um símbolo da Deusa, é o mesmo que espiral quando enrolada. Por vezes cada volta da espiral marca um dia no calendário lunar. Linhas em ziguezague representam cobras. Serpentes eram associadas à Lua Nova por serem considera - das relacionadas ao submundo. Algumas Deusas da lua nova eram retratadas como tendo cabelos de serpentes. Há gravuras mostrando Cibele oferecendo uma taça a uma cobra. Na mitologia mexicana, existem lendas da mulher serpente (Lua) que é devorada pelo Sol, numa descrição de um eclipse ou das fases da lua.

Coruja - A coruja rapinante noturno, com seus grandes olhos, há muito é associada à Lua. Para os egípcios a coruja era um símbolo de morte, noite e frio. Para os gregos, entretanto, era um símbolo de sabedoria e da deusa Atena. Seus olhos vidrados a ligavam às deusas dos olhos, Lilith, Minerva, Blodeuwedd, Anat e Mari, entre outras. A coruja sempre foi associada à lua, à sabedoria, aos mistérios sagrados lunares e às iniciações.


Gato - Especialmente para os egípcios, essa era uma criatura lunar. O gato é sagrado as deusas Ísis, Bast, Ártemis, Diana, Freya e outras. Quando Diana passou a ser conhecida como Rainha das Bruxas durante a Idade Média, o gato passou a ser associados à bruxaria, ou ao culto da Deusa.

Lebre ou Coelho - Muitas culturas ao redor do mundo, incluindo o Tibet, a China, África, Ceilão e algumas tribos nativas americanas, diziam que a lebre vivia na Lua com as deidades lunares. Especialmente associada às deusas lunares.


Lobo - Muitos deuses e deusas, ligados à Lua, tinham também como símbolo o lobo. O lobo uiva para a Lua, assim como os cães; eles caçam e brincam ao luar. As sacerdotisas da Lua de muitas culturas eram adeptas de viagens astrais e transmutações, talentos normalmente praticados à noite. Também celebravam rituais, dançando e cantando a céu aberto, sob a Lua. Um festival romano, a Lupercália, honrava a deusa - loba Lupa ou Ferônia. Os nórdicos acreditavam que o lobo gigante Hati perseguia a lua e nos dias finais comeria esse corpo celeste.

Morcego - Criatura constantemente associada à Lua e à escuridão. Na China, sorte e felicidade; na Europa, criatura companheira da deusa Hel. Os cristãos tornaram - no mau e demoníaco numa tentativa de dissociar as pessoas da deusa.

Peixe - Em algumas culturas, a Lua era simbolizada por um peixe em vez de uma cobra. Algumas deusas lunares possuíam caudas de peixes, semelhante a sereias.

Porca - A porca branca tem sido associada a deidades lunares desde as terras celtas até o Mediterrâneo. Ligada a Astare, Cerridewn, Deméter, Freya, a Marici Budista.

Rã - Algumas culturas viam uma rã, em vez de lebre, na lua. Em algumas partes da Ásia, da África e da América do Norte, a rã era um símbolo da Lua e da fertilidade.

Sapo - Símbolo lunar muito comum; por vezes chamado de rã. No Egito, Hekat, a deusa - sapo, estava ligada aos nascimentos.

Touro - Inicialmente esse era um símbolo lunar da Grande Mãe, com os chifres representando a Lua Crescente. Posteriormente, quando passou a representar deuses solares, ainda estava constantemente ligado a uma deusa lunar como Cibele e Attis.

Vaca - Símbolo feminino tanto da Terra como da Lua. Deusas egípcias contadas tanto à Lua com a vaca eram Ísis, Hathor e Neith, entre outras.


Links Interessantes:





Fontes:





20 de janeiro de 2010

Palavras e Disritmia


Alguém conhece José Ribamar Coelho Santos? Não! Mesmo se eu dizer que ele nasceu em Arari, Maranhão no dia 11 de abril de 1966, sendo um ótimo cantor, compositor e músico de MPB? Nada ainda!?
Bom talvez conheça Zeca Baleiro!
Viu?! Como não conhece-lo, suas músicas já fizeram parte de novelas, trilhas sonoras, de um término de namoro anônimo, ou até mesmo daquele porre que você gostaria que continuasse anônimo, todo mundo já cantou ou ouviu uma música sua em algum momento da vida.
Com uma voz gostosa, ao qual não me atrevo descrever qual é a sensação de ouvir, e letras que remetem ao dia-a-dia, ao amor, as coisas da vida que nos passam despercebidas, ou ainda protestos interessantes sobre coisas que vemos todos os dias, ele faz um som complexo e simples, com aquele jeito MPB, mas ainda sim único.
Não me atrevo a colocar uma biografia aqui, até porque vale mais a do próprio Zeca Baleiro, que sem mais escreve bem melhor que eu. Vale a pena conferir o som e a biografia!



Discografia


















Coletâneas e trilhas


Brésil


Calor do Brasil


Metamophoses


MPBZ by Marco Mazzola


Novo Canto


O Melhor do Acústico MTV


Palco MPB






Site Oficial, com um visual legal e com algumas coisas bem bacanas de se conferir!



Vídeo






13 de janeiro de 2010

Azul-cobalto


Havia então uma cidade, de clima um pouco frio, cujos cidadãos eram em sua grande maioria pintores habilidosos. Cada um havia desenvolvido um estilo próprio, mas havia também um estilo próprio da cidade. Naturalmente, como a pintura era muito comum, era também muito apreciada, de modo que era um costume já muito antigo dos cidadãos que, ao conhecer uma pessoa – e principalmente conhecê-la mais profundamente –, fosse dada uma pintura a essa pessoa. No começo, esse costume era mais freqüente entre pessoas que já se conheciam há um certo tempo, mas ultimamente os cidadãos daquela cidade vinham presenteando uns aos outros mesmo quando se conheciam muito pouco, e, cada vez mais freqüentemente, mesmo sem se conhecerem.

Havia então nessa cidade, algumas vezes por ano, concursos de quais pinturas, quais quadros, eram mais coloridos, ou maiores de tamanho, ou cujas cores eram mais vivas, ou qualquer outro critério que fosse criado, e cada cidadão – naturalmente apenas aqueles que haviam sido presenteados com quadros novos – vinha então ao centro da cidade e exibia o quadro que havia recebido de presente ou – no caso daqueles cidadãos particularmente mais populares, e já eram muitos – os vários quadros que havia recebido de presente. Porém, nos últimos tempos ficava cada vez mais difícil, e isso já era bem percebido por todos, apesar da maioria fingir ignorar o fato, identificar qual era o autor do quadro vencedor em cada concurso, porque era uma prática cada vez mais comum não assinar a pintura antes de dá-la de presente a alguém, e havia até um grupo de cidadãos – apesar de não ser um grupo exatamente definido, e ninguém saber ao certo quem pertence a ele, de certo que é um grupo – cuja corrente de pensamento afirmava que quanto menos o pintor em questão colocasse sua identidade nas pinceladas e nas cores, tanto melhor. Assim, já há um bom tempo esses concursos terminavam da mesma forma: os cidadãos mordiam as unhas na ansiedade de saber qual quadro era o melhor, a decisão era anunciada, e todos esperavam que o autor do quadro se manifestasse. E nada.

E então todos se voltavam para o segundo melhor que, sem exceção, em todos os concursos, todos até já sabiam e tiravam as unhas da boca, e alguns mais sinceros até se dirigiam já para suas casas, possuía um traço característico, ou mais precisamente, uma cor característica, pois não havia traços muito bem definidos, e um braço magro, esbelto e liso se levantava na multidão, seguido de uma voz suave e melodiosa que reclamava a autoria do quadro. A pintora então andava pela multidão até o palco central, subia as escadas com uma emoção contida, e segurava seu quadro, sua pintura, a seu lado, ela própria sendo uma obra de arte como todos conceberiam, como todos imaginariam a mais bela musa, e então ela olhava para todos buscando quem recebera de suas mãos aquele quadro, para lhe agradecer e lançar o conhecido olhar singelo, sublime e, infelizmente para a outra pessoa, muito rápido, antes de agradecer à multidão por terem escolhido seu quadro como o melhor.

Naturalmente que o quadro da pintora não era o melhor, mas sim o segundo melhor, todos sabiam disso e ponderavam consigo mesmos essa verdade, mas ninguém se atrevia a lançá-la a público, pois ninguém se atrevia também a contar quantos naquela cidade já haviam sido presenteados com os quadros daquela mulher. De modo que todos aplaudiam com uma emoção contida, por vários minutos, até que a pintora descia do palco e se dirigia para aquela pessoa a quem ela dera o quadro, e entregava-o a ela, com um doce e rápido beijo no rosto. E então aquele braço esguio se erguia e, com uma graciosidade particular e certeira, fazia um aceno de adeus. Todos sabiam, com aquele gesto, que a pintora não seria vista por vários dias, até que retornasse, e conhecesse alguém, e lhe fizesse outra obra-prima. E então haveria outro concurso, e essa obra-prima alcançaria o segundo lugar.

Esses concursos eram bem populares na cidade, eram as datas mais importantes. O anúncio do quadro vencedor era sempre feito no horário de almoço, para que todos pudessem assistir sem deixar suas atividades de lado, e mesmo assim a cidade inteira comparecia. Havia, porém, uma falta naquelas ocasiões.

Pois havia naquela cidade também uma desenhista, cujo traço era mais definido e mais nítido do que o de qualquer pintor, e cujos desenhos haviam circulado por todos da cidade, apesar de poucos terem tido a honra de recebê-los das mãos da própria desenhista. A desenhista morava numa casa muito diferente das outras, muito mais simples e com menos detalhes nos telhados, mas as cores com que a casa havia sido pintada eram sem dúvida as melhores. Isso porque a desenhista sempre fora, como todos sabiam, a maior e mais íntima amiga da pintora, e esta, como presente de aniversário, havia pintado há alguns anos a casa inteira da desenhista. De modo que a pintura da casa era tão bela, e a casa tão paradoxalmente simples, que havia se tornado uma espécie de atração turística da cidade. Alguns cidadãos gostavam bastante de subir aquela última rua, a deserta, de contornar a curva cercada de abetos e então ver aquelas cores tão vivas e pungentes, refletindo como fogo a luz do sol.

Não que a desenhista gostasse de morar num ponto turístico. Ela inclusive repelia como podia esses cidadãos, no começo simplesmente saindo de sua casa e gritando, ou com cachorros, mas no último ano ela descobrira uma maneira especial de mantê-los afastados. Ela então plantou, em todo o contorno do terreno da casa – porque afinal eles poderiam vir também da parte de trás da casa, ela sabia, as pessoas que se propunham a vigiar sua vida eram particularmente hábeis em encontrar novas maneiras, e tinham uma disposição incomum para isso –, e plantou também na curva que dava para a entrada do jardim, espinheiros muito cerrados, que não impediam de qualquer maneira que alguém realmente determinado visse a casa, mas bloqueavam de todo a passagem até a casa. Ela evitava assim o extremo incômodo de atender cidadãos curiosos para ver o interior da casa, especialmente porque quando isso acontecia ela era obrigada a presenciar o espanto deles quando viam que os cômodos eram todos pintados de cinza.

E assim sempre ocorria, a cidade se reunia de tempos em tempos com seus melhores quadros, a pintora ganhava em segundo por não se saber o autor do melhor quadro, ela se despedia, e todos então percebiam que a desenhista não estava lá. Depois de algum tempo, as pessoas já nem faziam essa última constatação. Já não era necessária, a presença da desenhista era algo tão improvável, tão absurdamente contra o normal, que as pessoas simplesmente perguntavam, depois de alguns dias, se alguém havia visto naquele último concurso a desenhista. E a resposta era sempre a mesma.

Esses cochichos chegavam aos ouvidos da desenhista, porque afinal era para a sua casa que a pintora sempre se dirigia depois de tais concursos. As duas conversavam por horas a fio, comendo batatinhas fritas, até o cair da noite, e depois até que os pássaros anunciassem a manhã, e então elas iam dormir, a desenhista em seu quarto cinza, e a pintora em um quarto feito já para ela, o único cômodo a cores. Esse era um segredo muito bem guardado por ambas, pois a cidade inteira especulava arduamente para onde iria a pintora durante aqueles dias em que ninguém a via, e portanto as duas desfrutavam de vários dias de paz.

Ultimamente, porém, a pintora vinha se sentindo infeliz com a falta de cores dos outros cômodos da casa da desenhista, e sugeria que iria pintá-los, como havia feito com o exterior da casa e com seu quarto. A desenhista sempre recusava a oferta, obviamente, alegando que o cinza era sua maior paixão, e que afinal não era o mesmo cinza que preenchia os cômodos. Cada cômodo, segundo ela, possuía um cinza diferente, ora mais claro, ora mais escuro, e ela chegava a afirmar que até mesmo havia matizes diferentes entre os diferentes cinzas. A pintora ria, naturalmente, de tal alegação, e então mostrava a beleza das cores de seu quarto, como eram vivas, tão belamente misturadas umas às outras, e apontava logo depois para os desenhos em tons cinza da desenhista, que ficavam pendurados nos corredores e nos quartos, e mostrava sua incompreensão com o cinza. A desenhista ria também, em resposta, mostrando sempre no quadro – no único quadro, aliás, que a pintora havia feito e guardado para si – colorido, pendurado no quarto da pintora, como seus traços não eram definidos, como as cores se confundiam e anulavam as formas, e mostrava os seus próprios desenhos, cujo contorno e traço eram reconhecidamente os mais definidos da cidade. A pintora mudava de assunto por um tempo, mas logo as duas voltavam a discutir, com outro pote de batatinhas fritas na mesinha de centro, sobre a intensidade das cores e sobre traços definidos. A desenhista expunha então seu desprezo pela intensidade e vivacidade das cores dos quadros exibidos pela cidade – afinal ela às vezes saía de sua casa para comprar sua comida, ou outros itens de necessidade, e principalmente os lápis, borrachas, crayons, bicos de pena e, mais raramente, um bom suprimento de nanquim para que pudesse continuar sua arte incomum – e dizia que era cada vez mais difícil identificar nestes quadros qualquer forma, perspectiva ou profundidade, mesmo que abstratas, e por isso era cada vez mais insuportável para ela sair de sua casa e encontrar aquelas telas com matizes disformes. Ainda mais porque a única cor de que ela realmente gostava, o azul-cobalto, era cada vez mais raro nos quadros da cidade. A pintora, um tanto quanto tímida quanto a tais observações – ainda mais porque havia muito tempo ela mesma não usava o tal azul-cobalto –, mudava de assunto e mostrava o esboço de algum quadro novo que estava fazendo para outro alguém que havia conhecido, e quando a desenhista mostrava algum interesse no esboço a pintora chegava até a dá-lo para ela, se já fosse um esboço, um estudo finalizado, e ela estivesse enfim pronta para começar a obra de fato. E assim as duas conversavam por dias, e então a pintora partia para começar outra obra-prima.

Enquanto pintava, porém, ela costumava pensar – e esse pensamento se tornava cada vez mais freqüente, a cada novo quadro – nos porquês da desenhista odiar tanto as cores, ser tão avessa a elas, que para a pintora eram como flores, vestiam seu corpo e a faziam se sentir deusa, rainha, selvagem, e tantas outras sensações que lhe ocorriam como torrente e chama enquanto pintava. E pensava que, talvez, a desenhista jamais houvesse usado mesmo um pincel com alguma tinta colorida, e que assim tivesse medo, ou mesmo pavor, de fazê-lo. Talvez a desenhista havia se acostumado tanto ao cinza que seus olhos não podiam mais ver a luz e beleza das cores. Afinal, que importância tão grande era essa que ela dava para os traços e contornos, se as cores já preenchiam o olhar de qualquer um de maneira tão intensa que não era possível sequer pensar em contornos? A pintora ponderava, mas jamais descobria realmente os motivos da desenhista e seu cinza.

Até que lhe ocorreu um fato inusitado. Depois de mais um concurso, e mais um prêmio, depois de andar como imperatriz das cores até a casa da desenhista, de cumprimentá-la e enfim entrar em seu quarto colorido, ela sentiu sede. Claro que a sede não foi de maneira alguma inusitada, mas no corredor ela viu uma porta semi-aberta e, sem qualquer curiosidade, apenas como a criança que pisa a formiga sem qualquer razão, abriu a porta e se deparou com um armário. Isso, claro, também não foi inusitado. A porta bateu então na prateleira mais próxima, e uma pequena bisnaga caiu no chão. A pintora se inclinou, pensando se tratar de algum tipo de nanquim em bisnaga, algo estranho mas claramente a única opção, e se surpreendeu ao ver as palavras “vermelho sangue” na bisnaga. Estava então a desenhista usando cores? Ela, que quase idolatrava o cinza, que tecia longos argumentos sobre a beleza do preto misturado ao branco, estava usando uma cor, e logo uma cor tão viva? A pintora guardou então a bisnaga na prateleira, descobrindo com mais surpresa ainda que não havia outras bisnagas ali, apenas a vermelho sangue, e foi enfim matar sua sede, que já desaparecera por completo. E a partir de então, em cada conversa com a desenhista, quando esta defendia o cinza, a pintora ria e suspeitava com seus botões, ria da hipocrisia da desenhista e suspeitava dos motivos de esconder que ela enfim havia se rendido às cores. E então ela comia com mais vontade as batatinhas, como se assistisse a um espetáculo, um filme de suspense, e se sentia uma Sherlock Holmes investigando um mistério indecifrável.

E vieram as noites, e vieram os dias, e então ela partiu, e veio outro concurso, e ela voltou. E procurou naquela prateleira pelo vermelho sangue, mas não o encontrou. E então ela andou discretamente, enquanto a desenhista cuidava de suas flores brancas, pela casa, vasculhando cada armário, cada prateleira, cada gaveta, mas não encontrou nada. E então restou apenas o ateliê, aquele quarto que a desenhista recusava-se a abrir, mesmo que para a pintora. Nada era mais óbvio.

Como a criança que queima a formiga com uma lupa, como quem não quer nada, ela abriu a porta, que para sua surpresa não estava trancada. Pequenos recortes em papel se dependuravam do teto, marionetes com expressões que ela não entendia estavam deitadas em uma mesa, bonecos que ela sabia que a desenhista usava como modelos – algo tão irracional para ela, ela que estava acostumada a ignorar as proporções – se assomavam em um armário, vários e vários dos seus próprios esboços pendurados em uma pequena parede e, no canto mais próximo, um armário – trancado – contendo inúmeros lápis, inúmeros crayons, todos naturalmente pretos, e inúmeros bicos de pena, com as mais variadas formas. E no centro, bem no centro daquele ateliê iluminado por várias janelas, estava a prancheta, tão estranha para a pintora – tão acostumada a cavaletes e telas –, e sobre ela uma grande folha de papel com mais um desenho tão bem definido, tão recheado de cinza que ela logo se enjoou dele e olhou em volta. Ora, ela havia uma única vez entrado naquele ateliê, além desta vez, havia muito tempo, e de tudo aquilo ela se recordava muito bem, com exceção de uma pequena caixa de madeira ao lado do armário de instrumentos de desenho. Ela olhou então pela janela e se certificou de que a desenhista ainda se entretinha com suas flores brancas, e abriu a caixa. Várias bisnagas, das mais variadas cores, se amontoavam em um lado, enquanto inúmeros pincéis, em sua maioria finos – afinal os que a pintora menos usava – se espalhavam pelo outro lado da caixa. Ela escutou então a porta de tela da cozinha se abrir, e fechou rápido a caixa e o ateliê. E voltou para sua tão adorável amiga, para mais uma rodada de batatinhas fritas. Por meio de perguntas tão sutis quanto objetivas, ela tentou fazer a desenhista revelar, sem querer, que usava realmente cores. E tentou convencê-la mais uma vez da beleza das cores, ouvindo porém desta vez não com risos ou suspeitas a defesa do cinza, mas sim com um certo escárnio e uma certa raiva – afinal por que a desenhista não lhe revelava que usava cores, a ela, pintora premiada inúmeras vezes, que havia encantado e hipnotizado multidões com a intensidade e vivacidade de suas cores?

E quando, dias depois, ela se debruçava sobre mais uma futura obra-prima, e sua cabeça fervilhava de suposições sobre a desenhista e suas cores escondidas, ocorreu-lhe um pensamento genial. Afinal, se a desenhista usava realmente cores, ainda que de maneira totalmente tímida, então ela realmente as apreciava. E se as apreciava, então realmente haveria forçosamente de se enjoar do cinza. Porque, uma vez que seus olhos se banhassem em vermelho, em amarelo, em verde, em violeta, ela jamais iria querer a indiferença vazia do cinza. O cinza era belo, a pintora tinha de admitir, mas era muito pouco. E, se era muito pouco, e se a desenhista haveria de um dia se enjoar do cinza, e então ela detestaria os cômodos de sua própria casa, então a desenhista ficaria imensamente feliz de ter seus cômodos renovados com a vivacidade das cores que só a pintora era capaz de criar. E então a pintora comprou para si um bom estoque de tintas, e de rolos e de pincéis, e planejou sua surpresa. Descobriu, porém, depois de refletir um pouco, que não conseguiria afinal pintar a casa toda sem que a desenhista percebesse. Teria de pintar um dos cômodos, e esperar a resposta. E qual cômodo seria? Nada era mais óbvio.

Assim, depois de mais um concurso, e de mais uma vitória por não haver autor definido para a melhor pintura, ela apanhou seu suprimento de tintas e rolos e pincéis e os levou consigo até a casa da desenhista. Disse à ela que ia apenas pintar uma das paredes de seu próprio quarto, afinal se enjoara das cores que havia pintado antes, e esperou que a desenhista saísse – porque a pintora sabia que a desenhista não suportava sequer o cheiro das tintas – e foi até o ateliê. Pensou por qual parede começaria, onde colocaria os móveis para que não os manchasse, se pintaria também o teto e o chão, e decidiu que pintaria as paredes e também os móveis, afinal aquele cinza estranho dos móveis era monótono demais. E então começou, e pintou como nunca antes, com as combinações mais vivas, mais intensas, e como nunca antes as cores pareciam percorrer seu corpo e banhá-la em um universo de sensações, um banho de turquesas e esmeraldas e rubis, e sóis amarelos e brilhantes como ouro, e papoulas incendiárias, e campos tão verdes, tão verdes que os olhos lhe doíam, e ela adorava essa dor.

E, como a noite começava a despontar no horizonte, ela se apressou e terminou a obra-prima das obras-primas. Deleitando-se com os reflexos que o último raio de sol espalhou pelo ateliê, ela concluiu a pintura, e se dirigiu para a sala, à espera da desenhista. Quando esta chegou, as duas conversaram novamente, e uma vez mais a pintora tentou convencer a desenhista de que o cinza não bastava. A desenhista novamente se defendeu, e as duas foram dormir, a pintora ansiosa pela manhã, quando levaria a desenhista para seu novíssimo ateliê.

E passaram as horas, e a noite passou, e o sol descobriu mais uma vez o mundo. Aqueles olhos naquele quarto colorido, antes o único a cores da casa, mal se abriam quando um grito ecoou pela casa. A pintora correu, subiu as escadas como flecha até o ateliê – ela sabia que só poderia vir dali, e borbulhava de alegria, e de ansiedade, afinal sua mais adorada amiga partilharia com ela da beleza das cores, com ela se banharia em mil sóis – e atravessou a porta sem olhar. Foi quando aqueles olhos se deteram na desenhista. Ela estava no centro, apoiada na prancheta, mão sobre a boca, joelhos implorando uma força que parecia não existir, e olhos ofuscados e embotados pelas lágrimas que lhe inundavam a face. Ela olhava desesperada de uma parede a outra, de um armário a outro, de um detalhe a outro, até que viu a pintora. E então correu até ela, e a empurrou para fora do ateliê, e fechou a porta. A pintora tentou abri-la, pedindo compreensão da desenhista, mas estava trancada. Ela tentou argumentar, mas parou para ouvir. E ouviu passos, uma caixa sendo aberta, silêncio, e o barulho inconfundível de um corpo caindo solto pelo chão. Ela tomou impulso, gritou como nunca antes havia gritado, e com os braços e pés e ombros se jogou contra a porta.

A desenhista estava deitada, como uma de suas marionetes jogada de canto, com as pernas umas sobre as outras, com bisnagas de tintas multicoloridas em volta de si, e bebia incessantemente de cada uma das bisnagas, violentamente ela apertava as bisnagas até que não houvesse mais amarelo-ocre, ou vermelho-carmim, ou azul-turquesa, e então passava a outra. A pintora, imóvel, não entendia, e com força renovada tentou arrancar daquelas mãos tão brancas a última bisnaga. E percebeu que a desenhista não a encarava. Não encarava nada em volta, antes fitava outro lugar. A pintora acompanhou o olhar e viu, na parede ao lado da porta, a parede que ela tinha deixado por último no dia anterior. E viu, horrorizada, que as suas pinceladas escorriam como se alguém tivesse jogado óleo de linhaça sobre elas, e viu também, assustada, que abaixo daquelas cores vivas e intensas, e ainda abaixo do cinza costumeiro, era possível distinguir um céu azul. Ela arranhou como pôde, sem nem saber por quê, a parede, até descobrir, abaixo da vida de sua própria cor, e abaixo do aparente cinza da desenhista, um céu, e montanhas, e um campo, e um belo lago azul, e em sua margem uma mulher, com um inconfundível traje, com a roupa nobre de uma imperatriz de cores. E enquanto as lágrimas, como dispersas pinceladas, escorriam pela sua face, ela ouviu o sussurro da desenhista. Em suas mãos tão brancas, abaixo de suas unhas pintadas de preto, escorria um azul profundo. E naquelas mãos estava a última bisnaga, vazia, a única que a desenhista não precisou tragar com ferocidade. E passou os braços por aqueles ombros tão brancos, tão frágeis, e ouviu novamente o sussurro. “São suas. As cores. São suas” ela ouviu, a voz tão fraca e tão pungente, certeira como uma flecha em fogo consumida, e a abraçou mais forte, até que o último suspiro se esvaísse pelos seus braços. Em lágrimas ela deitou a desenhista à sua frente, e tirou a última bisnaga de suas mãos.

E leu, em letras manchadas, a cor que se espalhava por aquele lago tão unicamente pintado, e enfim percebeu que aquele contorno, aquele traço que envolvia a mulher na margem do lago, era o mais definido de todos, que jamais houve uma união tão bela, tão intensa, e afinal tão viva, do cinza com as cores, e segurou uma última vez aquela mão tão branca, enquanto escorriam pelos seus dedos os restos de um azul-cobalto.

8 de janeiro de 2010

Vênus em letras...



Às vezes você está conversando, e são conversas tão complexas que você prefere se abster do assunto, não por que você não tenha um conhecimento, mas pelo simples fato de que não está muito afim.
O tema discutido era sobre as mulheres na poesia, e parei para pensar na relação entre os poetas e as poetisas, em geral, os poetas obtem uma maior exposição do seu trabalho do que as poetisas. Não estou falando de uma guerra de sexos entre qual é capaz de escrever melhor, não, apenas me chama a atenção, até tempos atrás as mulheres antes eram esposas, depois donas de casa, mulheres e somente a partir daí elas podiam ser simplesmente elas.
Vivendo à margem, elas observaram, e quando colocaram tudo que viam em palavras, simplesmente brilharam, ainda que de forma anônima. Então coloco aqui a história de três autoras brilhantes.




A primeira vez que li e decorei um poema, que me apaixonei por um poema foi lendo Florbela Espanca, o nome do poema era "Eu".
Ela nasceu em Vila Viçosa em 8 de dezembro de 1894, poetisa portuguesa teve uma vida agitada e inquieta, precursora do movimento feminista no seu país, ela transformava seus pesadelos e inquietações em poemas íntimos, femininos e erotizados.

Era filha de Antonia da Conceição Lobo com João Maria Espanca, mas sua mãe sendo empregada, o pai não a reconheceu, mas após a morte de sua mãe Florbela passa a ser criada por seu pai e a esposa dele, Maria Espanca. João Maria só veio reconhecer a paternidade anos após a morte de Florbela.

Casou-se três vezes, a primeira vez foi em 1913 (no dia de seu aniversário) com Alberto Moutinho.
Concluiu o curso de Letras em 1917, e inscreveu-se depois no curso de Direito, sendo a primeira mulher a frequentar este curso na Universidade de Lisboa.

No ano da publicação de "Livro de Mágoas" sofre um aborto involuntário (1919), passando a apresentar sintomas de desequilibrio mental.
A partir da separação em 1921, passou a encarar preconceito social decorrente da separação, casando no ano seguinte com Antonio Guimarães.

Em 1923 é publicado "Livro de Sóror Saudade". Após sofrer novo aborto, seu marido se divorciou, e em 1925 ela casa-se novamente, com Mário Lage.
A morte de seu irmão em um acidente de avião a deixa abalada e leva-a a escrever "As Máscaras do Destino".

Após ser diagnosticado um edema pulmonar ela se suicida no dia do seu aniversário, 8 de dezembro de 1930. Antes já havia tentado suicídio por duas vezes em outubro e novembro de 1930, às vésperas da publicação de sua maior obra "Charneca em Flor", que foi publicado em janeiro de 1931.

Poemas:

Eu...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!


Charneca em Flor


Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu bruel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Volúpia

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A núvem que arrastou o vento norte...
Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

Links:




Outra cujo contato é inevitável é Clarice Lispector, a leitura de seus livros cai em alguns vestibulares, além de ser estudada no ensino médio. Então, conheci ela do pior jeito possível, sendo obrigada a ler para fazer uma prova, mas passei a respeitá-la tempos depois quando vi uma entrevista sua, e sua personalidade forte me conquistou, me fazendo entender o que até então estava obscuro: a essência de seus escritos.
Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik em 1920, mas passou sua infância no Recife, mudou-se em 1937 para o Rio de Janeiro, onde formou-se em Direito.
Seu romance de estréia "Perto do Coração Selvagem" em 1943, teve calorosa acolhida e recebeu o Prêmio Graça Aranha.
Casou-se em 1944 com um diplomata, e em Nápoles serviu em um hospital durante os últimos meses da Segunda Guerra.
Esteve viajando pela Suíça e Estados Unidos, voltando a morar no Rio de Janeiro.
Suas obras de destaque são:

- A Legião Estrangeira (1964);



A partir de 1942 começou a colaborar com a imprensa, trabalhou na Agência Nacional e nos jornais A Noite e Diário da Noite, colunista no Correio da Manhã, entrevistas na Manchete, cronista do Jornal do Brasil. Textos estes que se encontram reunidos no volume "A Descoberta do Mundo".

A crítica francesa Hélène Cixous diz:
" Se Kafka fosse mulher. Se Rilke fosse uma brasileira judia nascida na Ucrânia. Se Rimbaud tivesse sido mãe, se tivesse chegado aos cinquenta. (...) É nessa ambiência que Clarice Lispector escreve. Lá onde respiram as obras mais exigentes, ela avança. Lá, mais à frente, onde o filósofo perde fôlego, ela continua, mais longe ainda, mais longe do que todo o saber".

(Clique para uma biografia mais que completa sobre a escritora)

Frases:

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."

"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever"

"Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas."

"Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome."
(Perto do Coração Selvagem)

"E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano"

"Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós."

"É difícil perder-se. É tão difícl que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo."

"... passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser."

Entrevista:

Parte 1


Parte 2


Parte 3


Parte 4


Parte 5


E por fim, deixei a recente descoberta por último, arrumando um monte de revistas, nestes encontros ao acaso com reportagens que você se surpreende encontrei Sylvia Plath, e uma crítica sobre o filme inspirado em sua vida. Fui buscá-la e quando encontrei, foi inevitável o deslumbramento.


Nascida em Boston, em 1932. Passou rapidamente por Nova York, tentou o suicídio mais de uma vez.
Em 1956 casou com o poeta inglês Ted Hughes, e com ele foi para Cambridge, Inglaterra. tiveram dois filhos. Separou-se em 1962. Em 1960 lançou seu primeiro livro "Colossus".
Em 11 de fevereiro de 1963, aos 30 anos de idade cometeu suicídio inalando gás de cozinha na sua residência.


Obras:

The Colossus, 1960
The Bell Jar, 1963
(pseudonym Victoria Lucas)
Harper and Row, 1971
(edition apparently contains drawings by Plath and a Biographical Note by Lois Ames)
Ariel, 1965
Crossing the Water, 1971
Winter Trees, 1971

Poemas:


PALAVRAS

Golpes
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha
Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro
Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.
(tradução de Ana Cristina César)


ARIEL

Estancamento no escuro
E então o fluir azul e insubstancial
De montanha e distância.
Leoa do Senhor como nos unimos
Eixo de calcanhares e joelhos!... O sulco
Afunda e passa, irmão
Do arco tenso
Do pescoço que não consigo dobrar.
Sementes
De olhos negros lançam escuros
Anzóis...
Negro, doce sangue na boca,
Sombra,
Um outro vôo
Me arrasta pelo ar...
Coxas, pêlos;
Escamas e calcanhares.
Branca
Godiva, descasco
Mãos mortas, asperezas mortas.
E então
Ondulo como trigo, um brilho de mares.
O grito da criança
Escorre pela parede.
E eu
Sou a flexa,
O orvalho que voa,
Suicida, unido com o impulso
Dentro do olho
Vermelho, caldeirão da manhã.
(tradução de Ana Cândida Perez e Ana Cristina César)


A CHEGADA DA CAIXA DE ABELHAS

Encomendei esta caixa de madeira
Clara, exata, quase um fardo para carregar.
Eu diria que é um ataúde de um anão ou
De um bebê quadrado
Não fosse o barulho ensurdecedor que dela escapa.
Está trancada, é perigosa.
Tenho de passar a noite com ela e
Não consigo me afastar.
Não tem janelas, não posso ver o que há dentro.
Apenas uma pequena grade e nenhuma saída.
Espio pela grade.
Está escuro, escuro.
Enxame de mãos africanas
Mínimas, encolhidas para exportação,
Negro em negro, escalando com fúria.
Como deixá-las sair?
É o barulho que mais me apavora,
As sílabas ininteligíveis.
São como uma turba romana,
Pequenas, insignificantes como indivíduos, mas meu deus, juntas!
Escuto esse latim furioso.
Não sou um César.
Simplesmente encomendei uma caixa de maníacos.
Podem ser devolvidos.
Podem morrer, não preciso alimentá-los, sou a dona.
Me pergunto se têm fome.
Me pergunto se me esqueceriam
Se eu abrisse as trancas e me afastasse e virasse árvore.
Há laburnos, colunatas louras,
Anáguas de cerejas.
Poderiam imediatamente ignorar-me.
No meu vestido lunar e véu funerário
Não sou uma fonte de mel.
Por que então recorrer a mim?
Amanhã serei Deus, o generoso – vou libertá-los.
A caixa é apenas temporária.
(tradução de Ana Cândida Perez e Ana Cristina César )



40 GRAUS DE FEBRE

Pura? Que vem a ser isso?
As línguas do inferno
São baças, baças como as tríplices
Línguas do apático, gordo Cérbero
Que arqueja junto à entrada. Incapaz
De lamber limpamente
O febril tendão, o pecado, o pecado.
Crepita a chama.
O indelével aroma
De espevitada vela!
Amor, amor, escassa a fumaça
Rola de mim como a echarpe de Isadora, e temo
Que uma das bandas venha a prender-se na roda.
A amarela e morosa fumaça
Faz o seu próprio elemento. Não irá alto
Mas rolará em redor do globo
A asfixiar o idoso e o humilde,
O frágil
E delicado bebê no seu berço,
A lívida orquídea
Suspensa do seu jardim suspenso no ar,
Diabólico leopardo!
A radiação faz que ela embranqueça
E a extingue em uma hora.
Engordurar os corpos dos adúlteros
Tal qual as cinzas de Hiroshima e corroê-los.
O pecado. O pecado.
Querido, a noite inteira
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva.
Os lençóis opressivos como beijos de um devasso.
Três dias. Três noites.
água de limão, canja
Aguada, enjoa-me.
Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa Deus. Sou uma lanterna —
Minha cabeça uma lua
De papel japonês, minha pele de ouro laminado
Infinitamente delicada e infinitamente dispendiosa.
Não te assombra meu coração. E minha luz.
Eu sou, toda eu, uma enorme camélia
Esbraseada e a ir e vir, em rubros jorros.
Creio que vou subir,
Creio que posso ir bem alto —
As contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu
Sou uma virgem pura
De acetileno
Acompanhada de rosas,
De beijos, de querubins,
Do que venham a ser essas coisas rosadas.
Não tu, nem ele
Não ele, nem ele
(Eu toda a dissolver-me, anágua de puta velha) —
Ao Paraíso.
(tradução de Afonso Félix de Souza)


ESPELHO

Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.
Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.
(tradução de Vinicius Dantas)


PAPOULAS DE JULHO

Ó papoulinhas pequenas flamas do inferno,
Então não fazem mal?
Vocês vibram. É impossível tocá-las.
Eu ponho as mãos entre as flamas. Nada me queima.
E me fatiga ficar a olhá-las
Assim vibrantes, enrugadas e rubras, como a pele de uma boca.
Uma boca sangrando.
Pequenas franjas sangrentas!
Há vapores que não posso tocar.
Onde estão os narcóticos, as repugnantes cápsulas?
Se eu pudesse sangrar, ou dormir !
Se minha boca pudesse unir-se a tal ferida !
Ou que seus licores filtrem-se em mim, nessa cápsula de vidro,
Entorpecendo e apaziguando.
Mas sem cor. Sem cor alguma.
( tradução de Afonso Félix de Souza )


Trailer do Filme


Links (em inglês):

Link 1

Link 2


Artigo em Português sobre a autora.


Fonte: Rua da Poesia

Pensador

O Poema

4 de janeiro de 2010

E quem disse que é só pra ler???

Quando entramos numa biblioteca, numa livraria ou mesmo quando olhamos os livros nas nossas estantes normalmente pensamos nas histórias que há naquelas páginas, ou nos pensamentos de grandes mentes registrados em papel, ou mesmo em alguma besteira que virou livro, certo?

Bem, nem todos vêem apenas isso nos livros...


Um site listou várias obras esculturais e estruturais cuja principal (e na maioria das vezes única) matéria-prima são livros!

Vale a pena ver!







Visite o site para ver mais fotos. Eu achei este último inacreditável!

3 de janeiro de 2010

Coraline



"Coraline descobriu a porta pouco depois de terem se mudado para a casa."
(...)
"Das portas que encontrou, treze abriam e fechavam. A outra - a porta grande e de madeira escura esculpida, no canto mais afastado da sala de visitas - estava trancada."

Assim começa uma história aparentemente infantil, aparentemente banal, em um livro aparentemente dispensável. E, pra ser sincero, eu não cheguei primeiro ao livro. Para ser bem sincero, eu primeiro conheci o jogo baseado no filme, depois fiquei sabendo do filme e, só aí, em uma livraria que mais parece um sebo, me deparei com o mesmo título - nada tão especial, se não fosse pelo nome estampado acima de "Coraline": Neil Gaiman.

Coraline conta a história de uma menina que se muda com os pais - que não lhe dão a menor atenção - para uma casa muito velha, ou mais precisamente para um dos apartamentos da casa. Há duas mulheres morando no apartamento abaixo, e um homem um tanto quanto maluco no apartamento acima. E há um apartamento vazio. E há uma porta que dá para uma parede de tijolos. Pelo menos, ao que parece.

Coraline atravessa a porta e descobre outro mundo, onde sua Outra Mãe e seu Outro Pai a acolhem com carinho, brincadeiras e comidas deliciosas. E aquele Outro Mundo parece ser tudo que ela sempre quis. Parece mesmo, se não fossem pelos botões costurados nos olhos de todos, pela altura estranha e mãos que mais parecem garras de sua Outra Mãe... A partir daí Gaiman nos lança numa atmosfera de terror e fantasia non-sense (com deliciosas citações de Alice no País das Maravilhas e filmes clássicos de terror) que retiram definitivamente o livro do rótulo "Infantil".

O livro é de 2002, e conta com ilustrações brilhantes (e aterrorizantes) de Dave McKean. No Brasil, foi lançado pela Editora Rocco. Em 2009 foi feito um filme, dirigido por Henry Selick (o mesmo diretor de O Estranho Mundo de Jack, cujo roteiro é de Tim Burton), totalmente em stop motion, que é a técnica de se filmar as cenas quadro por quadro - uma das mais trabalhosas e mais antigas do cinema. Mas, o filme segue o livro???


Como toda adaptação, há diferenças. A principal e mais gritante é a presença de Wybie, um menino que mora ao lado da casa de Coraline, porém a maneira com que Selick - que também escreveu o roteiro do filme - introduziu o personagem na história é genial. Algumas diferenças ocorrem na história, quanto à sequência dos fatos e outros, mas mesmo assim o filme é uma bela adaptação do livro.

Quanto ao filme ainda, vale a pena assistir aos extras e visitar o site, pois em ambos há vídeos mostrando a dificuldade e o milagre que é a arte do stop motion. Para não ficar só na vontade, aqui vai um deles:


O filme é um dos melhores do gênero stop motion já criados. Arrisco até dizer que as marionetes, a caracterização dos personagens e a animação em si são melhores do que em O Estranho Mundo de Jack.

Foi lançado ainda um jogo para o Nintendo Wii (que por experiência própria não vale a pena...) baseado no filme, e há versões em Blu-Ray e 3D do filme disponíveis.

Enfim, Neil Gaiman reinventa em Coraline a fantasia non-sense, que normalmente não é levada muito a sério, adicionando uma boa (tremenda) dose de terror à história e a todos os personagens. O filme vale a pena, mas o livro... é perfeito.

"Este livro conta uma história fascinante e perturbadora que quase me matou de susto. A menos que você queira se esconder debaixo de sua cama, com o dedo na boca, tremendo de medo e fazendo toda a espécie de sons estranhos, sugiro que largue o livro devagarinho e vá procurar uma diversão mais leve, algo assim como um crime sem solução, pra desvendar."
Lemony Snicker, autor de Desventuras em Série.

E ele tem razão! Li o livro em uma casa que não era a minha, num quarto com objetos que eu desconhecia. Ao menor barulho eu olhava em volta. Então, se você quer misturar Alice com um terror direto e certeiro, e ainda ficar com dúvidas sobre a segurança das suas janelas, sugiro que leia!



E abaixo você confere o trailer do filme (em inglês):



"Contos de fada são a pura verdade: não porque nos contam que os dragões existem, mas porque nos contam que eles podem ser vencidos." - G. K. Chersterton