12 de maio de 2010

Lucidez...


          A cada momento eu me sinto mais lúcido. E não, eu não falo de hoje e das conseqüências de ontem. A vida parece caminhar cada vez mais atenta, com os olhos e ouvidos bem despertos para qualquer possível incoerência. O caminho, porém, também tem seus caprichos; parece rumar cada vez mais negligente, mais falho, com uma extrema e precisa falta de reciprocidade enviada a mim, a mim como um presente. Um presente? Não, talvez aqui eu me engane – e agora sim falo de hoje e ontem.
          Não tenho a audácia, a arrogância de raciocinar se essa lucidez é boa ou má. Não, isso eu deixo para outros, até porque há tantos que sentem verdadeira paixão por raciocinar, argumentar e – mais freqüentemente – fofocar a respeito das escolhas que eu abraço: então por que perder eu mesmo tempo com essa questão? E eu seria um niilista, um parvo idiota, um bookworm (o ontem ecoa novamente!) apenas por dizer isso? Não, acho até mesmo isso perda de tempo. A beleza de um niilista é tão puramente pequena que eu prefiro desviar o olhar para as estrelas quando um deles resolve enumerar o quanto ignorou os padrões, ‘provando para todo mundo que não precisa provar nada pra ninguém’, eu apenas olho para as estrelas e meus ouvidos tentam absorver apenas o que vem delas – elas sempre têm algo melhor para dizer.
          É claro que não é uma dádiva exatamente estar cada vez mais lúcido. Hábitos antigos, antigas roupas que eu vestia e me caíam tão bem, um ajuste tão perfeito, acabam virando relíquias, pequenos volumes numa memória por demais fragmentada. Essas mesmas roupas que eu vestia sempre, que me isolavam de uma maneira deliciosamente hermética, esses hábitos que me faziam único para mim mesmo, agora me olham incomodadas quando resolvo abrir o meu baú de memórias, incomodadas talvez com a luz que cega seus olhos e mostra as teias que já formam uma nova camada de cor. Na verdade, talvez apenas uma roupa ainda aceite ser incomodada, e esta é relativamente nova, ainda não me conhece muito bem (e eu mesmo ainda a estranho). Não que eu me importe de usar a mesma sempre, mas temo pelo momento em que ela vir minha verdadeira face – que clichê mais detestável! – e então eu tenha que andar nu.
          Apenas uma questão me aflige quanto à lucidez. Não é o fato da mudança, nem a beleza dessa lucidez, nem mesmo a vontade crescente de rever Sodoma e virar uma coluna de sal. Nada disso me aflige de fato. Um niilista, apenas, se preocuparia com isso – pois afinal são eles os que mais avaliam tudo como bom ou mau –, e eu rio do niilismo. Não, o que mais me preocupa em enxergar e ouvir cada vez mais, o que me desvia a atenção enquanto me divirto com alguém interessante – interessante, aliás, demais para não receber minha atenção –, o pensamento que se deita ao meu lado sussurrante, é se toda essa clareza, essa visão, essa audição – essa lucidez – é realmente necessária.


Escrito no Jardim, em 08/05/2010.

21 de abril de 2010

Type O Negative



Type O Negative é uma banda que surgiu em 1990, sendo uma idealização de Peter Steele, que em um primeiro momento formou a banda Carnivore, lançando dois álbuns, o primeiro homônimo e o segundo intitulado "Retaliation".
Com o fim desta banda, Peter abandona o meio musical e começa a procurar outros músicos. Assim, no ano de 1990, a banda já com o nome e formação já conhecida (Peter Steele, Sal Abruscato, Kenny Hickey e Josh Silver) prepara o álbum de estreia.

"Slow, Deep and Hard" é o primeiro álbum da banda, que foi bem recebido pela crítica e pelo público. 
Outros álbuns vieram que levaram a banda a consolidar seu sucesso. A sonoridade não se define e nem enquadra em um estilo, a banda faz suas músicas, seu som de forma extremamente sincera e livre. Em cada álbum pode se observar os demônios e fantasias da banda, e principalmente de Peter Steele, moldados em uma atmosfera verde e preta.
















* Este post é uma pequena homenagem a Peter Steele, vocalista do Type O' Negative que morreu aos 48 anos de causas não divulgadas (reportagem).


Fonte: Uploads by Elegia em Canto

16 de abril de 2010

Chopin e Schumann: poetas do piano!

Conta a história que Frédéric Chopin e Robert Schumann não eram lá grandes amigos. Não que Schumann não tivesse tentado estreitar os laços de amizade, longe disso. Ele, inclusive, foi um dos principais responsáveis por tornar Chopin conhecido em toda a Alemanha, ao enaltecer o seu talento em artigo para um jornal musical. O fato é que os elogios não eram correspondidos e, assim, Chopin nunca foi um grande entusiasta das composições de Schumann. Essa é apenas uma das curiosidades que cercam a vida desses dois expoentes da música clássica, nascidos há 200 anos e símbolos do Romantismo do século 19. Chopin era polonês – embora tenha vivido em Paris desde os 20 anos – e veio ao mundo em 1º de março de 1810. Schumann nasceu em 8 de junho na cidade alemã de Zwickau. Chopin era um menino prodígio e já compunha aos 7 anos. Schumann dedicou-se à música a partir da segunda década de vida, quando já era um talento também na poesia. Chopin tinha tuberculose desde a adolescência, embora um estudo de 2008 garanta que, na verdade, tratava-se de fibrose cística. Schumann abusou dos charutos e das bebidas. Em comum, os dois foram geniais intensos.

Dois séculos depois, a consistência de suas obras continua impressionando, como atesta o pianista e professor Dr. Eduardo Monteiro, do Departamento de Música da Universidade de São Paulo (USP). “Eles são poetas do piano e o maior legado que deixaram é a obra extremamente rica. Chopin é centrado no piano e toca na sinceridade das pessoas. Schumann é pouco mais eclético com obras que envolvem outros instrumentos.” Quem também é apaixonada por Chopin é a talentosa e jovem pianista brasileira Juliana D’Agostini, que acaba de lançar o elogiado álbum Chopin/Liszt. “Para o meu primeiro álbum, pensei em peças relativamente conhecidas e que mostrassem tanto expressividade quanto técnica. É um repertório que mostra refinamento, elegância, e Chopin é isso. Ele sempre mostrou muita maturidade e a música dele é fácil de ser entendida pelo público leigo”, ressalta.
AMOR, SEMPRE AMOR
Românticos, o amor é um capítulo à parte na história dos dois pianistas. Chopin ligou-se aos 26 anos com a baronesa Dudevant, famosa escritora conhecida pelo pseudônimo masculino de George Sand e que escandalizava a sociedade com trajes masculinos e inúmeros amantes, incluindo a atriz Marie Dorval, como relatam algumas biografias. Turbulento, o romance durou dez anos. Durante esse período, Chopin compôs algumas de suas mais brilhantes obras, como a Op. 53: Polonesa "heróica", Op. 35: Piano sonata em Si bemol menor, os prelúdios, entre outras. Mas, se tratando de Chopin, o mundo moderno se rendeu definitivamente aos seus Noturnos, em especial ao Op. 9 N.º 2. O conflito amoroso não é diferente na vida de Schumann. Em 1840, ele se casou com a jovem pianista Clara Wieck, com quem teve oito filhos e uma relação difícil. Nesse período, o alemão compôs inúmeras peças, como Arabesco em Dó maior, Op. 18, Kreisleriana – Fantasia para piano e Orquestra em Lá menor, Op. 54. Intensos na vida. Trágicos na morte. Chopin, com o pulmão devastado, foi vencido pela doença em outubro de 1849, aos 39 anos. Schumann viveu sete anos a mais, mas tentou suicídio, perturbado por uma séria inflamação do ouvido e dizia ouvir a nota Lá em todos os lugares. Depressivo, morreu em um asilo para doentes mentais em junho de 1856, aos 46 anos.

Hoje, em tempos de muito pop/funk/electro, não é preciso análise profunda para mergulhar no rico universo de Chopin e Schumann. Um simples play em seu aparelho de som é capaz de levá-lo a uma viagem inesquecível pelo tempo. Experimente!

Matéria publicada na Revista da Cultura, edição de abril de 2010.

Abaixo, dois vídeos do pianista Vladimir Horowitz, executando o Noturno Op. 72 no. 1 de Chopin (primeiro) e as Cenas Infantis (Kinderszenen) de Schumann.





Curiosidades:
- O Noturno op. 72 no. 1 é uma das oito obras de Chopin descobertas após a sua morte, e por isso declaradas "obras póstumas".
- Era desejo de Chopin que fosse enterrado sem seu coração, por medo de ser enterrado vivo. Assim, seu coração permanece até hoje lacrado dentro de um pilar da Igreja da Santa Cruz (Kościół Świętego Krzyża) em Krakowskie Przedmieście, debaixo de uma inscrição do Evangelho de Mateus, 6:21: "onde seu tesouro está, estará também seu coração". Curiosamente, foi salvo da destruição de Varsóvia pelos nazis, em 1944, pelo general das SS, Erich von dem Bach-Zelewski. (Fonte: Wikipedia)

15 de abril de 2010

Interpretando Alice

Quando Lewis Carroll – pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson – presenteou Alice Pleasance Liddell, uma garotinha de 11 anos, com seu manuscrito de Alice no País das Maravilhas, ele não imaginava que esta seria uma das obras mais adaptadas do mundo. No livro de 1865, o escritor britânico idealizou um universo de duplos sentidos que se divide entre o lúdico infantil e um dos melhores registros em inglês vitoriano.

Carroll se tornou referência em literatura nonsense com seus complexos enigmas de lógica e poemas emaranhados a um mundo delirante. “Em uma época em que vigorava um texto moralista, muitas vezes com cunho religioso, criar uma história imaginativa na qual não existe bem e mal foi bastante inovador”, comenta Adriana Peliano, presidente da Sociedade Brasileira Lewis Carroll (SBLC).
Existem associações focadas em disseminar o livro nos Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, Japão e Canadá. Aqui no Brasil, a SBLC foi fundada em 2009 e organiza eventos com frequência. Grupos de estudiosos, artistas e leitores apaixonados colecionam edições raras, publicam dissertações e estão sempre tentando interpretar os densos textos da obra. “A história abre portas de compreensão do mundo e sempre se mostra diferente. As explicações são infinitas, por isso há tantas pessoas interessadas em explorá-la”, diz Adriana.

Um deles é o excêntrico diretor Tim Burton, com a nova versão do livro para o cinema. O filme 3D de Burton ganhou distorções bizarras, personagens pra lá de caricatos, além de um novo roteiro: Alice cresceu e está com 19 anos. Desconcertada por um pedido de casamento repentino, foge atrás de uma resposta e acaba caindo no conhecido buraco que a leva para o mundo subterrâneo. Burton deu a Alice ar feminista, com espírito livre e contra os costumes rígidos da Inglaterra vitoriana.
Myriam Ávila, professora de teoria da literatura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), escreveu seu mestrado baseado em Carroll. “Seria apenas sobre o autor, mas, ao ler Macunaíma, comecei a notar semelhanças entre Alice e ele. Então, resolvi explorar o assunto.” O resultado foi uma tese ousada e criativa. Myriam percebeu que o “herói sem caráter” tinha uma queda pelo estrangeiro. Assim como Alice, que transparece sua vontade de explorar mundos distintos. Ambos poderiam sentir interesse um pelo outro.

Loucura? Nem tanto. Afinal, o grande trunfo de Alice é justamente estimular o pensamento por meio de um diálogo não literal, no qual os símbolos, as figuras de linguagem e as metáforas usadas permitem que o leitor construa uma relação entre a fantasia e a realidade e que não queira mais sair desse lúdico universo.

Matéria publicada na Revista da Cultura, edição de abril de 2010.

Silente Duelo

Na calçada, banhada pela noite
Ela espera o descanso, viagem
E talvez um acordar tímido
Para mais um dia esgotado

Tentou ela andar
E se arriscar mesmo a correr
E largou todo o peso
Por uma talvez vitória

Mas ah que nada se vence!
O cansaço cobra seu preço
E ela parou, força alheia,
Queria ainda correr – e não pode?

Seu corpo já não quer
Não agora, nesse momento
Talvez depois, se outro quiser
Um não-querer cinza e ácido
Mas não agora, não agora

Ela vê a noite, e tantas noites!
Tantos passos, jornada
Para, agora parada, desistir?

Pois “não!” e ela tenta
Força os pés, e salta
Dá um passo, tropeço
Eis, o cansaço cobra seu preço

É outro corpo?
Ah, por certo que lhe roubaram
Raptaram seu antigo corpo
E deram-lhe um tal, postiço

Ela não vê, ah não vê
Mesmo corpo, cicatrizes
Apenas uma breve mudança
E ela já não anda mais

E na calçada, ela espera
Pelo momento, tão-dito momento!
Surgirá um outro, perfeito
Ou o mesmo, renovado?

E se o momento não surgir?
E se de fato ela devesse fugir
E sair desses pés que mudaram
Até quando, para onde, esperar?

E uma noite, outra, e mais uma
O que há de mal em andar?
Por que não correr?

Em uma fria calçada
Sob o abraço quente do luar
Ela espera o vazio, e esquecer
Afinal, agora, por que esperar?
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Escrito no Jardim, em 14/04/2010.
Ouvindo Fade to Black (Metallica),
pela versão da banda Apocalyptica.
Imagem: 7th Forest, por Senyphine.

A alguém que soube tentar. A Jackeline.

5 de abril de 2010

A poetisa atrás do véu...

Uma poeta saudita que faz versos criticando clérigos islâmicos extremistas se tornou favorita para vencer um popular e milionário concurso de poesia em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.
Vestindo o niqab, tradicional véu islâmico que deixa apenas os olhos da mulher à mostra, Hissa Hilal recitou seu poema de 15 versos "O Caos das Fatwas", no concurso Poeta Milionário (em tradução livre), transmitido pela televisão estatal.
O poema, que faz uma crítica à influência do fundamentalismo e das fatwas - pronunciamento legal emitido por um especialista em lei islâmica quando existem dúvidas sobre como proceder em determinadas situação - na sociedade árabe, recebeu elogios do público e dos juízes.
O vencedor do concurso, que ganhará o prêmio equivalente a US$ 1,3 milhão (cerca de R$ 2,3 milhões), será anunciado na próxima semana.
Ameaças
Em entrevista ao Serviço Mundial de Rádio da BBC, Hissa Hilal dise que recebeu ameaças de morte pela internet, mas que um número maior de pessoas havia demonstrado apoio à sua iniciativa.
"A maioria das pessoas amou o que eu disse. Eles acham que sou muito corajosa de dizer o que digo. Mas também há muitos que me atacam e que dizem que sou uma má mulher e que quero que todas as mulheres sejam como eu", afirmou Hilal.
A poeta explicou que decidiu escrever o poema ao notar que "a sociedade árabe está cada vez mais fechada em si mesma e não como era antes, quando todos eram bem-vindos e mesmo um estranho se sentia aceito pela sociedade".
"Hoje em dia mesmo se você quer ser bom com as outras pessoas tem que perguntar antes se é permitido ou não falar com estrangeiros. Eu culpo aqueles que guiaram as pessoas nesta direção", disse Hilal.

A notícia é da BBC Brasil, publicada em 25 de março de 2010.

É realmente maravilhoso ver que mesmo na escuridão do fundamentalismo islâmico, pode surgir poesia. E mais: uma poetisa, uma mulher, numa cultura profundamente e radicalmente machista!

Como o escritor Franz Kafka disse certa vez, o poeta "tem uma tarefa profética". As pessoas podem até tentar acabar com a sensibilidade. Mas ela, a poesia, nunca morre.

Fonte da notícia: BBC Brasil

28 de março de 2010

Silêncio

Era tarde. Era fácil deduzir isso mesmo deitada na cama, pensando, e pensando ela se perdia nas sombras definidas e marcadas nas paredes pela pequena lâmpada acesa. Era fácil saber que as horas já corriam apressadas, e saber que o tempo para terminar aquela última cópia estava caminhando para o fim. O frio dizia, o frio que acompanhava a noite e o silêncio. Mas talvez as janelas dos prédios vizinhos pudessem confirmar.

Era mesmo tarde. As janelas estavam todas apagadas, o sono leve/pesado de desconhecidos já se arrastava por elas, algumas vezes escorria das janelas abertas, levando consigo cortinas finas de seda, outras vezes se debatia em vidros cerrados. O sono de todos, os sonhos de todos, juntos num uníssono silencioso, tão desagradável por acentuar o sabor amargo dos pensamentos. Ela pensava, e era obrigada a isso por aquele silêncio abissal. Mais duas pautas, e estaria terminada aquela cópia irritante pedida no dia anterior na gráfica, e então a copista poderia se refugiar no seu também silencioso sono, mas os pensamentos a impediam de marcar as notas corretas nas linhas. A noite deslizava calmamente pelo quarto, as janelas estavam ainda todas apagadas, mas uma havia se acendido, naquele apartamento do outro lado da rua que ela tão bem conhecia.

E naquela janela, a cena que ela já decorara se repetiu: um homem vestido de solidão e cansaço andava relutante pelo quarto com folhas de papel rabiscadas, e então se sentava diante de um piano velho preto de parede, e passava horas com as mãos ora nas teclas, ora na caneta sobre o papel. Mais uma vez a copista abria a sua própria janela esperando os sons do piano, e só o silêncio banhava sua face carregado pelo vento frio, e a deixava novamente sozinha com seus pensamentos.

De solavanco ela acordava, assim, todos os dias, porque dormia profundamente, e porque quase sempre as horas haviam corrido rápido demais. E então ela corria para o térreo, e entrava na gráfica, e esperava que aquele que pediu a última cópia viesse, e ela assim poderia ficar livre para sentir a velocidade das pessoas pela gráfica. Era simplesmente adorável ver crianças batendo nas prateleiras querendo esse ou aquele quadro, ver que as pessoas olhavam quase sempre as mesmas coisas, e aquilo que era ignorado por um, ela sabia, seria ignorado por todos, e ficaria sozinho acumulando pó em alguma prateleira, até que ela ou outro alguém fosse até lá e com prazer eliminasse o desnecessário. Ela se deliciava em ouvir o barulho das pessoas esbarrando nos quadros, nas amostras, nos vidros, e ainda mais quando algum cliente tamborilava sobre o balcão. A confusão de sons se espalhava por todas as paredes, e ela amava isso.

Em algum momento, porém, sempre vinha aquela lufada de vazio, e eliminava o barulho. Ainda bem, claro, que sempre alguém se preocupava seriamente com isso e então o rádio era acordado para despejar músicas e notícias e anúncios e discussões. Isso evitava que o tempo demorasse para andar, evitava que ela olhasse em volta e visse onde estava, que ela olhasse para fora e visse onde não estava.

Mas de tempos em tempos, ela sabia, alguém trazia o silêncio consigo. E era sempre o mesmo alguém, que ela conhecia das janelas noturnas, o mesmo homem, o pianista, com algumas ou várias folhas de papel rabiscadas e borradas de nanquim, o que contorcia o rosto quando alguém derrubava uma pilha de papel, ou quebrava um quadro, ou uma criança insatisfeita gritava sua insatisfação. E ela já sabia que ele desviaria cuidadoso de todos, até chegar ao seu balcão e pedir duas cópias profissionais de seus rascunhos. Ela já previa inclusive várias noites lentas, debruçada sobre o papel, transformando os rabiscos nos pentagramas improvisados em verdadeiras partituras, finas, delicadas e sem borrões. E quando ele ia embora, finalmente o barulho de tudo voltava.

A copista passava assim o dia inteiro na gráfica, admirando e escutando, afinal poucos vinham realmente pedir os seus serviços. Gostava especialmente do fim da tarde, quando ela já tinha certeza de que ninguém precisaria dela, e ela se recostava na parede da frente da gráfica, e o barulho dos clientes e o barulho da rua eram um só. Ela se divertia com aqueles que gritavam das janelas, ria por ver as mesmas janelas, agora iluminadas por um sol de fim de tarde meio empoeirado. E tantas pessoas, tanta gente passava correndo pela calçada, uma bicicleta esbarrava em alguém, e todo aquele volume de outrem, de alheios a tudo, que atravessava as ruas de minutos em minutos, quando então os semáforos davam a vez aos carros e ônibus e caminhões, e mais mil sons então a envolviam, e era difícil perceber que a tarde já tinha virado noite.

A noite, aliás, trazia mais multidões. A copista ia ao bairro vizinho, passeava por lojas abarrotadas, comia algo em algum lugar, ia ao fantástico cinema onde podia ver vidas inexistentes se acabando em meio aos tiros e gritos, ou essas mesmas vidas esperando um pouco de carinho e atenção em seus universos pequenos, e como era bom ver os créditos e saber que aquilo existia apenas na tela. Ou talvez ela ia ao teatro, e adorava quando alguém tossia, ou comia ruidosamente uma pipoca, ou – o mais emocionante! – jogava uma pipoca no palco, e ela ria um riso solto junto com todos. Ou talvez ela ia a algum show, e gritava até não haver voz, ou então dançava tanto, tanto, e se cansava, e então voltava para sua rua, seu prédio, e entrava desejando seu quarto e sua cama.

Naturalmente a cama estava distante, porque sempre faltava alguma cópia para ser feita, e ela passaria horas no quarto escuro, iluminado apenas pela lâmpada da sua mesa. E em algum momento, só para confirmar o que o frio sussurrava, ela olharia para as janelas dos outros prédios e veria que a noite avançara, e seu olhar tropeçaria na única janela iluminada, onde o pianista tocava incessantemente seu piano, e ainda mais uma vez ela abriria a janela esperando ouvir as notas, e só o silêncio a receberia do lado de fora. Do lado de dentro, porém, ela sabia que seus pensamentos a esperavam, sentados na beirada da mesa, ou no pé de sua cadeira, ou nas paredes, ou mesmo depois, no seu travesseiro. E lhe perguntariam os motivos, por que ela não conseguia ouvir o que o pianista tocava, e por que ela olhava para lá mesmo sabendo que não viria nenhum som daquela janela, por que ela reparava cuidadosamente no pote de nanquim sobre o piano, nas folhas espalhadas, e por que afinal o pianista haveria de querer tocar durante a noite. E nessa batalha ela permanecia, até que o sono vencesse.

E a semana passava, e então vinha o domingo. A copista acordava de um pulo, vestia sua elegância de meio-dia e corria para a praça central, onde ela sabia que centenas de pessoas se amontoariam para ver exposições de algum artista desconhecido, passando pelos quadros ou fotografias ou esculturas rindo e conversando – pois afinal todas aquelas cores confusas, aquelas fotos monocromáticas ou estátuas tortas não faziam o menor sentido. Ou então, o que ela mais gostava, algum grupo tocava alguma música conhecida, e todos batiam freneticamente suas fotos e iluminavam com seus flashes cada pedacinho do espaço em que os músicos se amontoavam, e ela mesma tinha a oportunidade de pedir algum autógrafo. E pela tarde inteira ela poderia andar pela multidão, de sons, de sabores, de pessoas. E até à noite, quando ela poderia ouvir de algum rádio ou televisão alguma música repetidas, e várias, e muitas vezes.

E mesmo quando se acabassem as opções, sempre havia um filme policial para ver, alguma perseguição de carros, algum apresentador gritando sobre a mais recente notícia, até que o sono crescesse e se tornasse maior que tudo, e a arrastasse para a cama. E era fácil dormir, sem pensamentos para debater.

Mas quando não era domingo, ah as noites eram pesadas. E, de fato, quase sempre ela pensava nos porquês do pianista. Afinal a luz daquela janela desenhava uma sombra por metade de seu quarto, e mesmo que ela fechasse a cortina, a luz ainda daria um jeito de chegar às suas paredes. Ela refletia, cada vez mais, se o pianista realmente dormia. Se em algum momento, além de quando ia até a gráfica, ele se deitava e apagava sua luz. Talvez ele dormisse durante o dia, mas esse era um pensamento que ela tinha apenas pouco antes de dormir, porque afinal não fazia o menor sentido perder o dia dormindo, perder toda a velocidade das coisas que o dia trazia.

Certa vez, porém, ela notou que o pianista demorou para aparecer. Isso porque ele sempre voltava até a gráfica a cada semana, ou duas no máximo, mas já fazia um mês que ele não vinha até o balcão da copista com folhas rabiscadas. Da frente da gráfica ela tentou encontrar a janela do pianista, entre tantas abertas e com tantas pessoas, mas não conseguiu. Afinal eram todas iguais, e ela só identificava aquela janela pela luz solitária, que naturalmente estava apagada durante o dia. À noite ela contou as janelas, e marcou num papel o lugar exato da janela do pianista, mas mesmo assim ainda tinha dúvidas. Afinal eram todas iguais.

E enquanto ela se perdia na visão das janelas, parada em frente à gráfica, um folheto tropeçou no poste em frente, um anúncio de um concerto de piano para o domingo daquela semana, para o dia seguinte. A copista observou animada que vários músicos participariam, mas se lembrou com pesar que o pianista era uma incógnita para ela, sem nome, sem qualquer identidade. De volta ao seu balcão, já esperando o final do dia, ela viu quando o pianista entrou na gráfica com várias folhas, e cuidadosamente passou pela multidão até ela, e entregou mais um rascunho para ser copiado pelas mãos da copista. Só que dessa vez, era urgente, era preciso que estivesse pronto até a manhã do dia seguinte, quando ele viria pegar sua partitura pronta. O pianista até chegou a perguntar se ela iria ao concerto, chegou a dizer alguma coisa além do necessário. E dessa vez, ela observou, seus olhos pareciam mais fundos do que o habitual, e suas unhas pareciam mais manchadas de nanquim do que nunca.

Com o máximo de velocidade que podia, ela copiou o rascunho pela noite inteira. Mesmo quando os pensamentos vieram conversar, ela continuou, e mesmo quando eles elevaram a voz e correram pelo quarto e gritaram, ela continuou. Era urgente, afinal, e o silêncio aterrador não a intimidaria, as janelas não a atrairiam, ela não olharia para a única janela iluminada. E mesmo quando a fome se juntou aos pensamentos, e quando o sono se recostou na sua cadeira e pesou sobre seus ombros, ela continuou.

Os rabiscos estavam especialmente borrados dessa vez. Ela se demorou em vários trechos, tentando distinguir o que cada traço significava em meio às manchas de nanquim, e afinal o que era traço, e o que era mancha. Havia muitos detalhes, e muitos pianíssimos e fortíssimos, e crescendos e diminuendos que ela teria que transcrever com cuidado. Pauta por pauta, página por página, folha por folha, ela copiava o que parecia ser intenso demais para caber nas mãos de alguém, e assim teria o pianista borrado cada compasso por não suportar em seus dedos o peso de tanta intensidade. Horas, e horas, e horas, e cada página foi terminada como devia, até que os pássaros anunciavam o que ela suspeitava: a noite havia ido embora.

Descendo devagar, ela chegou até a gráfica, destrancou a porta, se recostou no balcão e esperou. A manhã passou, os pequenos pássaros que haviam lhe anunciado a manhã agora brigavam na calçada por um pedaço de pão, enquanto mais à frente alguém deitado em outra calçada olhava o mesmo pedaço de pão. As pessoas andavam, os carros passavam, mais sons vinham, e ela sabia que o domingo estava andando por aí sem que ela o acompanhasse. Ela olhava para os prédios do outro lado da rua, esperando que o pianista surgisse, e nada. Sonolenta, tentou encontrar novamente aquela janela solitariamente iluminada, e talvez num delírio de semi-sonho, talvez num lapso de consciência entre um rápido fechar de olhos, ela a encontrou. Estava lá, e como poderia não estar, como ela não havia ainda percebido? Estava lá, tão rara e única e diferente das outras. E ele afinal não vinha.

Até que o sono fez com que os sons de que ela tanto gostava se afastassem, e deixou que um pensamento se aproximasse e se apossasse de sua consciência. A copista pensou que afinal o pianista não viria, e que ela acabaria por perder o domingo. E o concerto! havia ainda o concerto para ir, e ela o perderia se ficasse esperando o pianista. Por que então ter que esperá-lo? Por que não deixar sua partitura guardada, e entregar depois? Ou melhor – e isso ela pensou quando de relance seus olhos voltaram àquela janela – por que não entregar no próprio apartamento do pianista? Ela despertou de seu semi-sono e decidiu ir até lá, e entregar e se livrar enfim da partitura. Atravessou a pequena multidão das calçadas, e a rua molhada pelo sereno da manhã, e entrou no prédio onde ficava aquela janela. Subiu até o andar, supôs que uma das portas era afinal a correta, e bateu. Ao menos uma vez ela bateu, aliás, pois enfim a porta rangeu, e abriu espaço.

Pela porta semi-aberta ela viu um apartamento qualquer, como qualquer outro, não fosse pela presença pesada e enorme de um piano preto próximo à janela. Sem nenhum ruído vindo de qualquer lugar, ela percebeu que o pianista não estava ali. Decidiu entrar, mas onde deixar a partitura? Não havia mesa, apenas cadeiras, uma cama no outro quarto e um piano à janela. Admirando a janela, dessa vez de seu interior, ela se aproximou do parapeito, sem reparar numa dobra do tapete em frente ao piano. Num tropeço, suas mãos caíram sobre as teclas desprotegidas, e ela esperou um forte barulho que revelaria sua invasão, mas apenas o som das próprias teclas batendo ressoou pelo quarto. Nenhuma nota, nenhum som de piano, nada. No silêncio, um pensamento a sacudiu, e ela ergueu com cuidado o tampo do piano. O susto a fez esbarrar no pequeno pote de nanquim, e sujar de preto a borda de sua manga. Não havia cordas. Aquele piano não poderia jamais emitir qualquer nota, dele jamais poderia vir alguma música, aquele era um piano morto.

Depois de deixar a partitura sobre o piano, e tentar sem sucesso limpar a sujeira em sua roupa, a copista correu até a praça central, pois o concerto já estava para começar. Irritada, assustada – e abaixo de tudo isso, cansada – ela se sentou numa das cadeiras postas em volta do coreto e esperou. Uma apresentação, outra, e ela pôde enfim conversar bastante com alguém. As pessoas ouviram rapidamente quando foi anunciada mais uma atração, e ela continuou sua animada conversa, até que se passassem mais algumas apresentações. Finalmente ela estava em meio à profusão de sons de que tanto gostava, sons de todos os tipos: conversas, risos, choros de crianças pequenas, pessoas e suas pipocas, e abaixo de tudo isso uma música agradável. Vieram então as apresentações autorais, e cada pianista apresentou sua própria música. A copista ficou maravilhada quando percebeu que as músicas eram como uma extensão daqueles muitos sons, eram como uma imitação de todos os ruídos possíveis, uma combinação de tudo, perfeitamente igual à confusão nas calçadas, nas ruas e na gráfica. Ela chegou a parar a conversa para ouvir, afinal aquela música já preenchia totalmente seus sentidos e não deixava espaço nenhum para algum pensamento atormentador, e isso a alegrava.

E então foi anunciada a última atração. Assustada, a copista viu o pianista surgir da multidão de pessoas sentadas, subir a pequena escada do coreto e se sentar em frente ao piano longo de cauda. E o silêncio que ela conhecia e temia, que o pianista sabia de alguma maneira trazer sempre consigo, se espalhou pela praça central da cidade. Ele estava, ela observou, sem nenhuma partitura, sem nenhum guia para a música que iria tocar, e então afinal para que a urgência na transcrição de seus rascunhos? Mas afinal o que ele poderia tocar, aquele homem que tocava e treinava noites e noites num piano sem som? Afinal que música poderia nascer de teclas e dedos que não criavam nenhum som?

O pianista começou, e ela ouviu cada nota e cada arpejo com uma atenção singular. Cada pensamento pôde se acomodar à sua frente, e suas idéias dançaram uma dança lenta que fazia surgir um sentido diferente para os sons que o pianista espalhava pela multidão. Cada ruído de conversa, ou de choro, ou de qualquer outra coisa foi aos poucos, timidamente, se afastando de seus ouvidos e se sentando quieto em seu devido lugar, mesmo que seus olhos vissem a mesma multidão agitada. Aquela música, como ela sabia, seria longa, mas o tempo pareceu não voar ou ficar parado, mas simplesmente não existir enquanto o pianista oscilava entre rubatos, doces trinados e violentos graves repentinos. Seus sentidos simplesmente não existiam, enquanto cada nota a enlevava em uma canção que parecia ser o universo inteiro.

E quando, depois de um tempo que ela não percebeu, o pianista terminou de tocar, e a multidão deu seus aplausos desinteressados, ela tentou aplaudir, mas não conseguiu. Ficou parada em sua cadeira, enquanto o pianista se erguia, descia do coreto e ia em sua direção. Afinal um lapso de consciência a levantou, e ela esperou sem entender que ele se aproximasse. Num cumprimento, o pianista olhou de relance para a manga suja de nanquim da copista, e então perguntou se a partitura estava pronta. Ela explicou timidamente que havia entregue no seu próprio apartamento, que enfim tinha encontrado a porta aberta e entrado, e que a partitura estaria em cima do piano. Porém, o silêncio que o pianista sempre carregava consigo trouxe violentamente um pensamento, um impulso de curiosidade.

– Por que o piano não tem cordas? – ela perguntou, sem conseguir agarrar as palavras antes que elas pulassem de sua boca.

– O silêncio é mais interessante.

– Mas como você pôde escrever aquela música em um piano sem som? Eu duvido que todos os outros que se apresentaram hoje tenham escrito suas músicas em instrumentos mudos!

O pianista virou o rosto para o lado, e a copista pode entrever um pequeno sorriso num rosto só e cansado, os mesmos olhos fundos, e o mesmo silêncio que sobrepujava tudo.

– Todos eles ouvem apenas o barulho, apenas o barulho ensurdecedor. Eles não aprenderam de onde vem a verdadeira música, não aprenderam a escutá-la, e por isso imitam o que podem apenas ouvir. Todos eles precisam ouvir suas músicas, porque ela não está verdadeiramente dentro deles mesmos. Porém eu, eu não posso ouvir minha música até que ela termine, pois não há som algum que possa traduzir o som que eu escuto dentro de mim, que eu escuto gritando no silêncio.

E a copista observou, parada, enquanto o pianista ia embora cuidadosamente desviando da multidão, e como as pessoas pareciam fazer barulho, e ela notou que já não escutava esse barulho. Ao seu lado, aos seus pés, seus pensamentos a puxavam pela mão para irem de volta para casa.