9 de novembro de 2010

A vitória nossa de cada dia

           "Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas, coisas e coisas por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: 'tens medo'. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saberem como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.
          Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer 'pelo menos não fui tolo' e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos se estivéssemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia."

Clarice Lispector
Do livro "Uma Aprendizagem ou Pequeno Livro dos Prazeres".


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Em homenagem a Francisco Siriaco, uma flor de lótus em um pântano.

8 de novembro de 2010

L'ham de Foc


            L'ham de foc é um grupo formado por músicos valencianos, formada em 1998. A temática recorrente nas músicas é a medieval, com influências mediterrâneas e do Oriente Médio. No entanto, o toque único da banda é cantar suas músicas em catalão, acompanhada com a bela voz de Mara Aranda.
         Outro toque único da banda é utilização de vários instrumentos: gaita galega, búlgara, dolçaina, didgeridoo, clarinete, aerofones aparentados com a bombarda bretã e o duduk armênio. Em instrumentos de percussão, podemos apreciar: darbuca, bendir, pandeireta, menuda, tamborina de cordas e tablas.
            L'Ham de Foc é um grupo completo, liderados por Mara Aranda e Efrén López, um música que te leva a uma viagem fantástica e atemporal, por um universo oriental único.
          É inegável a forma como podemos experimentar cada palavra, cantada docemente por Mara Aranda. 
             Um som que vale a pena ouvir!




               O grupo lançou 3 álbuns:
                          - 2000: U;
                          - 2002: Cançó de Dona i Home;
                          - 2006: Cor de Porc.

               Outros álbuns são projetos paralelos do grupo: o primeiro é uma parceria com o grupo alemão Estampie, Al Andaluz Project - Deus et Diabolous, e conta com as vozes de Mara Aranda (L'ham de foc), Sigrid Hausen (Estampie) e Iman al Kandoussi. O segundo chama-se Aman Aman.



Al Andaluz Project




Aman Aman



                Ambos os álbuns possuem músicas do gênero sefardita, música da tradição judaica que é interpretada numa língua chamada ladino (originalmente, uma mistura de castelhano, português e hebraico).
               O único defeito da banda é existir apenas em projetos paralelos realizados pelos líderes da antiga banda, mas não deixa de valer a pena ouvir seu legado!

7 de novembro de 2010

Alice: Madness Returns

E se você construísse um refúgio?
Cuidadosamente montasse as peças
Do intrincado quebra-cabeça
E fizesse um mundo de maravilhas?

E se ao voltar ao seu refúgio
Buscando paz e segurança
Cada pequeníssimo detalhe
Estivesse torto e distorcido?

E se o mundo que você construiu
Se tornasse o seu pior inimigo?


          No ano de 2000, o designer de jogos American McGee, juntamente com o estúdio Rogue Entertainment, desenvolveu um jogo, publicado e distribuído pela EA Games, intitulado American McGee's Alice. Com gráficos impressionantes para a época, o jogo fez muito sucesso com seus cenários macabros e personagens horripilantes, baseados nas obras de Lewis Carroll (autor de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho).
          Agora, onze anos depois (o jogo será lançado em 2011), American McGee e EA se reúnem novamente, para dar sequência à história, que se passa também onze anos depois dos acontecimentos do primeiro jogo.
Screenshot de Alice: Madness Returns
           O primeiro jogo se passa alguns anos depois da história dos livros. A casa de Alice é destruída em um incêndio acidental, do qual Alice é a única sobrevivente. Após sofrer de alucinações (e tentar suicídio), ela é internada em um hospital psiquiátrico, onde encontra, em uma noite nada normal, o mesmo coelho branco a chamando de volta ao seu País de Maravilhas. Mas o seu antigo refúgio já não é o mesmo. A falta de Alice permitiu que a Rainha de Copas tomasse o poder absoluto no País das Maravilhas, transformando o antigo mundo de sonhos e loucuras em um cenário decadente de escuridão e violência. A missão de Alice é trazer a antiga paz de volta ao mundo que a sua própria imaginação criou.

Concept art de Alice: Madness Returns
          Alice: Madness Returns traz um objetivo um pouco diferente. Alice conseguiu sua liberação do hospital psiquiátrico, depois de tanto tempo internada, e passou a ser tratada por um psiquiatra em Londres. Porém, o que era para ser uma libertação se torna um regresso ao pesadelo. Confrontando seus antigos demônios, Alice se vê novamente no País das Maravilhas (cujo nome já não faz mais nenhum sentido), que como antes se encontra distorcido e decadente. Porém, nesta sequência da história Alice percebe finalmente que não é a Rainha de Copas, ou qualquer outro personagem de sua mente, a "culpada" por essa decadência, mas sim a sua própria mente. Alice deve então combater, mais do que nunca, a sua própria decadência, a sua própria distorção, deve interromper a sua descida ao inferno.

Screenshot de Alice: Madness Returns
          Com gráficos bonitos, porém nada impressionantes para a realidade atual dos jogos eletrônicos (ainda mais falando de EA Games), Alice: Madness Returns reinventa, como seu predecessor, uma das histórias mais férteis e propensas a interpretações da literatura universal. Sua história é semelhante à de outras adaptações, como Alice de Tim Burton, com o mesmo maniqueísmo desagradável, totalmente ausente nos livros de Carroll. Resta dizer que o primeiro jogo, American McGee's Alice, não tinha uma história muito bem elaborada, o que tornava a jogabilidade enjoativa após pouco tempo. Fica a espera de que esta sequência traga algo realmente novo e criativo.

          O lançamento é previsto, como já dito, para 2011, para as plataformas XBOX 360, Playstation 3 e PCs.

9 de outubro de 2010

Contradições ao Vento

          É quase estranho de se pensar a quantidade imensa de pessoas que publicam poesia pela Internet. Na minha humilde opinião, é raro encontrar, porém, textos de qualidade. Muitos são desabafos colocados sob a forma de verso (e alguns sequer chegam a isso). Às vezes, porém, encontramos diamantes em grãos de areia...
          O poema a seguir é de Marcus Vinícius, autor jovem nos anos e experiente em cultura. Em seu blog, Falses Pretenses (o qual também pertence a Weslley), publica seus textos, além de artigos sobre literatura, música, cinema etc. Vale a pena conferir.
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Penso que sou o eleito
O que mesmo tão jovem
Tudo sabe sobre o mundo e a vida
E que por desfecho deste paradoxo
Nada sabe sobre a vida de si mesmo

Eu sei, quanta pretensão a minha
Mas deixe-me ao meu ego ferido ofertá-la
Que por muitas donzelas passei despercebido
E por rapazes mil vezes mais fui tentado

Veja só, quanta vergonha a minha
Por mais que eu fale de amor
(e falo)
Mais o meu lábio continua seco e sem prestígio

Esta trova, meu senhor, de escárnio ou maldizer
(como queiras)
É senão a mim mesmo
A este chacal, praga chorosa e grosseira
Que tanto do gosto das gazelas fala
Que o mesmo tanto sequer chegou a avistar

É certo que assim foram-se muitos românticos
Byron, Florbela, Cruz e Souza
Álvares de Azevedo
Tanto amor a ser declamado e aplaudido
- Nenhum amor vivo - só morto - a ser vivido
Maior inflama o amor
(dizem)
Quando envolto em névoa e bruma

E em tudo em mim assim se faz:
- Claro!
Mas claro que é escuso

O que me resta então?
Cultivarei o meu remorso pelo irrealizado
Anseiarei o teu retorno impossível
E assim estarei iludido
Porém feliz com minhas tristezas



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Escrito por Marcus Vinícius, em 31/07/10, às 2:44h AM.

4 de outubro de 2010

O Lorde de Shalott

 I

Sob límpido céu, tranquilo
Um jovem admira o amanhecer
Vê as aves, aprecia o orvalho
Enquanto se deleita em tecer
De puro ouro, belos versos
E assiste a um diverso mundo
Pelos reflexos de seu espelho
Vê as cores, inveja as flores
Da distante ilha de Shalott

Decide o jovem enfim partir
E alcançar as pétalas, perfume
Ouvir a bruma, sentir o vento
E de tudo extrair, tal ourives
Perfeitos e intensos versos
Levanta-se, e canta, e anda
Toca o espelho e seus reflexos
Névoa, vida – ardente vida!
Rumo à tão sonhada Shalott

Em novo mundo, novos ares
Todos veem o peregrino
Sem guia, não entende ele
Os minutos que teimam, ferozes
A bater e moldar versos
Um pequeno relógio, compassivo
Lhe aperta as mãos e o leva
Adiante na alegre jornada
À encantada Shalott

Apresentado a seus pares
Anda o jovem temeroso
Um pálido curinga doente
Um notável mágico sonhador
A lhe ditar cronometrados versos
‘Talvez melhor meu Espelho
E os reflexos turvos da minha,
Da sempre distante Shalott’

No brilho forte do meio-dia
Ao longe cintilou a ilha
Pétalas ao sol, mil cores
O jovem, com seus guias,
Jubilou intrincados versos
De cima a baixo, milhares,
Estilhaços e pequenos cacos
Do espelho já abandonado
Trocado pela esperada Shalott

Pesado, no jardim o peregrino
Sozinho, sem mais guias
Ouviu,  ‘meu Relógio parou!’
Sem lágrimas: mais à frente
Puríssimos, requintados versos!
E pelo caminho, pela relva,
O jovem se proclamou senhor
Honrou os céus, curvou-se à terra
À sua ilha de Shalott!



II

Livre! Em meu Jardim
Agora posso dançar à tempestade
Entre lobos, pássaros e árvores
Posso eu alimentar minha orquídea!

Mas espera! Não a és?
Não tens suas cores, seu perfume
Mas és orquídea! Como podem
Te encantar outros perfumes?

Ah eras perfeita, perfeita!
Cálidos olhos, gélidos dedos...
Minha Cristine, já não és
A máscara que eu uso
Agora eu me farei ouvir!

Ora, é um Jardim!
Há mais e mais flores!
Lá vem uma pequena tulipa
Vê! Feito rosa se veste
Lançando a todos suas raízes!

Vem, me abraça, falsa rosa!
Que tua miséria precisa, por ora,
Da minha paciente companhia
Destila teus problemas, ouvirei.

Mas sabes, minha companhia
Precisa de muito, muito mais
Do que tua fraqueza é capaz
Mais do que tu, sou legítimo Bovary!

Então me abraça, toma meu corpo,
Devora-me feito caça!
Mas suplico, não me toques
Com o sincero olhar do interesse

E quantas mais, ainda mais?
Não foi primeira, nem última
A noite sem resposta
Onde estará o tal reflexo?

E agora essa: uma rosa negra!
Vestes o luto, a noite, o infinito
Mas te prendes a ínfimos dedos
Que mal suportam teu peso!

E então, até um cravo!
Ah, que nem tem perfume...
Basta! Sem mais pétalas,
Pois eu estou meio cansado de flores

Sem liberdade, mas sem companhia
E no centro de doentio Jardim
Para trás, apenas sombra
Estilhaços de um Espelho
Cinzas de um Relógio
Lágrima, sonho, demência,
Sou eu aquele que anda?



III

Ao cair da tarde, vermelha,
Tocou o sol altivas árvores
O vento balançou os lírios
Que admiravam, pasmados,
O nascimento de estranhos versos
Pois do jardim enfim saía,
Mãos vazias, o peregrino
Quase esquecido, partia
De sua amada Shalott

Os céus se abriram, ferozes,
E furiosa tempestade despertou
Como há muito não se via
E há muito esperada
Para sorver audazes versos
Tal colar, um rio se formou
Em volta da ilha florida
E o jovem apanhou seu barco
Partindo, só, de sua Shalott

Para trás olhou, sublime
A tempestade obliterava
Feito fogo todas as cinzas
E cacos, mesmo pétalas
Extirpava tais falsos versos
Às nuvens orou, sem fé
Com o bem-estar da leveza
Uma canção jamais ouvida
Mesmo nas noites de Shalott

Sem caminhos ou horizontes
Apenas a forte correnteza,
A incessante tormenta; em paz
O jovem dormiu, tranquilo
Do vento ouvindo versos
Tombaram árvores,
Perderam-se os lobos,
Fugiram os pássaros.
Em ruínas a lendária Shalott

E no barco navegava
O peregrino adormecido
Pois a noite lenta andava
Enquanto sem sonhos descansava
Alguém farto d’outros versos
Uma trégua, e os céus deixaram
O luar tocar as faces
Silente príncipe, curado
Da hipnose por Shalott

Ao longe, o primeiro raiar
De um amanhecer renovado
Despertou o jovem em seu barco
Saboreou seu renascimento
Em sinceros, profundos versos
E se despediu, saudoso
De sua antiga jornada
Senhor de seu novo mundo
Ele, o Lorde de Shalott



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Escrito no Jardim em 03/10/2010, às 6:00 a.m.

Ouvindo:
The Lady of Shalott - Loreena McKennitt
Misery Loves Company - Emilie Autumn


Imagem: The Lady of Shalott  on boat,
de John William Waterhouse, 1888

28 de setembro de 2010

Os Homens que não Amavam Mulheres

      Determinadas coisas atraem pelas capas que possuem, quando vi isso...


            ... Não pensei duas vezes para assistir, mas de forma muito receosa, afinal de contas, a capa não é nada, aliás que quase sempre é um equilíbrio para a falta de conteúdo. Mas surpresa de novo! Apreciei muito este filme!
            Gostei das jogadas de personagens, não propriamente por sua história que não apresenta grandes novidades, mas sim, pela mudança de foco que ocorre ao longo da trama. Ao final, você pensa sobre o que realmente estava falando o filme, se a questão que foi apresentada no começo ou se isto não era apenas um pano de fundo para um algo mais?!
           Baseado na trilogia Millennium de Stieg Larsson, o filme foi baseado no primeiro livro, sendo dirigido pelo dinamarquês Niels Arden Oplev.
          O filme é ótimo, valendo muito a pena de ser visto, ainda que longo ele não se torna enjoativo e tampouco cansativo de ser visto, mantendo seu ritmo até o fim.
             Aconselho que assistam o filme em sueco, antes que Hollywood o refilme!




Sites Interessantes:



27 de setembro de 2010

Prêmio Abril de Personagens



A Editora Abril está lançando o "Prêmio Abril de Personagens" com intuito de estimular a criação de narrativas para público infanto-juvenil, ou seja, entre 7 e 12 anos, de ambos os sexos.

Os trabalhos serão selecionados pela Editora Abril, pela Associação Brasileira de Produtores Independentes d Televisão (ABPI-TV) e também serão colocados a disposição do voto popular.
O ganhador irá garantir um contrato com a Editora Abril e terá sua obra publicada.

O prazo para as inscrições vai de 27 de setembro a 24 de outubro de 2010.

Para quem se interessar, mais informações no site.