17 de fevereiro de 2012

Uma fermata...

Pois então aqui estou, no fim de mais uma tarde, sufocando o cansaço com meu próprio reflexo. A velocidade das horas, a intensidade das cores é tamanha, que às vezes me interrompo, recostado em algum repouso, para respirar e tentar olhar, ainda que furtivamente, pela fresta da fechadura da grande porta que cruzo a cada dia. Sobram-me lapsos, momentos de um espectro, sempre perto, sempre longe, em que vislumbro o clímax, o apogeu, o fortíssimo de uma peça que jamais parece evoluir. E então, como perdesse o trem na estação, salto novamente para alcançar o ritmo inevitável da rotina.

Por acaso ela, a rotina, roubou o sangue pulsante? É então assim que, tendo se acostumado com as chibatadas, o escravo cede o último átimo de dignidade? Eis que eu me renovo a cada vento noturno, mas é assim que as cicatrizes se acumularam sem que eu ao menos percebesse – e se percebi, não me esforcei com a esquiva – ?

A rapsódia dos últimos tempos, porém, talvez traga esperança: que o negro cálido ardor por ora queima, ainda que a casa esteja mal iluminada; que o grito ainda tem força; e que o coda final, ainda que curto, encerra a cadência mais pungente de todas.





Escrito em um pequeno bloco de papel, em 16/02/2012, por volta das 18 horas.

Ouvindo o trânsito por uma janela de ônibus.



* Fermata é um símbolo, usado em notação musical, para indicar que uma nota ou pausa deve ser mantida por mais tempo que o normal, ficando essa duração a critério do intérprete. Aparece normalmente no final de períodos ou mesmo da própria peça.

12 de fevereiro de 2012

Profissão: Músico

– E o que você anda fazendo da vida?

– Continuo com meu trabalho como músico, né, cada vez mais.

– Ah que legal!!! E qual é a sua profissão???

...

A música é sem dúvida uma das manifestações artísticas mais poderosas que existe. Como dito no prefácio de um livro de história da música (de cujo autor infelizmente não consigo me recordar), ela é a única das artes que não nasce da imitação da natureza. É o completo triunfo da natureza humana.

A despeito disso, é raro encontrar alguém que considere a música como profissão (mesmo dentre musicistas). Normalmente o conceito que vemos e ouvimos é de que músicos são boêmios, não estudam, não trabalham, levam uma vida fácil. E, curiosamente, essa última afirmação ainda lembra a profissão dita mais antiga do mundo. Duvido realmente que aquela profissão mais antiga fosse realizada sem nenhuma música de fundo...

Ocorre que ser músico é uma profissão, e das mais difíceis.

Profissão: Músico é um documentário (relativamente curto) realizado pelo Projeto Comma juntamente com Daniel Ignácio Vargas, que trata da difícil batalha diária que todo músico (que abraça a sua causa) enfrenta. Mostrando artistas do Brasil e de vários outros países, o documentário nos dá uma visão ampla de como é, hoje, a vida de um músico. Combate, por exemplo, a ideia de que baixar músicas de graça na internet deixa os músicos mais pobres. Mas combate também a noção de que ser músico é apenas farra, apenas sexo, drogas e rock'n roll.

Para interessados, o blog Profissão Músico contém mais informações sobre o documentário.

Com vocês, a profissão realmente mais antiga do mundo: músico!

10 de fevereiro de 2012

Carpe Diem

Eu não quero o dia
Não quero as massas
As lotações e os enxames
Eu não quero o barulho
O vaivém e a buzina
Não quero motores
Não desejo os outdoors
Letreiros óbvios protuberantes
Eu não quero a luz
Branca fria sobre a mesa
Não quero o sol
Direto do asfalto quente

Eu não comerei
A ganância nossa de cada dia
Não conversarei
A idiotice óbvia da rotina
Hei de não erguer
O copo cheio de palavras
Hei de não dormir
O descanso cego do escravo

Eu desejo o fim
Num adagio sensível
Quero a lentidão
Do toque sem palavras
Eu quero a concordância
Em silenciar a vida
Para viver como nunca mais



Escrito no Circo, em 08/02/2012, às 00:30h.

No silêncio.

Imagem: Lost,
by Hengki Koentjoro.

18 de janeiro de 2012

O pequeno Frank de Burton

Frankenweenie, animação em stop-motion de Tim Burton (Alice no País das Maravilhas), ganhou mais uma nova imagem.

O longa é adaptação de curta-metragem homônimo do próprio Burton, de 1984, que ganhará versão em 3D nos cinemas. Conta a história do jovem Victor Frankenstien que realiza um desastrado experimento para trazer de volta à vida seu cachorro Sparky, atropelado por um carro.

Para dublar os personagens, Tim Burton chamou alguns velhos conhecidos como Winona Ryder (Edward Mãos de Tesoura), Catherine O'Hara (Os Fantasmas Se Divertem), Martin Short (Marte Ataca!) e Martin Landau (Ed Wood).

A estreia do filme está prevista para 2 de novembro deste ano. Abaixo, o terceiro filme da carreira deste grande diretor.


14 de janeiro de 2012

Canto Gregoriano e sua nova roupagem

O canto gregoriano é uma antiga manifestação musical do Ocidente, com raízes nos cantos das antigas sinagogas. O canto surgiu da junção da cultura dos judeus convertidos, que cantavam os salmos e cânticos do Antigo Testamento, com elementos da música e da cultura greco-franco-romana, que foram acrescentados pelos gregos e romanos que se convertiam.

O período de formação do canto gregoriano vai dos séculos I ao VI, com auge nos séculos VII e VIII, mantendo-se com certa popularidade nos séculos IX, X e XI, quando inicia-se sua decadência.

A denominação "Gregoriano" ficou como homenagem ao papa Gregório Magno (540-604) que publicou, em 2 livros, uma coletânea de peças (Antifonário, melodias referentes às horas canônicas, e o Gradual Romano, contendo os cantos da Santa Missa). Gregório também iniciou a Schola Cantorum, que proporcionou grande desenvolvimento ao canto gregoriano.

No final do século XIX, o Mosteiro de São Pedro de Solesmes (França), a partir da iniciativa de Dom Mocquereau, tornou-se o grande centro de estudos e práticas do canto gregoriano. Ali também iniciou-se o trabalho de recuperação de antigos manuscritos do século VIII e IX, sobre o canto gregoriano.

No século XX, o papa Pio X pede aos monges para realizarem uma edição moderna com referência nos manuscritos, surgindo então a Edição Vaticana. Em 1985 foi lançada uma outra edição chamada Graduale Triplex com as 3 notações do canto gregoriano: a Vaticana, a de Laon (França) e a de Saint Gaal (Suíça).

As principais características do canto gregoriano, ou canto chão, são: as melodias cantadas em uníssono, sem predominância de vozes (homofônico); ritmo livre, sem compasso, baseado na acentuação e no fraseado; cantado sem acompanhamento de instrumentos musicais; e letras em latim, baseadas em sua grande maioria nos textos bíblicos.

A partir de 1994, lançou-se um novo olhar para o canto gregoriano, quando a gravadora EMI lançou em CD um disco que havia sido gravado há mais de 20 anos pelos monges do Mosteiro de Santo Domingo de Silos; o disco alcançou um sucesso considerável, atingindo a marca de 5 milhões de cópias vendidas.

Atualmente, existem vários grupos que executam versões de músicas famosas em estilo gregoriano. Um desses grupos é o Gregorian.

Gregorian é um projeto musical alemão liderado por Frank Peterson, que faz versões de músicas dos anos 60 aos dias de hoje. Formado por 8 vozes, o grupo foi considerado um modismo, mas a partir de 1998 o projeto passou a focar mais em sons populares e traduzi-los para o estilo gregoriano.

Os nomes das vozes deste projeto são: Richard Naxton, Johnny Clucas, Dan Hoadley, Chris Tickner, Richard Collier, Gerry O' Beime, Lawrence White e Rob Fardell.



12 de dezembro de 2011

Poslúdio

Deito palavras frias
Não dormem, não calam
Quedei ante a visão
Cortinas fechando
A nenhuma plateia

Se o palco não abriga
Se o infernal picadeiro
De risos blasfemos recheado
Não me acolhe qual filho
Terei eu ao menos uma poltrona?

O grito verteu feliz
A face tornou a ter cor
Traços e letras e notas
Concentrados à única plateia
A arte do ressuicídio

Mas o sangue pulsou
E, da peça que fiz
Sobrou a fraca luz
A um palco exangue

É verdade que saltei
E voei com asas de cêra
Corpo rompido, no chão

Cala-te, não deduz
Detestável apócrifo juiz
Que és em tuas páginas
A me lembrar o que ali
Dedos meus destilaram

És apenas meu refúgio
Apodrecido Circo incolor
Emudece tua dança
Apaga teu som

Que eu quero o vazio
O silêncio me empresta
A audácia leviana do infeliz

Que eu quero o incolor
Sem luz me alimento agora
Da desejada força

Liberto como jamais quis.



Escrito no Circo, em 10/12/2011, às 21h.

Ouvindo Open Ground (Tristania),
Gloomy Sunday e The Art of Suicide (Emilie Autumn)

Imagem: cena de Destino, de Salvador Dalí e Walt Disney.

29 de novembro de 2011

A Irrelevância da Música

Qual o seu artista musical preferido? Ah sim, claro. Ele/ela tem realmente uma beleza estonteante. E sua atitude é sem dúvida parte intrínseca de sua arte. As letras das músicas são verdadeiros poemas, talvez em línguas mortas ou dissecando problemas sociais. Inegável dizer, também, que suas roupas, seus conflitos e as declarações na mídia são totalmente coerentes com sua revolta contra a sociedade. Mas.... espere.... e a sua música?

Geralmente, quando se fala de música, é ela própria o que menos importa. Por mais paradoxal que possa soar esta afirmação, ela é plenamente verificável em qualquer discussão a respeito do assunto. Seja na informalidade de uma mesa de botequim ou na mídia mais especializada, há quase sempre uma série de fatores que se sobrepõem ao dado sonoro, obstruindo sua apreciação.

Recebi muito recentemente um link, por compartilhamentos de redes sociais, do Paulo Raposo, um compositor do Vale do Paraíba, São Paulo, mais precisamente de Pindamonhangaba. O link em questão é o texto intitulado A Irrelevância da Música, publicado em março de 2008 no portal Trópico da UOL, de autoria de Matheus G. Bitondi, e que discursa sobre a minúscula importância real que se dá à música quando falamos de música.

E o mais interessante é que o texto não se limita à música popular, como se poderia supor. A própria música erudita, com seus "deuses" inatingíveis, é colocada em foco.


Enfim, um texto que vale a pena ser lido e ponderado.