5 de agosto de 2012

Contos do Absurdo

Uma das coisas que mais agradeço pelo advento da Internet são as possibilidades que ela nos apresenta: navegar a esmo, por vezes, nos faz encontrar pequenos tesouros...

Contos do Absurdo é um projeto interessante idealizado por Mario Mancuso, que reúne histórias de vários tipos sobre o bizarro e o sobrenatural. A revista é digital e gratuita, podendo ser baixada no site Contos do Absurdo.

Uma miscelânea de estilos, formatos, traços, torna a revista um conteúdo bem legal de ser lido, e principalmente (para quem não está acostumado) de forma rápida.

Para os aspirantes e aventureiros, a revista é aberta a novas contribuições, bastando que mande o projeto ou sugestão para apreciação!

Um projeto bem interessante, que vem a contribuir de forma positiva com o cenário brasileiro de HQs!

Para maiores informações, visite o site Contos do Absurdo.

9 de julho de 2012

Dorian

Eis o alvo alcançado
Em anos, perde-se a conta
Marcas, dores
Cicatrizes

O que o corpo pede,
Cede
Cada desejo
Mais desejo de morte

Eis o que se quis
Momento algum
O almejo e o fruto
Feito um apenas

O que se vê
É o que se come
Engole o fogo em salto
Queima, qual tempestade

Eis a criatura imaginada
A agonizar
No reflexo turvo
Do moribundo criador



Escrito em 5 de julho de 2012.

Imagem: Auto-retrato com vinte e quatro anos,
by Dominique Ingres.

Hoje

Andava quieto, só,
Pensando no que viria,
Nos odes futuros,
Sem cantar uma nota

Calou-se o Tempo, pois corria
Desesperadamente na rotina
Ator transfigurado
Na mais bela personagem

E leve
Cálido
Intenso noir dormente

Um passo, e aperta a dúvida
Os olhos suportam?

Questionamento infindável
Sempre às bordas de um terraço
Pés prontos a saltar
Mas a mente insiste
Batalha
E vence
Por mais uma sobrevivência



Escrito em 4 de julho de 2012.

Imagem: Visions of Metropolis 2, by W.B. Sloan.

Mudança

Findou-se o ato
Sem fôlego, pendeu o ator
Sobre o palco sujo
De letras palavras versos

Esgotou a voz
Naquele "diálogo" último
Sangrou demais os dedos
Tecendo a inútil dialética

E, quando se apaga a luz
Eis que outro tom é aceso
Em cor dodecafônica

Ele ouve, e anda
Com ouvidos procura
A fonte daquele vinho

Bebe, e lhe dá sede
Água de Alice, veneno
Doença quente no peito
A matar novas palavras

Que já não lhe basta
A realidade das palavras.
A sanidade dos versos
É para ele só inércia

Pois notas queimam
Cadências ardem frescas
No salão turvo
De memórias reinventadas

Aquele circo de dores
Trouxe ao menos força
Ao som gritante,
Antes quieto num casulo

Pois gritará.
Alçará a voz em acrobacias
Entornará a luz em si
Tempestade só, a destruir,
Para recriar com nova vida
Ou ao menos mostrar
A escuridão que se inicia.



Escrito em 25 de maio de 2012.

Imagem: Subversion, by Miriam Sweeney.

8 de julho de 2012

A aprendiz

Não é que não seja belo
Nem que não satisfaça
O espetáculo torpe
Da mediana atriz

Sabe algumas falas
(Embora me tenha dito
Que as sabia todas)
Decora muito bem

Mas sua face retorcida,
Naquela tosca tentativa
De um riso a la Tchékov

Enjoa, não faz pensar
Lembra o ingresso pago
E assim suscita o ódio
Sibyl Vane que nem amou

Desce daí, que já se esgota
O prazer da cobiça
Encerra o ato
Que já me enoja a tua voz!

Tu nem rosa és!
Mero botão, que não suporta
Sangue de um Curinga

Não é que tenha sido precoce
A chegada daquele fim
Nem que desejasse
Uma peça rápida e vã

Mas uma "arte" dessas,
Enquanto me suja de cinza,
Toma meu tempo
Corrompe meu palco
E cansa
Muito mais do que ensina



Escrito em algum dia morno de maio de 2012.

Imagem: Neda's Entrance, by Sergio Lopez.

21 de junho de 2012

E Nós o recriamos...

Neste tempo louco de junho sai a graphic novel de Rafael Campos Rocha, artista plástico e quadrinhista, Deus, essa gostosa.

Com heresia no nome e em sua descrição, a graphic novel traz uma leitura interessante dos personagens bíblicos e de temáticas complexas como religião e sexo.

Deus, essa gostosa tem ganhado muitos fãs na mesma proporção do desconforto que causou, pois nesta narrativa o leitor acompanha sete dias da vida desta Criadora incomum, fã de futebol, amiga de Karl Marx e do Diabo, dona de sex shop, envolvida em movimentos exóticos/esotéricos do amor carnal.

Embora ainda não tenha lido, achei a proposta bem interessante!

27 de abril de 2012

De um monólogo

Pois então visitei a Loucura, e ela me agarrou com braços fortes, fez-me amante, senhor e servo, até me dilacerar com suas garras de harpia.

És tu então que vem, desafiando a proteção frágil que construí? Tens nas tuas mãos flores das mais cruéis, nas tuas mãozinhas que quase amassam pétalas. Mas por que, por que não abres tua boca?

Cinza, inércia se fez da mais bela dança que valsei. Sutileza, gentileza, pergunta, e apenas o silêncio. É assim que se destróem pontes e se erguem muralhas, sabes?

E agora apontas para meus braços, derramando as pétalas mais podres, como se eu os aviltasse a cada noite em nova dança. Pequena, se sou uma Bovary, não é senão porque busco o incêncio que já encontrei em ti, e que me basta. Basta-me ainda banhar-me nas poucas brasas que ainda aquecem minha nuca, mas se vês em mim um trapezista, a saltar de corda em corda, talvez teu passado te ofusque a visão.

É verdade que já parti o espelho de Shalott, mas logo depois encontrei o fim. Não terás tais cacos, é fato, mas sinto que um certo Iago corrompe por dentro a tua força de mouro general.

Abaixa então teus braços, relaxa teus ombros. Não fui eu, Ofélia, que matei teu pai, não desejei tua queda. Mas cuida, que vais encontrar teu pântano sepulcro embaixo do salgueiro Indiferença, nascido não das minhas palavras, nem da falta delas, mas do silêncio de tuas faces multifacetadas.




Escrito em 23/04/2012, num bloco de papel.

Em preparação a um conto.

Imagem: Renaissance by Delphine Pavy.