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15 de junho de 2013

Dicionário midiático ou de como nascem os heróis

O Sonata Escarlate não pode se calar.

Não há como se calar diante dos tiros de borracha. Não há como silenciar quando o gás lacrimogêneo consome seu ar. Não há como cruzar os braços quando a injustiça lhe cobre por todos os lados. Algo está acontecendo. O tal leão adormecido (termo que uma socialite das mais ignorantes teria usado se referindo à suposta passividade política do brasileiro) acordou, e está às voltas dos palácios com seu rugido imenso.

Diante disso, o Sonata Escarlate não pode se calar.

O poema abaixo é de Caio Augusto Leite, estudante do curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). Embora não seja dos autores deste blog, traduz bem o sentimento geral. A imagem usada acima se chama The Ties that Bind, ou Os Laços que Prendem (em tradução livre), de Michael McConnell.


Dicionário midiático ou de como nascem os heróis

Protesto é violência
Violência é ordem
Ordem é progesso
Progresso é liberdade
Liberdade é silêncio
Silêncio é paz
Paz é trabalho
Trabalho é dignidade
Dignidade é aceitar:

Mas não aceito
e não aceitar
quebra a semântica
e me subverte:

sou indigno
e vagabundo,
sou terrorista
barulhento,

sou preso,
sou retrocesso:

e então entra em colapso
o novo dicionário.
Se violento:
ordem ou protesto?

Depende.
De quê?
De quem disparou
o primeiro tiro.

É a linha que separa
o herói
do bandido:

Mas basta um botão
- de reverso -
para alterar o filme:

e quem assiste,
desatento,
não verá
que o primeiro tiro
foi o segundo,

e que na imagem
não estava saindo
mas voltando
pra dentro.

26 de maio de 2013

Contemplação

Kaleidoscope, by Leslie Ann O'Dell
Acordar, com a luz
Banhar-se na água calma
Acariciar a pele macia
Que agora pode descansar
Como criança a preparar sonhos
Respirar, de peito aberto
Receber no rosto claro o vento
A volupiar o corpo desperto,
Afeto da terra, do chão, e dos céus
Andar, por caminhos quietos
Afagar a estrada com os pés
Mirar um horizonte azul
Comer, com uma sincera fome,
Os frutos que vertem do tempo
Lamber os dedos, mastigar sabores
Engolindo cada grão como fosse o primeiro
E beber, ah! que sede
Beber olhares, sorver ideias
Cada gole, um novo golpe
Nas muralhas cegas e mesquinhas
Beijar, pela cumplicidade imediata
Lábios sábios e tão doces
Braços raros, que não previa
Olhar, com a paciência já vivida,
A dança de cores, luzes, criaturas
Que se fundem, e ver
A extinção de todo cinza
Ouvir, sem amarras
Cada timbre e cada textura
Todo som e todo silêncio
Escutar o universo pequeno das formigas
E a conversa longa das estrelas
Com a paz tão cálida,
E por certo mais doce
Dormir, dedos satisfeitos
Saborear um cansaço limpo
E sonhos completos
Viver, pelo prazer do sentir
Entre o frio e o fogo, a sombra e a luz
Novos dias que me sorriem



Escrito em 6 de abril de 2013,
em um caderno de pensamentos.

Em silêncio.

Imagem: Kaleidoscope,
by Leslie Ann O'Dell.

7 de janeiro de 2013

O menino-mesmo

Olha lá o menino!
O mesmo, lá vai!

Desejou voar, e saltou
Mas sem asas, ficou no chão
Achou-se Ícaro
Era por demais humano

Quis pintar o rosto
De (hoje) cálida lembrança
Falhou a cor
Aprendiz do aprendiz

O menino-mesmo arfou
Correndo, explodindo, urrando
Viu-se livre.
Gabou-se,
De sua intrincada prisão

E, como fermento não erra,
Sentiu borbulhar o negrume
Adocicado temperado
Do grisalho enlouquecedor

O menino-mesmo mudou
Mudou-se, "renasceu"
Em círculos

Defendeu os céus,
Qual cavaleiro da Santa Ordem!
E entreviu, pela armadura de platina,
O cavalo de pau que cavalgava

Lutou pelo verdadeiro tom
Soando consonante feito pedra
Afirmou-se novo
– de joelhos para o velho mundo

Estirou o indicador feito lança
Imperador da sacra justiça
– caiu
Ladrão torpe
Cor imunda

O menino-mesmo amou.
– ah, se amou!
Amante tão desejável esta:
O reflexo de sua própria ambição.
Que o mesmo não ama,
O menino não pinta,
O símile não canta, nem dança.
O menino-mesmo amou.

E mais? Algo mais,
Mea culpa desinteressado?
Mais outra revelação
Obviedades mais?

O menino-mesmo, lá vai!
Quis ser sincero
E, ao querer, mentiu.


Escrito em 24 de dezembro de 2012,
às 19:20h.

No empoeirado Circo.

Imagem: Espelho Mágico,
by M. C. Escher.

Constatação

O que me restou da dor? Uma face, olhos turvos que desviam de encontros, confrontos que não são, e o clarão de uma descoberta: não sou romântico.

Pois que não sou capaz de olhar a rosa sem me atentar aos espinhos, não consigo mais alcançar a doce ingenuidade da primeira vez sem corrompê-la com o presságio do que me resta.

E o que me resta?



Em algum momento do outono de 2012,
em um caderno de pensamentos.

Imagem: Eve,
by Leslie Ann O'Dell.

Descrença

Amanheceram folhas caídas
As mesmas folhas,
Das mesmas árvores

Mora em mim uma cor
Que busca a beleza
Em toda sua infinita,
Tão clara, inutilidade

Mas cresce também a chaga
Febril doença dos sentidos
A intuir abismos
Nos mais dourados campos

Vê a criança, como guia.
Espera, e verás nascer
Ou a víbora de Vênus
Ou a traça de Marte

E que importa o gênero
Se no fim nem vale o ar
Não paga o Sol que a ilumina

Embota-se a cor
Mas a ferida também a acentua
Pois não há vermelho mais fogo
Nem amarelo mais ouro
Nem cor tão viva
Quanto aquela que brota do cinza


Escrito em 31 de julho de 2012,
em um caderno de pensamentos.

Imagem: Sear,
by Leslie Ann O'Dell.

Rotina

Passa lento o dia
Horas que não sorriem
Boca ainda no ontem

Ao menos sustento, suporto?
Cansaço frio, nublado
Trancado, sem sol

Vi a criança a brincar
Triste começo
De uma sorte volúvel

Mas seu riso me trouxe
O calor de um presente
Antídoto terno
De um beijo mordaz

E o que digo? É erro
Vaidade em buscar
O vento veloz

Sem me reconhecer
Nas pegadas que fiz
No universo sutil

Que infinito nasceu.
No asfalto incolor
Grito a cor de viver


Escrito em 19 de julho de 2012,
em um caderno de pensamentos.

Imagem: Pray,
by Leslie Ann O'Dell.

9 de julho de 2012

Dorian

Eis o alvo alcançado
Em anos, perde-se a conta
Marcas, dores
Cicatrizes

O que o corpo pede,
Cede
Cada desejo
Mais desejo de morte

Eis o que se quis
Momento algum
O almejo e o fruto
Feito um apenas

O que se vê
É o que se come
Engole o fogo em salto
Queima, qual tempestade

Eis a criatura imaginada
A agonizar
No reflexo turvo
Do moribundo criador



Escrito em 5 de julho de 2012.

Imagem: Auto-retrato com vinte e quatro anos,
by Dominique Ingres.

Hoje

Andava quieto, só,
Pensando no que viria,
Nos odes futuros,
Sem cantar uma nota

Calou-se o Tempo, pois corria
Desesperadamente na rotina
Ator transfigurado
Na mais bela personagem

E leve
Cálido
Intenso noir dormente

Um passo, e aperta a dúvida
Os olhos suportam?

Questionamento infindável
Sempre às bordas de um terraço
Pés prontos a saltar
Mas a mente insiste
Batalha
E vence
Por mais uma sobrevivência



Escrito em 4 de julho de 2012.

Imagem: Visions of Metropolis 2, by W.B. Sloan.

Mudança

Findou-se o ato
Sem fôlego, pendeu o ator
Sobre o palco sujo
De letras palavras versos

Esgotou a voz
Naquele "diálogo" último
Sangrou demais os dedos
Tecendo a inútil dialética

E, quando se apaga a luz
Eis que outro tom é aceso
Em cor dodecafônica

Ele ouve, e anda
Com ouvidos procura
A fonte daquele vinho

Bebe, e lhe dá sede
Água de Alice, veneno
Doença quente no peito
A matar novas palavras

Que já não lhe basta
A realidade das palavras.
A sanidade dos versos
É para ele só inércia

Pois notas queimam
Cadências ardem frescas
No salão turvo
De memórias reinventadas

Aquele circo de dores
Trouxe ao menos força
Ao som gritante,
Antes quieto num casulo

Pois gritará.
Alçará a voz em acrobacias
Entornará a luz em si
Tempestade só, a destruir,
Para recriar com nova vida
Ou ao menos mostrar
A escuridão que se inicia.



Escrito em 25 de maio de 2012.

Imagem: Subversion, by Miriam Sweeney.

8 de julho de 2012

A aprendiz

Não é que não seja belo
Nem que não satisfaça
O espetáculo torpe
Da mediana atriz

Sabe algumas falas
(Embora me tenha dito
Que as sabia todas)
Decora muito bem

Mas sua face retorcida,
Naquela tosca tentativa
De um riso a la Tchékov

Enjoa, não faz pensar
Lembra o ingresso pago
E assim suscita o ódio
Sibyl Vane que nem amou

Desce daí, que já se esgota
O prazer da cobiça
Encerra o ato
Que já me enoja a tua voz!

Tu nem rosa és!
Mero botão, que não suporta
Sangue de um Curinga

Não é que tenha sido precoce
A chegada daquele fim
Nem que desejasse
Uma peça rápida e vã

Mas uma "arte" dessas,
Enquanto me suja de cinza,
Toma meu tempo
Corrompe meu palco
E cansa
Muito mais do que ensina



Escrito em algum dia morno de maio de 2012.

Imagem: Neda's Entrance, by Sergio Lopez.

27 de abril de 2012

De um monólogo

Pois então visitei a Loucura, e ela me agarrou com braços fortes, fez-me amante, senhor e servo, até me dilacerar com suas garras de harpia.

És tu então que vem, desafiando a proteção frágil que construí? Tens nas tuas mãos flores das mais cruéis, nas tuas mãozinhas que quase amassam pétalas. Mas por que, por que não abres tua boca?

Cinza, inércia se fez da mais bela dança que valsei. Sutileza, gentileza, pergunta, e apenas o silêncio. É assim que se destróem pontes e se erguem muralhas, sabes?

E agora apontas para meus braços, derramando as pétalas mais podres, como se eu os aviltasse a cada noite em nova dança. Pequena, se sou uma Bovary, não é senão porque busco o incêncio que já encontrei em ti, e que me basta. Basta-me ainda banhar-me nas poucas brasas que ainda aquecem minha nuca, mas se vês em mim um trapezista, a saltar de corda em corda, talvez teu passado te ofusque a visão.

É verdade que já parti o espelho de Shalott, mas logo depois encontrei o fim. Não terás tais cacos, é fato, mas sinto que um certo Iago corrompe por dentro a tua força de mouro general.

Abaixa então teus braços, relaxa teus ombros. Não fui eu, Ofélia, que matei teu pai, não desejei tua queda. Mas cuida, que vais encontrar teu pântano sepulcro embaixo do salgueiro Indiferença, nascido não das minhas palavras, nem da falta delas, mas do silêncio de tuas faces multifacetadas.




Escrito em 23/04/2012, num bloco de papel.

Em preparação a um conto.

Imagem: Renaissance by Delphine Pavy.

13 de abril de 2012

De um poema de amor

ou Pássaro de Fogo
Duvida que as estrelas são fogo
Duvida que este sol se mova
Duvida da verdade para seres mentirosa
Mas não duvides (...)
Que eu possa esquecer
__________________________________

Vê, as cores que partiram
Pelos nossos braços
Matizes vivas
A correr na pele suave

Pelo teu pescoço, tua nuca
Martírio do cárcere
A gritar liberdade

Azuis a queimar
Nos cabelos pretos
Um toque
Lascivo mergulho

E notas, leves
No crescendo interminável
Pela curva de teu dorso

E sente, o calor a nascer
Do silêncio sem cor
Um pássaro de fogo
A pousar em pequenino seio

Dedos que dançam
E prendem, ou tentam,
O momento em presto
Entre mãos que se beijam

Ouve então.
Se em teu pequeno corpo
E em meu cárcere
Nasceu tal rapsódia

E se o coda final
Não foi mais que decepção

Não foi senão sonho
Real distorção de sabores
A acordar da realidade
Para nela lançar como jamais



Escrito em um bloco de papel,
em 12/04/2012.

Ouvindo Opheliac, by Emilie Autumn.

Citação: trecho de Hamlet, W. Shakespeare.

Imagem: cena de Fantasia 2000,
sob adaptação da peça Pássaro de Fogo,
de Igor Stravinsky.

10 de abril de 2012

Invernal

Queima a tarde
Arde a noite
No silêncio das horas soltas
Caí

Vinho de diferentes taças
Mas um gole apenas
Cada fruto, a sua agonia

Tal inverno que sempre surge
Maldição divina

Pois eis que provei
Do mesmo sangue enfermo
Que já um dia me matou



Escrito no Circo, em 09/04/2012, à 01h AM.

No silêncio.

Imagem: My muse, by Leslie Ann O'Dell.

7 de abril de 2012

De uma incerteza certa

E, tendo ficado vago,
Também turvou-se a fé
Descoloriu-se
Reagindo à inércia

Que não vale o esforço
De sangrar em alimento
De repetir o mesmo ode
Não vale o levantar dos olhos

Paga, porém e com folga,
Uns versos meio mancos
Que, se não ma despedem,
Ao menos saem vivos



Escrito em 04/04/2012,
ao som do trânsito
e dos pensamentos.

Cansado da repetição.

23 de março de 2012

Sobre alguém interessante

Há muito tempo ouvi falar de uma sonata de Beethoven, "apelidada" de Waldstein. Parecia-me ser uma das obras para piano mais difíceis, já que foi no contexto de virtuoses que vi o nome tão singular. Parecia ser obra complexa, intrincada, de assimilação lenta.

Cheguei mesmo a encontrar uma interpretação da alemã Alice Sara Ott, mas não a escutei. Talvez por receio de me amedrontar com a dificuldade, mas por certo que não era o momento apropriado – naquela época talvez não entendesse a dita riqueza dos sons.

Bem, há quase dois meses consegui com um professor uma coleção contendo todas as sonatas para piano de Beethoven, interpretadas pelo pianista argentino Daniel Barenboim – e, claro, entre elas estava a Waldstein.

Surpresa agradável, deliciei-me com a forma como Waldstein discorre, por meios ainda tonais mas certamente avançados para a época, entre a euforia e a depressão. Tão maravilhado fiquei, que a escutei repetidas vezes, por repetidos dias. Até que veio a erva daninha...

Por escutá-la demais, a sonata não me deixava só. Ouvia-a no trânsito, nas palavras, na comida, no atraso e no descanso. E quando digo que a ouvia, era ouvir internamente. Suas notas sobrepujavam qualquer tentativa de recordar outra música, por vezes mesclando-se com as novas notas, até que não houvesse outra música senão um dos seus três movimentos.

Um certo desespero tomou conta, naturalmente, levando a tentativas sucessivas de, se não esquecer, ao menos enxertar outras notas no lugar. Tarefa fácil não foi, mas penso que consegui. Ouço agora mesmo o silêncio reconfortante das árvores, e nem uma única vez, enquanto deitava estas linhas sobre o papel, passou pela minha mente a tão falada Waldstein.

Às vezes, eu acho, é preciso ouvir o silêncio para que os sons façam algum sentido.





Em 22/03/2012, em um bloco de papel, por volta do meio dia.

18 de março de 2012

De uma incoerência

É a noite que morre quieta
A conversa que se cala
O consenso na discórdia

Toque que virou lembrança
Memória, em desalento
Riso tornou-se o frio
Tremer ante um afago

Espaço demais, tempo de menos
Infinidade de sabores
Perdidos
Entre os teus e os meus dedos



Em um bloco de papel, n'algum dia da semana passada,
por volta do meio dia.

No silêncio do barulho urbano.

Imagem: Lynn, by Neo Innov.

16 de março de 2012

De um anacronismo espacial

Céus, eu lhes peço
Apaguem a luz
Ou ao menos desfoquem
Em tons de inverno e chuva

Meu peito já não aguenta
A força de algumas palavras
Não se formam
E me restam apenas repetições

Reflexos, ponteiros, flores, cores e tons
Reinvenção do inevitável
Eco do mesmo sangue
Vertendo por saídas diferentes

Meus olhos pendem cansados

Silêncio, sem supor
Sem miragens ou oásis
Apenas quieto e só

Desejo que entorna
Das bordas turvas da dúvida
Mulher que ri
Doce mel a cair do favo
No mesmo clichê de fatale

Meu corpo cede, em cacos,
À sepultura comum do sono
Um belo verso, e nada mais.




Escrito em um bloco de papel, em 15/03/2012,
por volta das 12:30h.

Ouvindo pássaros, conversas e o trânsito,
sob um sol escaldante.

Imagem: Faith,
by Hengki Koentjoro.

15 de março de 2012

Fantasia-Improviso

Subiu no palco
Palmas!
Vermelhas as cortinas
Que descobrem outro grito

Eis que canta!
Ouve o ar
Dança a essência
Sente o calor

Pele, olhar, ideia
Cala, ouve novamente
E salta...

Saltou.

Resposta?
Retorno?
Algum mísero olhar
Antes do trágico impacto?

Mas a surpresa!
As luzes se acendem
Havia plateia
Enfim outro noir!

Enquanto no ar
Passos alcançaram o palco
Laços abraçaram
O espetáculo de cores
E outro tom se acendeu!

Chão.

Que sons?
Que cores?
Palavras
Toques
Versos
Notas
Traços
Qual grito nascia?

Ergueu os olhos
Contornou os negros fios
Fitou os cálidos olhos
Ouviu a voz em adagio
Improvisar a cadência
Imprevisível presença

Subiu.

Há palco?
Sobram tempos no compasso
Ou as cores se suplantam?

Ah, nova surpresa!
Jamais bateu, jamais correu,
Mas ali, ansioso,
Bateu pela primeira vez
E também correu quente
Pelas artérias confusas

Luz!
O Circo tem cores
O Palco tem sons
Espetáculo multifacetado
Das infinitas palavras
Notas e traços
A dançar, como jamais
A viver, feito o pássaro
Que descobriu poder voar!

E ainda assim eu temo a queda. Vendo a calmaria indesejável se aproximar da apaixonante tormenta. Mas digo "sim". Versos demais já foram queimados, notas demais já foram libertas, mas, ainda assim, aqueles olhos negros valem esse novo ressuicídio.

Ainda que meu elísio negue, ainda que minhas páginas mostrem antigos e familiares espinhos. Ainda que um doce Curinga insista em me incitar das cinzas. Ainda que um Espelho, um Relógio e duas flores de um Jardim gritem o caminho inverso, abro as portas do Palco.

O espetáculo da mais intensa vida - e talvez do mais pungente salto - fez soar suas primeiras notas.



Escrito no Circo, em 14/03/2012, pouco depois da meia noite.

Ouvindo Rolling in the Deep, Adele.

Imagem: A Girl, by Neo-Innov.

17 de fevereiro de 2012

Uma fermata...

Pois então aqui estou, no fim de mais uma tarde, sufocando o cansaço com meu próprio reflexo. A velocidade das horas, a intensidade das cores é tamanha, que às vezes me interrompo, recostado em algum repouso, para respirar e tentar olhar, ainda que furtivamente, pela fresta da fechadura da grande porta que cruzo a cada dia. Sobram-me lapsos, momentos de um espectro, sempre perto, sempre longe, em que vislumbro o clímax, o apogeu, o fortíssimo de uma peça que jamais parece evoluir. E então, como perdesse o trem na estação, salto novamente para alcançar o ritmo inevitável da rotina.

Por acaso ela, a rotina, roubou o sangue pulsante? É então assim que, tendo se acostumado com as chibatadas, o escravo cede o último átimo de dignidade? Eis que eu me renovo a cada vento noturno, mas é assim que as cicatrizes se acumularam sem que eu ao menos percebesse – e se percebi, não me esforcei com a esquiva – ?

A rapsódia dos últimos tempos, porém, talvez traga esperança: que o negro cálido ardor por ora queima, ainda que a casa esteja mal iluminada; que o grito ainda tem força; e que o coda final, ainda que curto, encerra a cadência mais pungente de todas.





Escrito em um pequeno bloco de papel, em 16/02/2012, por volta das 18 horas.

Ouvindo o trânsito por uma janela de ônibus.



* Fermata é um símbolo, usado em notação musical, para indicar que uma nota ou pausa deve ser mantida por mais tempo que o normal, ficando essa duração a critério do intérprete. Aparece normalmente no final de períodos ou mesmo da própria peça.

10 de fevereiro de 2012

Carpe Diem

Eu não quero o dia
Não quero as massas
As lotações e os enxames
Eu não quero o barulho
O vaivém e a buzina
Não quero motores
Não desejo os outdoors
Letreiros óbvios protuberantes
Eu não quero a luz
Branca fria sobre a mesa
Não quero o sol
Direto do asfalto quente

Eu não comerei
A ganância nossa de cada dia
Não conversarei
A idiotice óbvia da rotina
Hei de não erguer
O copo cheio de palavras
Hei de não dormir
O descanso cego do escravo

Eu desejo o fim
Num adagio sensível
Quero a lentidão
Do toque sem palavras
Eu quero a concordância
Em silenciar a vida
Para viver como nunca mais



Escrito no Circo, em 08/02/2012, às 00:30h.

No silêncio.

Imagem: Lost,
by Hengki Koentjoro.