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5 de agosto de 2012

Contos do Absurdo

Uma das coisas que mais agradeço pelo advento da Internet são as possibilidades que ela nos apresenta: navegar a esmo, por vezes, nos faz encontrar pequenos tesouros...

Contos do Absurdo é um projeto interessante idealizado por Mario Mancuso, que reúne histórias de vários tipos sobre o bizarro e o sobrenatural. A revista é digital e gratuita, podendo ser baixada no site Contos do Absurdo.

Uma miscelânea de estilos, formatos, traços, torna a revista um conteúdo bem legal de ser lido, e principalmente (para quem não está acostumado) de forma rápida.

Para os aspirantes e aventureiros, a revista é aberta a novas contribuições, bastando que mande o projeto ou sugestão para apreciação!

Um projeto bem interessante, que vem a contribuir de forma positiva com o cenário brasileiro de HQs!

Para maiores informações, visite o site Contos do Absurdo.

17 de fevereiro de 2012

Uma fermata...

Pois então aqui estou, no fim de mais uma tarde, sufocando o cansaço com meu próprio reflexo. A velocidade das horas, a intensidade das cores é tamanha, que às vezes me interrompo, recostado em algum repouso, para respirar e tentar olhar, ainda que furtivamente, pela fresta da fechadura da grande porta que cruzo a cada dia. Sobram-me lapsos, momentos de um espectro, sempre perto, sempre longe, em que vislumbro o clímax, o apogeu, o fortíssimo de uma peça que jamais parece evoluir. E então, como perdesse o trem na estação, salto novamente para alcançar o ritmo inevitável da rotina.

Por acaso ela, a rotina, roubou o sangue pulsante? É então assim que, tendo se acostumado com as chibatadas, o escravo cede o último átimo de dignidade? Eis que eu me renovo a cada vento noturno, mas é assim que as cicatrizes se acumularam sem que eu ao menos percebesse – e se percebi, não me esforcei com a esquiva – ?

A rapsódia dos últimos tempos, porém, talvez traga esperança: que o negro cálido ardor por ora queima, ainda que a casa esteja mal iluminada; que o grito ainda tem força; e que o coda final, ainda que curto, encerra a cadência mais pungente de todas.





Escrito em um pequeno bloco de papel, em 16/02/2012, por volta das 18 horas.

Ouvindo o trânsito por uma janela de ônibus.



* Fermata é um símbolo, usado em notação musical, para indicar que uma nota ou pausa deve ser mantida por mais tempo que o normal, ficando essa duração a critério do intérprete. Aparece normalmente no final de períodos ou mesmo da própria peça.

15 de agosto de 2011

Enelock

"A meu ver, quem escreve para crianças pode abordar seu trabalho de três maneiras: duas são boas, e uma, em geral, é má."

C. S. Lewis, Três Maneiras de Escrever para Crianças

A frase acima inicia um belo ensaio do renomado autor d'As Crônicas de Nárnia - uma das grandes obras da literatura dita "infanto-juvenil". Em tal artigo, Lewis descreve três arquétipos de escritores para crianças, que ao seu ver são de certa forma comuns. Porém, apesar desse ensaio tratar especificamente da literatura para crianças, esses arquétipos podem ser estendidos à literatura como um todo. É possível enxergar, com certa clareza e nitidez, três tipos de escritores - e não apenas hoje em dia, mas em toda a história da literatura:

Há aqueles que escrevem seguindo os paradigmas já presentes, que seguem fórmulas predeterminadas e que, invariavelmente, garantem um sucesso rápido, estrondoso e, naturalmente, momentâneo. Escrever assim é pensar milimetricamente em como agradar ao leitor. Tais escritores conquistam fãs muito mais pela velocidade com que espalham suas obras do que pelo conteúdo delas. Conquistam também o desprezo de alguns poucos. E as obras escritas sob esse arquétipo, apesar de terem por vezes o poder de nos cativar, de nos fazer rir ou chorar, não nos fazem realmente contestar a ordem natural das coisas. Nesse arquétipo podem ser inseridos muitos dos best-sellers atuais e passados.

Há ainda os escritores que percebem essa falta de profundidade e decidem quebrar os paradigmas existentes. Quebram com as ideias, as regras predefinidas e, fazendo as suas próprias e moldando a arte à sua vontade, criam formas novas. Escrever assim é empunhar uma espada. Tais escritores conquistam não apenas seguidores, mas também inimigos. Não há, para estes, o desprezo, pois suas obras não são "mornas", não permitem a indiferença. As obras desse arquétipo normalmente nos chocam, fazem-nos contestar a ordem do mundo à nossa volta. Nesse tipo de literatura podem ser classificadas a maioria das obras imortais, e algumas poucas da atualidade.

E há, por fim, aqueles que escrevem para si mesmos. Não escrevem com fórmulas, ou empunhando armas, mas escrevem com seu sangue, com sua alma. Não seguem nem quebram paradigmas, pois estes não se aplicam a esse tipo de literatura. Tais escritores por vezes não conquistam fama, mas sim a eternidade. Suas obras não são vendidas como água em cada banca de esquina por dois ou três anos, mas são lidas e compartilhadas nas bibliotecas. Tais obras não nos fazem contestar apenas o mundo à nossa volta: fazem-nos contestar a nós mesmos. Todas as obras imortais pertencem a esse tipo, e raríssimas obras atuais também.


Nessa última semana terminei de ler o terceiro e último livro da série Legado Goldshine, Enelock, do escritor Leandro Reis, de São José dos Campos, SP. Que impressão fica nesse fim de trilogia?

O livro começa intenso, e permanece assim ao longo dos capítulos. Seguindo a evolução encontrada nos outros dois livros, cada personagem é desta vez descrito de maneira mais profunda, sendo exibidos os problemas pessoais que levaram aos acontecimentos maiores do universo de Grinmelken.

Galatea Goldshine continua em sua busca pelas três runas sagradas de seu deus, Radrak, mas desta vez não há como alcançar o portador da terceira runa. Seu maior inimigo, Enelock, mantém tal portador como prisioneiro, usando-o como isca para que os exércitos de todos os reinos venham lutar e sangrar em sua própria terra, Ars Nibul. O interessante nesse livro é que Galatea não é mais a guerreira toda-poderosa do primeiro livro, nem planeja com cuidado cada passo como no segundo. Galatea está cansada. Cansada pelo mundo à sua volta, cansada pela sua impotência, cansada por si mesma. Galatea brilha, mas seu brilho não é mais do que o brilho intenso de uma lâmpada antes do fim. A personagem evoluiu, na série como um todo, de uma mera heroína banal, superestimada por todos e extremamente irreal de fato, para uma mulher que não pode aproveitar os poucos momentos bons que tem devido às suas obrigações com seu reino e o mundo, uma pessoa com feridas profundas demais para cicatrizarem.

Iallanara Nindra, por sua vez, segue seu caminho, com suas próprias lutas e seus próprios inimigos. Não é segredo, e isso já desde a primeira resenha que fiz sobre a série, que Iallanara é minha personagem favorita. Mas, em determinados momentos, cheguei a supor que o mais interessante nessa personagem havia morrido com o fim do segundo livro: a dualidade e a profundidade. Não havia mais aquela dúvida quanto aos seus objetivos, e suas intenções pareciam claras demais, óbvias demais. Porém, isso só tornou mais interessante o momento em que Iallanara mostra quem realmente é, e por que ainda estava ali. A personagem, que já possuía profundidade suficiente para torná-la quase real, nesse livro se torna, assim como Galatea, uma mulher dona de suas próprias ações. As obrigações de Iallanara são um tanto quanto diferentes das de Galatea, mas é fato que há também feridas abertas. Porém, há em Iallanara algo dos grandes personagens da literatura: a imprevisibilidade. Não digo isso por uma determinada verdade acerca da personagem, mas sim pela sua própria natureza. Ela não segue a lógica, muito menos a ordem. E, muitas vezes, não segue sequer a si mesma.

Os dois elfos que acompanham Galatea desde o primeiro livro, Sephiros e Gawin, continuam ao seu lado mas, dessa vez, não são apenas coadjuvantes que nos entretem nos momentos de monotonia. Cada um tem seus próprios problemas, seu passado e, talvez, um futuro, ganhando personalidades mais realísticas.

E, por fim, o personagem-título do livro. Enelock, o Lorde Supremo dos Mortos, que mal havia sido citado no primeiro livro, com uma participação quase ínfima no segundo, desta vez se torna o centro das atenções. Diferente do que eu supunha desde o começo desta série, o vilão não seguiu os padrões de outros livros de fantasia - um ser pura e completamente mal. Enelock também tem seus próprios problemas, e até mesmo seus próprios motivos. Em certos momentos, chega-se mesmo a torcer para que ele consiga encontrar sua redenção. E, dessa forma, o fato de seu maior inimigo ser uma mulher faz todo o sentido (quem ler entenderá). Como toda boa história de fantasia, Legado Goldshine possui um vilão de peso, que não mede esforços, que sabe os pontos fracos dos inimigos, mas que desconhece alguns dos seus próprios. Como todo bom vilão, Enelock acredita que o que faz é necessário e correto.

Dignas de nota são também as descrições dos "anões" de Grinmelken. Contrariando as descrições comuns por um lado, e por outro elevando-as ao máximo, o autor criou uma raça de criaturas interessantes, que poderiam certamente ser mais bem descritas em obras posteriores - o que de fato não cabia a esse livro. Também interessante é a descrição da criatura "criadora" dos vampiros. Semelhante às descrições de um certo sistema de RPG, tal personagem incita ao mesmo tempo o terror e a devoção.

Olhando um pouco além dos detalhes, é possível enxergar uma distina evolução entre os três livros da série. Filhos de Galagah, o primeiro, segue todas as fórmulas já bem conhecidas das histórias de fantasia, focando na honra e em personagens poderosos. O Senhor das Sombras, o segundo, quebra com essas mesmas fórmulas, além de romper com o conceito pelo qual uma história de fantasia deve, mesmo que contenha sangue e luta, ser leve - o segundo livro não é nem um pouco leve. E Enelock?

Em Enelock, novamente as fórmulas de histórias de fantasia são quebradas, mas esse não é mais o foco. Nem mesmo a honra e a glória são o foco. É possível sentir aquilo que se sente quando se lê uma história daquele terceiro tipo de literatura. Os principais personagens se tornam reais, é possível quase enxergá-los à nossa frente, não porque suas feições sejam bem descritas, mas porque suas personalidades são plausíveis. É plenamente possível enxergar Galatea em determinadas pessoas, Iallanara em outras, Sephiros, Gawin... E, infelizmente, é também possível enxergar Enelock em muitas pessoas.

Legado Goldshine termina com uma obra que é o que toda arte deve ser: um espelho dos seus espectadores. Porque, afinal, como Oscar Wilde bem disse, é o espectador, e não a vida, que a arte, na verdade, espelha.

No site/blog da série é possível ainda ler contos, ver entrevistas e ler os artigos publicados pelo próprio Leandro Reis e, naturalmente, comentá-los.

Há também uma entrevista dada pelo autor à Revista Fantástica, com uma mensagem interessante a escritores iniciantes.


Este artigo faz parte do Booktour do Legado Goldshine, promovido pelo autor em seu blog. Leia também as outras resenhas feitas aqui no Sonata Escarlate:

E se você ficou curioso acerca das tais 'três maneiras de escrever para crianças', aquele ensaio citado no início deste artigo está no final do volume único d'As Crônicas de Nárnia.

29 de maio de 2011

O Senhor das Sombras

– "Ah", disse o rato, "o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro".

– "Você só precisa mudar de direção", disse o gato, e devorou-o.

Tradução de Modesto Carone

O texto acima, intitulado Pequena Fábula, é considerado a primeira obra realmente imortal do autor checo Franz Kafka. Kafka foi um dos maiores expoentes do expressionismo alemão, e é aclamado como fundador de um estilo um tanto quanto paradoxal: o realismo mágico. Seus livros – incluindo contos, romances e narrativas medianas – são publicados e analisados à exaustão até hoje, um século depois de terem sido escritos.

Porém, Pequena Fábula não foi o primeiro texto que o autor franzino escreveu: antes dela, ele já tinha escrito inúmeras peças de teatro, consideradas hoje desprezíveis para a literatura universal. É curioso, assim, que um texto tão pequeno, aparentemente tão simples, tenha prevalecido sobre peças inteiras de teatro com o passar dos anos.

Algo interessante ocorre quando lemos vários livros de um mesmo autor: podemos notar sua evolução, seja narrativa, poética ou estilística – claro, quando essa evolução existe. Isso aconteceu comigo há pouco mais de uma semana, quando terminei O Senhor das Sombras, segundo livro da série Legado Goldshine, do autor paulista Leandro Reis.

Antes mesmo da própria narrativa, há um prefácio muito bem escrito por Raphael Draccon, autor conhecido nacionalmente no meio da literatura fantástica. A narrativa é adiada por um prólogo intenso, com uma revelação que já mostra, a quem (como eu) não gostou tanto do maniqueísmo do primeiro livro, que nesta continuação os fatos não são o que parecem ser.

A habilidade narrativa do autor melhorou muito. As cenas não são mais previsíveis, e a própria sequência dos acontecimentos é encadeada de uma forma que torna a leitura interessante do início ao fim. Os cenários também são muito bem construídos – algo que já acontecia em Filhos de Galagah, porém desta vez um pouco melhor –, e os personagens em si são muito mais reais do que antes. Um dos maiores sinais da evolução estilística de Leandro Reis é o ódio que senti por certos capítulos: fizeram me sentir mal, sufocado, como se participasse das cenas. Isso é ótimo, porque só assim podemos realmente sentir a história, não apenas conhecê-la.

Galatea, a protagonista, continua sua jornada em busca das runas sagradas, atravessando o continente, conhecendo vários povos diferentes e culturas estranhas, o que traz um certo amadurecimento a seus ideais. Ela deixa de ser, de certo modo, a guerreira que resolve tudo por meio de um belo golpe certeiro de espada. Utiliza, em alguns momentos, até mesmo de malícia para conseguir o que quer, e sua fé é sempre o elemento chave de todos os seus atos – afinal, ela é considerada a "mão" de seu deus, Radrak, entre os homens.

Ocorre que, apesar da missão sagrada de Galatea ser conhecida por muitos, nem todos a consideram válida ou mesmo necessária. Em determinada cena, um personagem de uma raça nobre, quase divina, e também idoso e sábio, contesta se tal missão não seria apenas uma disputa, um jogo entre deuses que coloca a todos em perigo. Tal contestação é obviamente repelida, mas é interessante que ocorra, pois até então ninguém contesta se tudo aquilo é justo: não havia dualidade na missão.

É interessante notar também como o autor uniu de forma simbiótica as histórias das duas personagens principais, Galatea e Iallanara. Não apenas a personalidade de Galatea é aprofundada desta vez, mas principalmente Iallanara, em todo o seu universo interior de medos, preconceitos e mágoas, é detalhada ao máximo. O que no primeiro livro foi apenas uma sombra, desta vez se torna nítido: Iallanara tem diversos problemas, sendo a maioria devido às suas próprias decisões. Ela deixa de ser uma criatura estranha entre todos, para se tornar aquela cujo passado, presente e futuro podem decidir o rumo de vários povos, aquela cujas decisões vão impactar em mudanças eternas. E, ao mesmo tempo, ela ainda é a fortaleza impenetrável, cujo interior é mais frágil que uma flor de vidro.

Outros personagens são também aprofundados, ganham personalidades mais realistas. Até mesmo alguns vilões, em todo seu antagonismo, crueldade e escuridão, demonstram motivos para o que fazem, mostram que não foram sempre manifestações do mal. Um dos vilões, inclusive, exibe uma fraqueza tão simples, tão humana, que o torna muito mais interessante, muito mais próximo aos vilões que todos conhecemos.

Talvez fique a pergunta: por que a tal Pequena Fábula de Kafka foi a introdução deste artigo?

O detalhe mais interessante que encontrei no livro, mais do que as cenas dramáticas, as dualidades etc., foi uma frase dita por uma personagem em determinada cena, em um dos primeiros capítulos: "Cuidado com o que cativa!". Todo o livro pode ser definido por essa frase. O Senhor das Sombras mostra, de uma forma que encontrei em pouquíssimos livros até hoje, o quanto essa frase é verdadeira. Cada personagem é atormentado e perseguido por aquilo que, impensadamente, cativou. Como Kafka em sua Pequena Fábula, Leandro Reis conseguiu, em apenas algumas palavras, definir toda a sua obra. Este é, para mim, o maior sinal da evolução na narrativa e, principalmente, no estilo do autor.

Há ainda, necessário dizer, um bom epílogo em O Senhor das Sombras, que deixa no leitor uma ansiedade grande pelo próximo livro. Porém, ao que tudo indica, no terceiro livro a escuridão prevalecerá como nunca antes na história, e o vazio tomará conta de todos. Esse sentimento deixado pelo epílogo, e também por alguns detalhes do segundo livro como um todo, faz com que seja quase plena a certeza de que Leandro Reis evoluiu ainda mais em Enelock, o terceiro livro e, assim, cumpriu a promessa feita em Filhos de Galagah: uma boa história, uma boa narrativa, e um estilo que deve prevalecer.

Enelock, o terceiro livro da série Legado Goldshine, já foi concluído pelo autor e deve ser lançado em breve pela Idea Editora, que também publicou os outros dois livros.

No site do autor há um conto, indicado por ele próprio, cujos acontecimentos ocorrem entre o primeiro e o segundo livro: Olhos de Herói. Vale a pena ler, é muito bem escrito.

Este artigo faz parte do Booktour do Legado Goldshine, promovido pelo autor em seu blog. Leia também o artigo do Sonata Escarlate sobre o primeiro livro da série, Filhos de Galagah

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E se você ficou curioso a respeito de Franz Kafka, e do porquê de Pequena Fábula ser tão valorizada, leia Lição de Kafka, de Modesto Carone.

15 de março de 2011

Filhos de Galagah

          Há uns 150 anos, um certo matemático contaria uma pequena história para três crianças, numa tarde quente ao longo do rio Tâmisa. Daquela brincadeira, o resultado seria um pequeno livro, rapidamente rotulado como infantil, que para muitos marca o início de um estilo que perdura até hoje: a fantasia.
          Ganhando detalhismo milimétrico com Tolkien, significado espiritual com C. S. Lewis, sarcasmo com Lemony Snicket, non-sense absoluto e insubstituível com Lewis Carroll (o matemático do parágrafo anterior), coerência científica e teológica com Philip Pullman ou mesmo pitadas (muitas vezes grandes pitadas) de terror e profundidade com Gaiman, a fantasia na literatura descende diretamente dos contos de fadas medievais, que por sua vez descendem das respectivas mitologias e culturas dos povos que criaram estes contos. Até hoje a fantasia leva milhões às páginas, de papel ou eletrônicas, de livros e mais livros com histórias e mais histórias, cada uma tentando conquistar o seu lugar ao sol. Algumas até conseguem a sua luz, mas por não terem “raízes” acabam sendo queimadas e logo perecem no esquecimento.
          E qual não foi a minha surpresa ao descobrir, num lugar que jamais presumiria tal coisa, um escritor de fantasia bem próximo do meu cotidiano?!
          Leandro Reis “Radrak” é o autor da série Legado Goldshine, cujo primeiro livro, Filhos de Galagah, tive a oportunidade de ler. Como estreia do escritor, o livro foi inspirado em uma longa crônica de RPG, mestrada por ele mesmo para seus amigos. Porém, a partir de algo simples – escrever a longa crônica como presente para esses amigos –, o gosto por escrever foi crescendo, e a série foi então iniciada. E sobre o que o livro fala?
          Basicamente, é uma história de heróis, dragões, magos e senhores do Escuro. Basicamente, eu disse. Passando por vários, inúmeros lugares comuns – heróis cheios de fé em algum código de justiça que sequer ousam pensar em desafiar, raças e mais raças de criaturas praticamente iguais, vilões absolutamente e completamente maldosos e malignos e cruéis – o livro não surpreende de início. Parece mais um dos muitos ecos do que foi J. R. R. Tolkien. Até entrar a Bruxa Vermelha em cena.
Iallanara, a Bruxa Vermelha
          Iallanara – sem dúvida alguma a minha personagem preferida – contém algo difícil de se ver em personagens principais: dois lados opostos guerreando entre si, com profundidade. Mesmo em clássicos como Crônicas de Nárnia, os personagens principais são inerentemente bons, haja o que houver, corrompidos ou não. Com Iallanara, a Bruxa Vermelha, é diferente, pois ela é – pasme – indefinível. Seus sonhos, seu amigo invisível (um detalhe de que realmente gostei), sua sinceridade em relação ao mundo (ela não finge que quer algo bom, ela simplesmente não quer) e sua extrema falta de sinceridade consigo mesma a tornam a personagem mais interessante do livro. E talvez até aqui pareça que ela é a personagem principal, correto?
Galatea Goldshine
          Não. Galatea Goldshine, a princesa devotada, leal e pura, decidida a ser paladina, é a protagonista. O grande problema de Galatea, como algumas outras críticas também apontam, é a sua falta de espontaneidade, seja no comportamento, seja nas escolhas. Isso porque ela jamais escolhe. O seu destino está escrito e ela simplesmente o segue, mesmo que para isso tenha que fazer certa vista grossa a maldades à sua volta. Sempre recebe ajuda, sempre consegue no final, e isso torna o suspense algo um tanto quanto ausente em certos momentos – você sabe que, seja como for, ela vencerá, nem que para isso um deus dragão mais poderoso que tudo tenha que intervir (e acredite, isso acontece). Chega a ser realmente agradável quando Iallanara expõe suas opiniões sobre Galatea, sobre sua suposta coragem, suposta honra.
          Além das duas personagens opostas, há mais alguns outros personagens, que em alguns momentos chegam mesmo a ser interessantes, chegam a chamar a atenção, porém esses momentos não parecem ser muito aproveitados. Mesmo os vilões não tem nenhuma dualidade, nenhuma escolha: são de certa forma iguais a Galatea, pois apenas cumprem seus papéis de matar, pilhar e destruir. Não há confrontos internos, não há como não odiar o vilão. Não fosse por Iallanara, o livro seria inteiramente maniqueísta.

          Quanto ao universo criado, de nome Grinmelken, há pontos muito bons e alguns não tão bons. A engenhosidade de alguns cenários, como a cidade voadora de Lemurian, realmente impressiona: mesmo que de início a ideia pareça bizarra, em pouco tempo faz total sentido dentro das explicações dadas. O primeiro livro se atém a poucos cenários, o que é bom, pois permite que estes sejam mais bem descritos e construídos. A mitologia criada também é muito boa, contendo a ideia central do equilíbrio entre tudo. Porém, em certos momentos há algumas incoerências com esse suposto equilíbrio: a própria vitória absoluta que Galatea tanto almeja não equilibraria as forças. Há de se falar também das magias lançadas por magos, feiticeiros e pela própria Bruxa Vermelha: há uma forte ressonância com magias de alguns sistemas e cenários de RPG. As magias são bem usadas, criando batalhas interessantes, porém o típico “dedo de Deus“ nas situações em que o bem perderia realmente chega a irritar.
O Aspecto de Orgul
          Por fim, um detalhe interessante no livro, que talvez o tenha tornado diferente da vasta maioria para mim: a quantidade grande de cenas mais fortes do que o habitual para o estilo. Noites semelhantes a clássicos de terror, rituais macabros, ou mesmo a presença de torturas em vários momentos, tornam a narrativa mais densa do que se suporia para um livro desse porte. Porém, faltam descrições com mais profundidade – emocional principalmente – na maioria das cenas, o que deixa o sabor de oportunidade desperdiçada em vários momentos.
          Li somente o primeiro livro por enquanto, que segundo o próprio autor foi mais uma experiência que uma tentativa de fato. Levando isso em conta, e considerando ainda que a história nasceu de uma crônica de RPG (que amiúde não segue os padrões de roteiro de um livro comum), Filhos de Galagah é uma ótima estreia. O segundo livro da série, O Senhor das Sombras, contém, segundo críticas, mais profundidade que o primeiro. Quanto ao terceiro e último livro, Enelock, ainda está sendo escrito por Leandro Reis, e deve ser lançado em alguns meses.
          É algo realmente especial conhecer alguém que se empenhou e conseguiu concluir dois livros e está para terminar o terceiro de uma série de fantasia. Sinceramente, já havia desistido de encontrar bons livros de fantasia recentes. Filhos de Galagah não impressiona, mas é uma boa promessa. Esperemos que esta se cumpra, e que assim a série, a história e principalmente o estilo do autor consigam criar fortes raízes para resistir ao calor abrasador do esquecimento.

          Há também um site, que contém contos, trechos dos livros e curiosidades sobre o mundo de Grinmelken. Vale a pena conferir, é uma ótima prévia:


28 de junho de 2010

Ao Anoitecer

Depois de ter apresentado um breve resumo de toda mitologia que envolve os Lobisomens, posto aqui o conto do escritor Claudio A. B. Cavalcanti Jr., sendo retirado na íntegra com prévia autorização de seu blog, que possui como tema recorrente estes Senhores da Noite. 



Ao passar por aquela estradinha de terra, como mandava sua rotina, Helena não se assustava mais ao ver o pobre Juarez, homem tomado pela loucura ao perder sua esposa e filhos a algo onde o mesmo definia como “o mal”. A mulher, que agora se encontrava em um aspecto triste, não tinha mais o velho hábito, assim como outros moradores, de orientá-lo para sua própria casa. Helena já não era a mesma há algum tempo, se notava facilmente pela mudança radical de seus comportamentos, que consequentemente virara motivo de falácias pelas redondezas.

Tem sido assim desde que ela avistou, com seus olhos arregalados, algo fora de sua compreensão, onde só ouviu falar diante das palavras de pessoas que eram constantemente motivos de piadas naquele lugarzinho. Durante meses, em toda madrugada, Helena adotava três companhias:

1-O riffle do marido sustentado entre suas mãos trêmulas;

2-Seu medo diante do desconhecido;

3-Suas lágrimas, que se tornaram suas “amigas” mais frequentes;

Por mais que isso a matasse por dentro, não havia outro jeito, e que por bem ou por mal, era forçada a se submeter à dolorosa espera toda noite, trancada em seu pequeno quarto. A cada hora que se passava, suas dúvidas iam corroendo, sabia que isso acabaria apenas com a chegada do dia. Infelizmente, dependendo da resposta para suas inúmeras perguntas, poderia dar razão a cada vez mais insegurança, e como de costume, ao anoitecer, tudo teria que se repetir.

Esse mesmo tormento vem acontecendo desde que Alberto, seu marido, em certa madrugada, notou grande alvoroço entre seus animais, interferindo em seu sono. Para a horrível surpresa do homem, ao chegar no lugar esperado e pouco iluminado, deu de cara com algo que, segundo ele tentou explicar a esposa, confundia-se com um lobo de tamanho grande, e curiosamente, conseguia ficar em pé de alguma forma, envolta de alguns trapos de roupas em seu corpo. Tinha uma agilidade surpreendente, onde observava seus olhos vermelhos, fazendo um barulho assustador, junto com sua rapidez. O animal, como o próprio antes definia assim, havia feito uma carnificina entre as galinhas, ao perceber sua presença e naturalmente, seu espanto, ainda com a boca tomada por sangue pela refeição interrompida, deu um grande salto em direção ao braço do homem tentando uma mordida para fazê-lo largar a espingarda, parecia entender o perigo que se encontrava. Alberto com o ataque inesperado caiu no chão e por conseqüência, deixou disparar um tiro para o alto, que resultou na fuga do bicho.

Ao passar dos dias, com a mordida devidamente cuidada, mesmo se tratando de algumas horas de estrada até o encontro de um hospital próximo, a figura “daquela coisa” tinha deixado outras marcas. Quando Alberto parava para relembrar o ocorrido, pensava na hipótese de que Helena poderia ter tomado seu lugar naquela madrugada, bom saber que a mulher tem sono pesado, ou ao menos tinha, antes do acontecimento. O casal, com receio de virar piada, assim como outros habitantes daquelas terras, decidiram guardar segredo sobre os detalhes e relataram que foi apenas um animal qualquer que havia lhe dado, como resultado da “visita”, uma faixa no seu braço direito.
A marca da criatura também estava presente na mudança da esposa, assim como todos ao redor comentavam. De uma mulher tão bela e sorridente, atenciosa, sempre com uma palavra amiga, foi substituída para uma imagem melancólica, seu sorriso havia desaparecido como se nunca tivesse feito parte dela, e sua voz que passava paz a quem escutasse, deu lugar ao silêncio. Não parecia se importar mais com seus cuidados estéticos, característica tão presente no comportamento feminino, principalmente quando se tratava de Helena. Tudo isso era conseqüência da metamorfose de Alberto. Ela já observou algumas vezes com a porta entreaberta, apesar do marido, querendo retribuir os mesmos cuidados que recebia dela, avisa-la para trancar-se de forma rigorosa e sempre armada, pois havia descoberto que toda noite: Tornava-se lobisomem.

Tudo parecia mais claro ao sujeito, seus sentidos aguçados, sua habilidade, sua força que consequentemente o ajudava quando encontrava trabalho pesado, eram características do que se transformava, um animal mitológico que ele conhecia apenas por estórias quando criança contadas pelo seu avô ao redor de uma fogueira ou por bêbados e insanos. Para Helena, a visão do seu amado modificando-se veio a calhar, passou a ter mais confiança na arma e sabia que mesmo tendo o risco de atirar em seu próprio marido, não teria outro jeito. Os dois decidiram que seria melhor assim, pois Alberto não sabia, após a transformação, do que era capaz de fazer, principalmente em noites de lua cheia onde percebia que se deixava levar mais pela selvageria. Helena já presenciou em algumas ocasiões a tal ferocidade, mas dessa vez era como se sua raiva fundisse com seu animal interior. As fases da reação nunca sairiam da memória da mulher, seus pêlos começavam a crescer e parecia não ter fim, então Alberto aparentemente, entra em um estado de agonia, rasgando sua camisa diante da força que recebera, as orelhas, assim como suas unhas que virariam garras, cresciam igualmente, da mesma forma era com seu tamanho e sua musculatura, parecia que a fera dentro de si queria adaptar-se ao corpo de seu “dono”. Os gritos de Alberto logo passava a misturar-se com urros, e com seu rosto já modificado para face de um lobo, saia noite afora, como se sua residência fosse um tipo de jaula e pedisse desesperadamente por liberdade.

Helena, mas uma vez, voltava a trancar-se junto com seu pavor. Nessas esperas, diversas vezes já se entregou a nostalgia. Quando não era levada pelo cochilo, lembrava de outros tempos, outra vida antes do terrível acontecimento. Antigamente, apesar das dificuldades, sempre havia um jeitinho de resolver os problemas naturais da vida do jovem casal. Da mesma maneira que encontravam um tipo de “refúgio” durante o dia, pareciam que entravam em transe, como imãs humanos, eram tomados por uma atração sexual inexplicável. Os dois perdiam-se entre os lençóis, como se tomassem uma dose de esquecimento e por alguns minutos, deixassem tudo para trás. Certa vez, Alberto relatara algo preocupante: a lembrança. Os “flashs” em forma animal que ainda permanecia nele correndo entre as matas, entre bichos variados que encontrava pela frente e às vezes, os caçavam diante de uma fome animal. Antes pudesse esquecê-los, mas lembrava, e consequentemente tornaria aquilo ainda pior, pois, segundo o mesmo, diante de seu possível descontrole, não sabia do que seria capaz se encontrasse pelo percurso um morador, e queria esquecer o mais provável, poderia um dia ser Helena, quem sabe. Nunca se conformaria! Como um homem poderia guardar em sua consciência um ato desses? Conviver com um segredo assassino?
Quando além de qualquer outro, poderia ser sua própria mulher, tudo que dava mais importância! Não! Sempre prometia a si mesmo: lutaria com seu animal dominador. Os sítios vizinhos sempre ficaram longe um do outro, ficava na dúvida se realmente era algo positivo, sabendo do risco de sua metamorfose, ao menos alguém poderia ajudar sua esposa e a mesma não estaria tão só, com a esperança voltada em seu riffle, por outro lado:

- A distância ajuda a manter o segredo e atacar aleatoriamente. Confessava. Foi a última coisa que Helena recordou, ao se deixar levar pelo cansaço e novamente, adormeceu. Porém, durou apenas algumas horas para ser alertada com barulhos externos, os animais estavam mais uma vez inquietos e logo depois, sentira que algo adentrou sua casa, mas não sabia muito bem de que cômodo vinha. Espantada e agindo rapidamente, olhou as horas onde marcava quatro e meia da madrugada. Seu corpo gelou rapidamente, seu coração disparou, começou a rezar como se um milagre pudesse acontecer naquele momento, mas as preces não a impediam de pensar:

-Uma noite teria que acontecer, o animal de Alberto sentiria falta de me matar!

Tentou ficar em silêncio, quase imóvel, sabia que o lupino tinha, além dos outros sentidos, uma audição apurada e qualquer barulho sequer, poderia ser sua sentença de morte! Seu minúsculo quarto fechado com a ajuda de cadeados e chaves, não bastaria para a fúria do homem-lobo. Devagarzinho, retirou delicadamente a chave do trinco e tentou avistar algo positivo como resultado de suas orações. Nada, o silêncio tomou conta de repente. Não ousaria sair dali, mesmo armada e trancafiada. Mas seu maior nervosismo se resumia na falta de capacidade de atirar em um animal, sabendo que neste “reside” seu homem. Mal acabou de pensar nesse fato, e a porta foi brutalmente “atacada”! O ser parecia sentir seu medo. Assustada, posicionou a arma como aprendeu, acabaria ali aquela madrugada horrenda, tudo dependia de sua coragem, e diante de sua vida, bastava um dedo no gatilho. O rosnado parecia mais forte a cada batida, podia-se ver os olhos da fera, quase arrancando os cadeados pela extrema força, deixando por consequência uma pequena abertura entre a vista assustada de Helena e o focinho da criatura, mostrando seus dentes cravados na ponta da porta como se pudesse destroçá-la, suas garras arranhando a madeira, mostrando grande irritação por ainda não conseguir entrar.

Olhou por todo o quarto procurando uma esperança, mas não encontrava, estava abandonada a sorte. Ela pôde imaginar sendo devorada pela fera que Alberto se tornara, seus gritos confundindo-se com dor e horror. Até seus pés sentirem algo diferente, uma elevação estranha no chão. O lobisomem já estava conseguindo o que queria, quando Helena, agradecendo aos céus, percebeu onde pisara: na entrada do antigo porão, onde raramente usavam. Parecia ser um sinal de Deus, então, tentou abrir com dificuldade a única solução de seu problema presente. Após entrar, não podia ver nada, estava completamente escuro, como se ficasse cega de uma hora para outra, sentia as teias de aranhas e ouvia acima, os passos do inimigo se retirando do local onde estava. Devido à pressa que exigia a situação, tratou de ir, mesmo na escuridão, ao encontro da saída, daria exatamente por detrás da casa. Tentou seguir um tipo de direção lógica com o tato entre paredes, móveis envelhecidos e tudo que pudesse imaginar, de acordo com o que sentia suas mãos. Saindo do refúgio subterrâneo, ainda não conseguia tranqüilizar-se.
A mudança dos passos não seria mera coincidência, a imagem do descontrole que vira há pouco tempo, não o faria desistir facilmente, comparável a um lobo perseguindo sua caça motivado pelo seu extinto e agilidade. Não demorou muito para a criatura aparecer com seu olhar frio à presa, seu maior desejo. Parecia brincar cruelmente até chegar ao ataque final. Percebeu quando o homem-lobo estava preparando para avançar incentivado pelo auge da caçada. Esperançosa, clamou pelo nome de Alberto, tentando despertar ali, uma imagem sua. Quanto mais ela chorava repetindo as mesmíssimas palavras, desejando no fundo uma misericórdia, a boca de seu amado mostrava cada vez mais seus dentes afiados, seus pêlos das costas estavam armados, acompanhados de um rosnado poderoso. Tentou outra vez usar a arma, não conseguiu, a segurança das balas foi tudo em vão. Então, deixando o riffle cair no gramado, conformada na morte certa, fechou os olhos dando-se por completa, torcendo para que fosse rápido e menos doloroso possível. Para a sua surpresa, de dentro daquele matagal onde fechava praticamente quase todo aquele ambiente, saiu outro lobisomem igualmente feroz. Helena gelou por uma segunda vez, seu cérebro a avisava para correr, mas suas pernas não obedeciam seu comando. Os lupinos digladeavam-se violentamente, e o prêmio do vencedor seria o belo corpo feminino experimentando a fúria que observava paralisada. O “visitante presente” estava intencionado em morder o pescoço do outro, encontrando uma forma mais fácil de matá-lo. Mas, também recebia golpes fortes em seu corpo peludo, impedindo muitas vezes, de revidar. Ambos eram teimosos a fim de resistir à força que recebiam e logo a brutalidade espalhou-se com mordidas por todas as partes. Em questão de segundos o verde do capim desapareceu com o vermelho do sangue, resultado da luta. Até que caíram se distorcendo, fracos, completamente ensangüentados. O amanhecer acabava de chegar e estavam voltando as suas formas humanas. Helena enxergou espantada a modificação de Alberto, justamente o lobisomem que a salvou do outro. O invasor que quase tirou a vida dela estava modificando lentamente para a fisionomia de Juarez. Ambos gravemente feridos e seus corpos já humanos por completos, não resistiriam muito tempo de vida. Juarez tentou falar, algo raro em seu comportamento sofredor. Não dava para entender perfeitamente as palavras, possivelmente um “perdoe-me”, logo depois se rendeu ao sono eterno. Alberto compreendia que seu fim também se aproximava. Se pudesse escolher um jeito de morrer, seria exatamente nos braços de Helena. Olhava para a esposa, apreciando fixamente seus olhos como se fossem duas jóias valiosas, uma pintura rara de encontrar, morreria com aquela imagem onde, como antes, sempre trazia conforto, e foi assim até seu último suspiro de vida. Naquele instante, o sol não apresentava apenas o dia, mas revelava o sacrifício do “lobo” à sua fêmea, provando, mesmo mudado, que nunca se esqueceu da lembrança dela, uma tentativa de manter-se controlado. Helena estava ciente disso e mesmo lhe doendo a alma ter visto o falecimento de Alberto, sabia: o animal e seu homem finalmente encontraram a paz.

22 de junho de 2010

O Ateísta de Fé


Este artigo é uma pequena homenagem a José Saramago, escritor, argumentista, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta, que morreu recentemente, é certo que a literatura perde muito, em especial a portuguesa.

José de Sousa Saramago nasceu na vila de Azinhaga, no concelho da Golegã, em 16 de novembro de 1922, em uma família de agricultores. Passou grande parte de sua vida em Lisboa, para onde a família se mudou em 1924.
Não cursou a universidade devido as dificuldades financeiras de sua família, mas mesmo assim Saramago demonstra desde cedo interesse pela cultura e estudos. Formou-se em uma escola técnica, sendo seu primeiro emprego serralheiro mecânico. Contudo, fascinado por livros, durante a noite visitava a Biblioteca Municipal Central - Palácio Galveias com frequência.
Aos 25 anos de idade publica "Terra do Pecado (1947)", seu primeiro romance. Após este primeiro, apresentou ao seu editor, tempos depois o livro "Clarabóia", que depois de rejeitado, permanece inédito até a data de hoje.
Não deixando a literatura, Saramago após 19 anos lança "Os poemas Possíveis". Em um espaço de 5 anos, publica, sem grandes alardes, mais 2 livros de poesia: "Provavelmente Alegria (1970) e O Ano de 1993 (1975). Trabalhando até está época no Editorial Estudos Cor muda para Diário de Notícias, e depois para o Diário de Lisboa.
Em 1975 retorna ao Diário de Notícias como Diretor - Adjunto, onde fica por 10 meses até o dia 25 de novembro do mesmo ano, quando militares portugueses intervêm na publicação, desta forma Saramago passa a dedicar-se somente a literatura.
Remanescentes da fase jornalista de Saramago são quatro crônicas: Deste Mundo e do Outro (1971), A Bagagem do Viajante (1973), As Opiniões que o DL Teve (1974) e Os Apontamentos (1976).
Após três décadas da publicação de seu primeiro romance, Saramago retorna com "Manual de Pintura e Caligrafia", porém não foi neste livro em que pode-se definir seu estilo, que só viria a aparecer em "Levantado do Chão (1980)".
Dois anos depois lança "Memorial do Convento", onde finalmente atinge destaque. Entre 1980 e 1991 o autor lançou mais 4 romances que misturam realidade e interpretação do fato oficial: "Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)", "A Jangada de Pedra (1986)", "História do Cerco de Lisboa (1989)" e "O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991)", sendo está última sua obra mais controversa.
De 1995 a 2005, publicou mais 6 romances, onde inaugura um nova fase em seus enredos, onde a história se desenrola mais em locais ou épocas determinados do que em personagens: "Ensaio Sobre a Cegueira (1995)", "Todos os Nomes (1997)", "A Caverna (2001)", "O Homem Duplicado (2002)", "Ensaio Sobre a Lucidez (2004)" e " As Intermitências da Morte (2005)".

De entre as premiações destacam-se o Prêmio Camões (1995) - distinção máxima oferecida aos escritores de língua portuguesa; o Nobel de Literatura (1998) - o primeiro concedido a um escritor de língua portuguesa.

No fim Saramago olha para a humanidade condenada a uma breve existência, recheada de questionamentos, de virtudes e principalmente de vícios. Como escritor e crítico, ele se torna um espelho sincero.

Saramago morreu em sua casa, em Lanzarote, no dia 18 de junho de 2010, aos 87 anos de idade vítima de leucemia crônica. Seu funeral teve Honras de Estado, e seu corpo foi cremado.


Obras:

Romances: Terra do Pecado, 1947 - Manual de Pintura e Caligrafia, 1977 - Levantado do Chão, 1980 -Memorial do Convento, 1982 -
O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984 - A Jangada de Pedra, 1986 - História do Cerco de Lisboa, 1989 - O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991 - Ensaio Sobre a Cegueira, 1995 - Todos os Nomes, 1997 - A Caverna, 2000 - O Homem Duplicado, 2002 -
Ensaio Sobre a Lucidez, 2004 - As Intermitências da Morte, 2005 - A Viagem do Elefante, 2008 - Caim, 2009.

Peças teatrais: A Noite - Que Farei com Este Livro? - A Segunda Vida de Francisco de Assis - In Nomine Dei - Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido.

Contos: Objecto Quase, 1978 - Poética dos Cinco Sentidos - O Ouvido, 1979 - O Conto da Ilha Desconhecida, 1997.

Poemas: Os Poemas Possíveis, 1966 - Provavelmente Alegria, 1970 - O Ano de 1993, 1975.

Crônicas: Deste Mundo e do Outro, 1971 - A Bagagem do Viajante, 1973 - As Opiniões que o DL Teve, 1974 - Os Apontamentos, 1977.

Diário e Memórias: Cadernos de Lanzarote (I-V), 1994 - As Pequenas Memórias, 2006.

Viagens: Viagem a Portugal, 1981.

Infantil: A Maior Flor do Mundo, 2001







Links Interessantes:



Neste Blog: Caim.


Fonte: Wikipédia 

28 de março de 2010

Silêncio

Era tarde. Era fácil deduzir isso mesmo deitada na cama, pensando, e pensando ela se perdia nas sombras definidas e marcadas nas paredes pela pequena lâmpada acesa. Era fácil saber que as horas já corriam apressadas, e saber que o tempo para terminar aquela última cópia estava caminhando para o fim. O frio dizia, o frio que acompanhava a noite e o silêncio. Mas talvez as janelas dos prédios vizinhos pudessem confirmar.

Era mesmo tarde. As janelas estavam todas apagadas, o sono leve/pesado de desconhecidos já se arrastava por elas, algumas vezes escorria das janelas abertas, levando consigo cortinas finas de seda, outras vezes se debatia em vidros cerrados. O sono de todos, os sonhos de todos, juntos num uníssono silencioso, tão desagradável por acentuar o sabor amargo dos pensamentos. Ela pensava, e era obrigada a isso por aquele silêncio abissal. Mais duas pautas, e estaria terminada aquela cópia irritante pedida no dia anterior na gráfica, e então a copista poderia se refugiar no seu também silencioso sono, mas os pensamentos a impediam de marcar as notas corretas nas linhas. A noite deslizava calmamente pelo quarto, as janelas estavam ainda todas apagadas, mas uma havia se acendido, naquele apartamento do outro lado da rua que ela tão bem conhecia.

E naquela janela, a cena que ela já decorara se repetiu: um homem vestido de solidão e cansaço andava relutante pelo quarto com folhas de papel rabiscadas, e então se sentava diante de um piano velho preto de parede, e passava horas com as mãos ora nas teclas, ora na caneta sobre o papel. Mais uma vez a copista abria a sua própria janela esperando os sons do piano, e só o silêncio banhava sua face carregado pelo vento frio, e a deixava novamente sozinha com seus pensamentos.

De solavanco ela acordava, assim, todos os dias, porque dormia profundamente, e porque quase sempre as horas haviam corrido rápido demais. E então ela corria para o térreo, e entrava na gráfica, e esperava que aquele que pediu a última cópia viesse, e ela assim poderia ficar livre para sentir a velocidade das pessoas pela gráfica. Era simplesmente adorável ver crianças batendo nas prateleiras querendo esse ou aquele quadro, ver que as pessoas olhavam quase sempre as mesmas coisas, e aquilo que era ignorado por um, ela sabia, seria ignorado por todos, e ficaria sozinho acumulando pó em alguma prateleira, até que ela ou outro alguém fosse até lá e com prazer eliminasse o desnecessário. Ela se deliciava em ouvir o barulho das pessoas esbarrando nos quadros, nas amostras, nos vidros, e ainda mais quando algum cliente tamborilava sobre o balcão. A confusão de sons se espalhava por todas as paredes, e ela amava isso.

Em algum momento, porém, sempre vinha aquela lufada de vazio, e eliminava o barulho. Ainda bem, claro, que sempre alguém se preocupava seriamente com isso e então o rádio era acordado para despejar músicas e notícias e anúncios e discussões. Isso evitava que o tempo demorasse para andar, evitava que ela olhasse em volta e visse onde estava, que ela olhasse para fora e visse onde não estava.

Mas de tempos em tempos, ela sabia, alguém trazia o silêncio consigo. E era sempre o mesmo alguém, que ela conhecia das janelas noturnas, o mesmo homem, o pianista, com algumas ou várias folhas de papel rabiscadas e borradas de nanquim, o que contorcia o rosto quando alguém derrubava uma pilha de papel, ou quebrava um quadro, ou uma criança insatisfeita gritava sua insatisfação. E ela já sabia que ele desviaria cuidadoso de todos, até chegar ao seu balcão e pedir duas cópias profissionais de seus rascunhos. Ela já previa inclusive várias noites lentas, debruçada sobre o papel, transformando os rabiscos nos pentagramas improvisados em verdadeiras partituras, finas, delicadas e sem borrões. E quando ele ia embora, finalmente o barulho de tudo voltava.

A copista passava assim o dia inteiro na gráfica, admirando e escutando, afinal poucos vinham realmente pedir os seus serviços. Gostava especialmente do fim da tarde, quando ela já tinha certeza de que ninguém precisaria dela, e ela se recostava na parede da frente da gráfica, e o barulho dos clientes e o barulho da rua eram um só. Ela se divertia com aqueles que gritavam das janelas, ria por ver as mesmas janelas, agora iluminadas por um sol de fim de tarde meio empoeirado. E tantas pessoas, tanta gente passava correndo pela calçada, uma bicicleta esbarrava em alguém, e todo aquele volume de outrem, de alheios a tudo, que atravessava as ruas de minutos em minutos, quando então os semáforos davam a vez aos carros e ônibus e caminhões, e mais mil sons então a envolviam, e era difícil perceber que a tarde já tinha virado noite.

A noite, aliás, trazia mais multidões. A copista ia ao bairro vizinho, passeava por lojas abarrotadas, comia algo em algum lugar, ia ao fantástico cinema onde podia ver vidas inexistentes se acabando em meio aos tiros e gritos, ou essas mesmas vidas esperando um pouco de carinho e atenção em seus universos pequenos, e como era bom ver os créditos e saber que aquilo existia apenas na tela. Ou talvez ela ia ao teatro, e adorava quando alguém tossia, ou comia ruidosamente uma pipoca, ou – o mais emocionante! – jogava uma pipoca no palco, e ela ria um riso solto junto com todos. Ou talvez ela ia a algum show, e gritava até não haver voz, ou então dançava tanto, tanto, e se cansava, e então voltava para sua rua, seu prédio, e entrava desejando seu quarto e sua cama.

Naturalmente a cama estava distante, porque sempre faltava alguma cópia para ser feita, e ela passaria horas no quarto escuro, iluminado apenas pela lâmpada da sua mesa. E em algum momento, só para confirmar o que o frio sussurrava, ela olharia para as janelas dos outros prédios e veria que a noite avançara, e seu olhar tropeçaria na única janela iluminada, onde o pianista tocava incessantemente seu piano, e ainda mais uma vez ela abriria a janela esperando ouvir as notas, e só o silêncio a receberia do lado de fora. Do lado de dentro, porém, ela sabia que seus pensamentos a esperavam, sentados na beirada da mesa, ou no pé de sua cadeira, ou nas paredes, ou mesmo depois, no seu travesseiro. E lhe perguntariam os motivos, por que ela não conseguia ouvir o que o pianista tocava, e por que ela olhava para lá mesmo sabendo que não viria nenhum som daquela janela, por que ela reparava cuidadosamente no pote de nanquim sobre o piano, nas folhas espalhadas, e por que afinal o pianista haveria de querer tocar durante a noite. E nessa batalha ela permanecia, até que o sono vencesse.

E a semana passava, e então vinha o domingo. A copista acordava de um pulo, vestia sua elegância de meio-dia e corria para a praça central, onde ela sabia que centenas de pessoas se amontoariam para ver exposições de algum artista desconhecido, passando pelos quadros ou fotografias ou esculturas rindo e conversando – pois afinal todas aquelas cores confusas, aquelas fotos monocromáticas ou estátuas tortas não faziam o menor sentido. Ou então, o que ela mais gostava, algum grupo tocava alguma música conhecida, e todos batiam freneticamente suas fotos e iluminavam com seus flashes cada pedacinho do espaço em que os músicos se amontoavam, e ela mesma tinha a oportunidade de pedir algum autógrafo. E pela tarde inteira ela poderia andar pela multidão, de sons, de sabores, de pessoas. E até à noite, quando ela poderia ouvir de algum rádio ou televisão alguma música repetidas, e várias, e muitas vezes.

E mesmo quando se acabassem as opções, sempre havia um filme policial para ver, alguma perseguição de carros, algum apresentador gritando sobre a mais recente notícia, até que o sono crescesse e se tornasse maior que tudo, e a arrastasse para a cama. E era fácil dormir, sem pensamentos para debater.

Mas quando não era domingo, ah as noites eram pesadas. E, de fato, quase sempre ela pensava nos porquês do pianista. Afinal a luz daquela janela desenhava uma sombra por metade de seu quarto, e mesmo que ela fechasse a cortina, a luz ainda daria um jeito de chegar às suas paredes. Ela refletia, cada vez mais, se o pianista realmente dormia. Se em algum momento, além de quando ia até a gráfica, ele se deitava e apagava sua luz. Talvez ele dormisse durante o dia, mas esse era um pensamento que ela tinha apenas pouco antes de dormir, porque afinal não fazia o menor sentido perder o dia dormindo, perder toda a velocidade das coisas que o dia trazia.

Certa vez, porém, ela notou que o pianista demorou para aparecer. Isso porque ele sempre voltava até a gráfica a cada semana, ou duas no máximo, mas já fazia um mês que ele não vinha até o balcão da copista com folhas rabiscadas. Da frente da gráfica ela tentou encontrar a janela do pianista, entre tantas abertas e com tantas pessoas, mas não conseguiu. Afinal eram todas iguais, e ela só identificava aquela janela pela luz solitária, que naturalmente estava apagada durante o dia. À noite ela contou as janelas, e marcou num papel o lugar exato da janela do pianista, mas mesmo assim ainda tinha dúvidas. Afinal eram todas iguais.

E enquanto ela se perdia na visão das janelas, parada em frente à gráfica, um folheto tropeçou no poste em frente, um anúncio de um concerto de piano para o domingo daquela semana, para o dia seguinte. A copista observou animada que vários músicos participariam, mas se lembrou com pesar que o pianista era uma incógnita para ela, sem nome, sem qualquer identidade. De volta ao seu balcão, já esperando o final do dia, ela viu quando o pianista entrou na gráfica com várias folhas, e cuidadosamente passou pela multidão até ela, e entregou mais um rascunho para ser copiado pelas mãos da copista. Só que dessa vez, era urgente, era preciso que estivesse pronto até a manhã do dia seguinte, quando ele viria pegar sua partitura pronta. O pianista até chegou a perguntar se ela iria ao concerto, chegou a dizer alguma coisa além do necessário. E dessa vez, ela observou, seus olhos pareciam mais fundos do que o habitual, e suas unhas pareciam mais manchadas de nanquim do que nunca.

Com o máximo de velocidade que podia, ela copiou o rascunho pela noite inteira. Mesmo quando os pensamentos vieram conversar, ela continuou, e mesmo quando eles elevaram a voz e correram pelo quarto e gritaram, ela continuou. Era urgente, afinal, e o silêncio aterrador não a intimidaria, as janelas não a atrairiam, ela não olharia para a única janela iluminada. E mesmo quando a fome se juntou aos pensamentos, e quando o sono se recostou na sua cadeira e pesou sobre seus ombros, ela continuou.

Os rabiscos estavam especialmente borrados dessa vez. Ela se demorou em vários trechos, tentando distinguir o que cada traço significava em meio às manchas de nanquim, e afinal o que era traço, e o que era mancha. Havia muitos detalhes, e muitos pianíssimos e fortíssimos, e crescendos e diminuendos que ela teria que transcrever com cuidado. Pauta por pauta, página por página, folha por folha, ela copiava o que parecia ser intenso demais para caber nas mãos de alguém, e assim teria o pianista borrado cada compasso por não suportar em seus dedos o peso de tanta intensidade. Horas, e horas, e horas, e cada página foi terminada como devia, até que os pássaros anunciavam o que ela suspeitava: a noite havia ido embora.

Descendo devagar, ela chegou até a gráfica, destrancou a porta, se recostou no balcão e esperou. A manhã passou, os pequenos pássaros que haviam lhe anunciado a manhã agora brigavam na calçada por um pedaço de pão, enquanto mais à frente alguém deitado em outra calçada olhava o mesmo pedaço de pão. As pessoas andavam, os carros passavam, mais sons vinham, e ela sabia que o domingo estava andando por aí sem que ela o acompanhasse. Ela olhava para os prédios do outro lado da rua, esperando que o pianista surgisse, e nada. Sonolenta, tentou encontrar novamente aquela janela solitariamente iluminada, e talvez num delírio de semi-sonho, talvez num lapso de consciência entre um rápido fechar de olhos, ela a encontrou. Estava lá, e como poderia não estar, como ela não havia ainda percebido? Estava lá, tão rara e única e diferente das outras. E ele afinal não vinha.

Até que o sono fez com que os sons de que ela tanto gostava se afastassem, e deixou que um pensamento se aproximasse e se apossasse de sua consciência. A copista pensou que afinal o pianista não viria, e que ela acabaria por perder o domingo. E o concerto! havia ainda o concerto para ir, e ela o perderia se ficasse esperando o pianista. Por que então ter que esperá-lo? Por que não deixar sua partitura guardada, e entregar depois? Ou melhor – e isso ela pensou quando de relance seus olhos voltaram àquela janela – por que não entregar no próprio apartamento do pianista? Ela despertou de seu semi-sono e decidiu ir até lá, e entregar e se livrar enfim da partitura. Atravessou a pequena multidão das calçadas, e a rua molhada pelo sereno da manhã, e entrou no prédio onde ficava aquela janela. Subiu até o andar, supôs que uma das portas era afinal a correta, e bateu. Ao menos uma vez ela bateu, aliás, pois enfim a porta rangeu, e abriu espaço.

Pela porta semi-aberta ela viu um apartamento qualquer, como qualquer outro, não fosse pela presença pesada e enorme de um piano preto próximo à janela. Sem nenhum ruído vindo de qualquer lugar, ela percebeu que o pianista não estava ali. Decidiu entrar, mas onde deixar a partitura? Não havia mesa, apenas cadeiras, uma cama no outro quarto e um piano à janela. Admirando a janela, dessa vez de seu interior, ela se aproximou do parapeito, sem reparar numa dobra do tapete em frente ao piano. Num tropeço, suas mãos caíram sobre as teclas desprotegidas, e ela esperou um forte barulho que revelaria sua invasão, mas apenas o som das próprias teclas batendo ressoou pelo quarto. Nenhuma nota, nenhum som de piano, nada. No silêncio, um pensamento a sacudiu, e ela ergueu com cuidado o tampo do piano. O susto a fez esbarrar no pequeno pote de nanquim, e sujar de preto a borda de sua manga. Não havia cordas. Aquele piano não poderia jamais emitir qualquer nota, dele jamais poderia vir alguma música, aquele era um piano morto.

Depois de deixar a partitura sobre o piano, e tentar sem sucesso limpar a sujeira em sua roupa, a copista correu até a praça central, pois o concerto já estava para começar. Irritada, assustada – e abaixo de tudo isso, cansada – ela se sentou numa das cadeiras postas em volta do coreto e esperou. Uma apresentação, outra, e ela pôde enfim conversar bastante com alguém. As pessoas ouviram rapidamente quando foi anunciada mais uma atração, e ela continuou sua animada conversa, até que se passassem mais algumas apresentações. Finalmente ela estava em meio à profusão de sons de que tanto gostava, sons de todos os tipos: conversas, risos, choros de crianças pequenas, pessoas e suas pipocas, e abaixo de tudo isso uma música agradável. Vieram então as apresentações autorais, e cada pianista apresentou sua própria música. A copista ficou maravilhada quando percebeu que as músicas eram como uma extensão daqueles muitos sons, eram como uma imitação de todos os ruídos possíveis, uma combinação de tudo, perfeitamente igual à confusão nas calçadas, nas ruas e na gráfica. Ela chegou a parar a conversa para ouvir, afinal aquela música já preenchia totalmente seus sentidos e não deixava espaço nenhum para algum pensamento atormentador, e isso a alegrava.

E então foi anunciada a última atração. Assustada, a copista viu o pianista surgir da multidão de pessoas sentadas, subir a pequena escada do coreto e se sentar em frente ao piano longo de cauda. E o silêncio que ela conhecia e temia, que o pianista sabia de alguma maneira trazer sempre consigo, se espalhou pela praça central da cidade. Ele estava, ela observou, sem nenhuma partitura, sem nenhum guia para a música que iria tocar, e então afinal para que a urgência na transcrição de seus rascunhos? Mas afinal o que ele poderia tocar, aquele homem que tocava e treinava noites e noites num piano sem som? Afinal que música poderia nascer de teclas e dedos que não criavam nenhum som?

O pianista começou, e ela ouviu cada nota e cada arpejo com uma atenção singular. Cada pensamento pôde se acomodar à sua frente, e suas idéias dançaram uma dança lenta que fazia surgir um sentido diferente para os sons que o pianista espalhava pela multidão. Cada ruído de conversa, ou de choro, ou de qualquer outra coisa foi aos poucos, timidamente, se afastando de seus ouvidos e se sentando quieto em seu devido lugar, mesmo que seus olhos vissem a mesma multidão agitada. Aquela música, como ela sabia, seria longa, mas o tempo pareceu não voar ou ficar parado, mas simplesmente não existir enquanto o pianista oscilava entre rubatos, doces trinados e violentos graves repentinos. Seus sentidos simplesmente não existiam, enquanto cada nota a enlevava em uma canção que parecia ser o universo inteiro.

E quando, depois de um tempo que ela não percebeu, o pianista terminou de tocar, e a multidão deu seus aplausos desinteressados, ela tentou aplaudir, mas não conseguiu. Ficou parada em sua cadeira, enquanto o pianista se erguia, descia do coreto e ia em sua direção. Afinal um lapso de consciência a levantou, e ela esperou sem entender que ele se aproximasse. Num cumprimento, o pianista olhou de relance para a manga suja de nanquim da copista, e então perguntou se a partitura estava pronta. Ela explicou timidamente que havia entregue no seu próprio apartamento, que enfim tinha encontrado a porta aberta e entrado, e que a partitura estaria em cima do piano. Porém, o silêncio que o pianista sempre carregava consigo trouxe violentamente um pensamento, um impulso de curiosidade.

– Por que o piano não tem cordas? – ela perguntou, sem conseguir agarrar as palavras antes que elas pulassem de sua boca.

– O silêncio é mais interessante.

– Mas como você pôde escrever aquela música em um piano sem som? Eu duvido que todos os outros que se apresentaram hoje tenham escrito suas músicas em instrumentos mudos!

O pianista virou o rosto para o lado, e a copista pode entrever um pequeno sorriso num rosto só e cansado, os mesmos olhos fundos, e o mesmo silêncio que sobrepujava tudo.

– Todos eles ouvem apenas o barulho, apenas o barulho ensurdecedor. Eles não aprenderam de onde vem a verdadeira música, não aprenderam a escutá-la, e por isso imitam o que podem apenas ouvir. Todos eles precisam ouvir suas músicas, porque ela não está verdadeiramente dentro deles mesmos. Porém eu, eu não posso ouvir minha música até que ela termine, pois não há som algum que possa traduzir o som que eu escuto dentro de mim, que eu escuto gritando no silêncio.

E a copista observou, parada, enquanto o pianista ia embora cuidadosamente desviando da multidão, e como as pessoas pareciam fazer barulho, e ela notou que já não escutava esse barulho. Ao seu lado, aos seus pés, seus pensamentos a puxavam pela mão para irem de volta para casa.

27 de fevereiro de 2010

A Morte Amorosa


La morte amoureuse (1836) - Théophile Gautier

Você me pergunta, irmão, se amei; sim. É uma história singular e terrível, e embora eu tenha sessenta e seis anos, mal me atrevo a remexer as cinzas dessa lembrança. Não quero lhe recusar nada, mas não faria um relato desses a uma alma menos sofrida. São fatos tão estranhos que não consigo acreditar que tenham me acontecido. Durante mais de três anos fui o joguete de uma ilusão singular e diabólica. Eu, pobre pároco de aldeia, levei em sonho todas as noites (queira Deus que seja um sonho!) uma vida de alma danada, uma vida de mundano e de Sardanapalo. Um só olhar cheio de condescendência lançado para uma mulher por pouco não causou a perda de minha alma; mas, afinal, com a ajuda de Deus e de meu santo padroeiro, consegui expulsar o espírito maligno que se apoderara de mim.

Minha existência tinha se enredado nessa existência noturna totalmente diferente. De dia, eu era um padre do Senhor, casto, ocupado com as preces e as coisas santas; de noite, mal fechava os olhos, tornava-me um jovem nobre, fino conhecedor de mulheres, cães e cavalos, jogando dados, bebendo e blasfemando; e quando, no raiar da aurora, eu despertava, parecia-me que, inversamente, eu adormecia e sonhava que era padre. Dessa vida sonâmbula restaram-me lembranças de objetos e palavras contra as quais não consigo me defender, e, embora nunca tenha ido além dos muros de meu presbitério, quem me ouvisse diria que eu era um homem que provou de tudo e deu as costas para o mundo, entrou para a religião e quer terminar no seio de Deus, enterrando os dias agitados demais, e não um humilde seminarista que envelheceu numa paróquia ignorada, no fundo de um bosque e sem nenhuma relação com as coisas do século.

Sim, amei como ninguém no mundo amou, com um amor insensato e furioso, tão violento que estou espantado por não ter feito meu coração explodir. Ah!, que noites! Que noites!

Desde minha mais tenra infância sentia que minha vocação era para ser padre; assim, todos os meus estudos foram dirigidos nesse sentido, e minha vida, até vinte e quatro anos, não passou de um longo noviciado. Quando terminei minha teologia, passei sucessivamente por todas as ordens menores, e meus superiores me julgaram digno, apesar de minha juventude, de transpor o último e temível degrau. O dia de minha ordenação foi marcado para a semana da Páscoa.

Eu nunca tinha visto o mundo; o mundo para mim era o recinto do colégio e do seminário. Sabia vagamente que havia alguma coisa que se chamava mulher, mas não fixava meu pensamento nisso; era de uma perfeita inocência.

Via apenas minha mãe velha e doente, duas vezes por ano. Eram essas todas as minhas relações com o mundo exterior. Não me queixava de nada, não sentia a menor hesitação diante daquele engajamento irrevogável; estava cheio de alegria e de impaciência. Nunca um jovem noivo havia contado as horas com ardor mais febril; eu não dormia, sonhava que estava dizendo a missa; ser padre, para mim não havia mais nada tão belo no mundo: eu teria recusado ser rei ou poeta.

Minha ambição não concebia nada mais além. O que digo aqui é para lhe mostrar a que ponto o que aconteceu comigo não devia acontecer, e de que fascinação inexplicável fui vítima. Quando chegou o grande dia,andei até a igreja com um passo tão leve que me parecia estar sendo sustentado no ar ou ter asas nos ombros. Eu me julgava um anjo, e espantava-me a fisionomia fechada e preocupada de meus colegas, pois éramos muitos. Eu tinha passado anoite em orações, sentia-me num estado que quase beirava o êxtase. O bispo,venerável ancião, me parecia Deus-Pai debruçado sobre sua eternidade, e eu via o céu através das abóbadas do templo.Você conhece os detalhes dessa cerimônia: a bênção, a comunhão das duas espécies, a unção da palma das mãos com o óleo dos catecúmenos, e finalmente o santo sacrifício oferecido em conjunto com o bispo.

Não vou me demorar nisso. Ah! Como Jó tem razão! E como é imprudente aquele que não faz um pacto com os próprios olhos! Levantei por acaso a cabeça, que até então mantinha inclinada, e vi na minha frente,tão perto que eu poderia tocá-la, embora na realidade ela estivesse a uma grande distância e do outro lado da balaustrada, uma moça de uma beleza rara e vestida com a magnificência dos reis. Foi como se escamas estivessem caindo de minhas pupilas. Tive a sensação de um cego que subitamente recuperasse a visão. O bispo, tão deslumbrante ainda havia pouco, apagou-se de repente, os círios empalideceram em seus candelabros de ouro como as estrelas de manhã, e em toda a igreja fez-se uma completa escuridão. A criatura encantadora se destacava contra aquele fundo de sombra como uma revelação angélica; parecia iluminada por si mesma, para criar a luz, mais do que para recebê-la. Baixei as pálpebras, bem decidido a não mais erguê-las e me desviar da influência dos objetos exteriores, pois a distração me invadia cada vez mais, e eu sabia vagamente o que estava fazendo.Um minuto depois, reabri os olhos, pois através de meus cílios eu a via resplandecente como as cores de um prisma, e numa penumbra púrpura como quando se olha para o sol.

Ah, como era bonita! Os maiores pintores, quando, perseguindo no céu a beleza ideal, trouxeram para a terra o divino retrato da Madona, nem chegaram perto daquela fabulosa realidade. Nem os versos do poeta nem a palheta do pintor conseguem dar uma idéia. Era bastante alta, com um corpo e um porte de deusa; seus cabelos, de um louro suave, se separavam no alto da cabeça e escorriam sobre as têmporas como dois rios de ouro; parecia uma rainha com seu diadema; sua fronte, de uma brancura azulada e transparente, estendia-se larga e serena sobre as arcadas de dois cenhos quase marrons, singularidade que realçava mais ainda o efeito das pupilas verde mar de uma vivacidade e um brilho insuportáveis. Que olhos! Como um raio,decidiram o destino de um homem; tinham uma vida, uma limpidez, um ardor, a humanidade brilhante que eu nunca tinha visto num olho humano; dali escapavam raios parecidos com flechas e que eu via nitidamente atingirem meu coração. Não sei se a chama que os iluminava vinha do céu ou do inferno, mas com toda a certeza vinha de um ou outro. Aquela mulher era um anjo ou um demônio, e talvez os dois;certamente não saía do flanco de Eva, a mãe comum. Dentes da mais bela cor de pérola do Oriente cintilavam em seu sorriso vermelho, e pequenas covinhas se abriam a cada inflexão da boca no cetim rosa de suas faces adoráveis. Quanto ao nariz, era de uma fineza e de um orgulho imperiais, e indicava a mais nobre origem.O reflexo brilhante das ágatas brincava sobre a pele lisa e acetinada de seus ombros seminus, e fileiras de grandes pérolas claras, de um tom quase semelhante ao de seu pescoço, desciam sobre o colo. De vez em quando ela mexia a cabeça com um movimento ondulante de cobra ou de pavão que estufa o peito, o que conferia um leve arrepio à gola alta, plissada e bordada que a envolvia como uma treliça de prata.Usava um vestido de veludo nacarado, e de suas largas mangas forradas de arminho saíam mãos patrícias de uma delicadeza infinita, com dedos compridos e redondos, e de uma transparência tão ideal que deixavam passar o dia como os da aurora.

Todos esses detalhes ainda me são tão presentes como se datassem de ontem, e,embora eu estivesse extremamente perturbado, nada me escapava: a mais leve nuance, a pintinha preta no canto do queixo, a imperceptível penugem nas comissuras dos lábios, o aveludado da testa, a sombra fremente dos cílios sobrefaces, eu captava tudo com espantosa lucidez.À medida que olhava para ela, sentia se abrirem em mim portas que até então estavam fechadas; desentupiam-se os respiradouros obstruídos de todos os sentidos, deixando entrever perspectivas desconhecidas; a vida me aparecia sob um aspecto totalmente novo; eu acabava de nascer para uma nova ordem de idéias. Uma angústia horrorosa torturava meu coração; cada minuto que passava parecia me um segundo e um século.Enquanto isso, a cerimônia prosseguia, e eu tinha sido levado para bem longe do mundo, cuja entrada era assediada furiosamente por meus desejos nascentes.

No entanto, disse sim quando queria dizer não, quando tudo em mim se revoltava e protestava contra a violência que minha língua fazia à minha alma: uma força oculta me arrancava as palavras da garganta, contra a minha vontade. Talvez seja isso que faça com que tantas moças caminhem para o altar com a firme resolução de recusar fragorosamente o esposo que lhe impõem, e que nem uma única execute seu projeto. Sem dúvida é isso que faz com que tantas pobres noviças tomem o véu,embora bem decididas a rasgá-lo no momento de pronunciar os votos. Ninguém se atreve a causar tal escândalo diante de todos nem enganar a expectativa de tantas pessoas; todas essas vontades, todos esses olhares parecem pesar sobre você como uma chapa de chumbo; e, além disso, as medidas foram tão bem tomadas,tudo está de antemão tão bem-arrumado, de um modo tão evidentemente irrevogável, que o pensamento cede ao peso dos fatos e se prostra por completo.

O olhar da bela desconhecida mudava de expressão à medida que a cerimônia ia avançando. De início meigo e carinhoso, assumiu um ar de desdém e descontentamento como por não ter sido compreendido.Fiz um esforço suficiente para arrancar uma montanha, para exclamar que não queria ser padre; mas não consegui dizê-lo; minha língua ficava colada no céu da boca, e para mim foi impossível traduzir minha vontade pelo mais leve movimento negativo. Perfeitamente desperto, sentia-me num estado semelhante ao do pesadelo, quando queremos gritar uma palavra da qual depende nossa vida, e não conseguimos.Ela pareceu sensível ao martírio que eu estava enfrentando e, como para me encorajar, lançou-me um olhar cheio de divinas promessas. Seus olhos eram um poema cujos cantos correspondiam a cada olhar.

Dizia-me:"Se queres ser meu, te farei mais feliz que o próprio Deus no seu paraíso; os anjos te invejarão. Rasga essa fúnebre mortalha com que vais te envolver; sou a beleza, sou a juventude, sou a vida; vem a mim, seremos o amor. O que Jeová poderia oferecer-te como compensação? Nossa existência transcorrerá como um sonho e será nada mais do que um beijo eterno. "Derrama o vinho desse cálice e estarás livre. Eu te levarei para ilhas desconhecidas; dormirás sobre meu colo, num leito de ouro maciço e sob um pavilhão de prata; pois te amo e quero tirar-te de teu Deus, diante de quem tantos nobres corações vertem vagas de amor que não chegam até ele." Eu tinha a impressão de ouvir essas palavras num ritmo de infinita doçura, pois seu olhar era quase sonoro, e as frases que seus olhos me enviavam ressoavam no fundo de meu coração como se uma boca invisível as tivesse soprado em minha alma. Sentia-me pronto para renunciar a Deus, e no entanto meu coração cumpria mecanicamente as formalidades da cerimônia.

A beldade fitou-me pela segunda vez, num olhar tão suplicante, tão desesperado, que lâminas afiadas trespassaram meu coração, e senti mais gládios no peito do que a mãe das dores. Estava feito; eu era padre. Jamais uma fisionomia humana retratou uma angústia tão pungente; a moça que vê seu noivo cair morto subitamente a seu lado, a mãe perto do berço de seu filho, vazio, Eva sentada na soleira da porta do paraíso, o avarento que encontra uma pedra no lugar de seu tesouro, o poeta que deixou rolar no fogo o manuscrito único de sua mais bela obra, não têm uma fisionomia tão arrasada e mais inconsolável. O sangue abandonou de todo sua figura encantadora, e ela ficou de uma brancura de mármore; seus lindos braços caíram ao longo do corpo, como se os músculos tivessem se soldado, e ela se encostou numa pilastra, pois as pernas fraquejavam e escapuliam sob seu corpo.

Quanto a mim, lívido, a testa coberta de um suor mais sangrento que o do Calvário, dirigi-me cambaleando para a porta da igreja; eu sufocava; as abóbadas se achatavam sobre meus ombros, tinha a impressão de que minha cabeça sustentava sozinha todo o peso da cúpula. Quando ia transpor a soleira, abruptamente a mão de alguém pegou a minha; a mão de uma mulher! Eu nunca tinha tocado numa. Era fria como a pele de uma serpente,e deixou-me a marca escaldante como a de um ferro em brasa. Era ela. "Ai de ti! Ai de ti! Que fizeste?", disse-me em voz baixa; depois desapareceu na multidão.

Passou o velho bispo; olhou-me com ar severo. Eu estava com o mais estranho aspecto do mundo; empalidecia, enrubescia, tinha vertigens. Um de meus colegas teve pena de mim, pegou-me e me levou; eu teria sido incapaz de encontrar sozinho o caminho do seminário. Na esquina de uma rua, enquanto o jovem padre virava a cabeça para o outro lado, um pajem negro, estranhamente vestido, aproximou-se de mim e me entregou, sem parar sua caminhada, uma pequena pasta com cantos de ouro cinzelado, e me fez sinal para escondê-la; enfiei-a na minha manga e a segurei até que ficasse sozinho na minha cela. Arrebentei o fecho, havia apenas duas folhas com estas palavras: "Clarimonde, Palácio Concini".

Nessa época eu estava tão pouco a par das coisas da vida que não conhecia Clarimonde, apesar de sua celebridade,e não tinha a menor idéia de onde ficava o Palácio Concini. Fiz mil conjecturas,cada uma mais extravagante que a outra; mas, na verdade, contanto que pudesse revê-la, pouco ligava para o que ela pudesse ser, grande dama ou cortesã.Esse amor, nascido ainda agorinha, havia se enraizado indestrutivelmente; eu não pensava nem sequer em tentar arrancá-lo, de tal forma sentia que era impossível. Aquela mulher se apoderara completamente de mim, um só olhar bastara para me transformar; ela me soprara a sua vontade; eu não vivia mais em mim mesmo, mas nela e por ela. Fazia mil extravagâncias, beijava em minha mão o ponto que ela havia tocado, repetia seu nome horas a fio. Bastava fechar os olhos para vê-la tão claramente como se estivesse presente na realidade, e repetia a mim mesmo aquelas palavras que ela me dissera no pórtico da igreja: "Ai de ti! Ai de ti! Que fizeste?".

Compreendia o absoluto horror de minha situação, e o aspecto fúnebre e terrível do estado que eu acabava de abraçar revelava-se claramente a mim. Ser padre!, isto é, casto, não amar, não distinguir sexo nem idade, desviar-se de toda beleza, furar os próprios olhos, rastejar sob a sombra glacial de um claustro ou de uma igreja, ver apenas agonizantes, velar junto a cadáveres desconhecidos e usar seu próprio luto sobre sua sotaina preta, de modo que seu hábito possa ser a mortalha do própriocaixão! E sentia a vida subir em mim como um lago interior que se avoluma e transborda;meu sangue pulsava com força em minhas artérias; minha juventude, tanto tempo recalcada, explodia de súbito como o áloe, que leva cem anos para florescer e eclode com um estrondo de trovão. Que fazer para rever Clarimonde?

Não tinha nenhuma desculpa para sair do seminário, pois não conhecia ninguém na cidade; nem sequer devia permanecer ali,e apenas esperava que me designassem a paróquia que deveria assumir. Tentava despregar as grades da janela, mas ela ficava a uma altura aterrorizante e, sem escada, era impossível pensar nisso. E, aliás, só podia descer de noite; e como me orientaria no inextricável dédalo das ruas? Todas essas dificuldades, que para outros nada seriam, eram imensas para mim, pobre seminarista, apaixonado recente, sem experiência, sem dinheiro e sem roupas.

Ah! Se eu não fosse padre poderia vê-la, todos os dias; seria seu amante, seu marido, dizia para mim mesmo em meio à minha cegueira; em vez de estar enrolado em meu triste sudário, teria roupas de seda e veludo, correntes de ouro, uma espada e plumas como os belos jovens cavaleiros. Meus cabelos, em vez de estarem estragados pela grande tonsura, balançariam em torno de meu pescoço em cachos ondulantes. Teria um lindo bigode encerado, seria um bravo. Mas uma hora passada na frente de um altar, algumas palavras apenas articuladas, me cortavam para sempre do mundo dos vivos, e eu mesmo havia selado a pedra de meu túmulo,empurrado com a mão o ferrolho de minha prisão!

Fui até a janela. O céu estava admiravelmente azul, as árvores estavam vestidas de primavera; a natureza se exibia com uma alegria irônica. A praça estava coalhada de gente; uns iam, outros voltavam; jovens elegantes e jovens beldades, casal atrás de casal, dirigiam-se para os lados do jardim e das pérgulas. Companheiros de farras passavam cantando estribilhos que incitavam a beber; era movimento, vida, animação, uma alegria que realçava tristemente meu luto e minha solidão. Uma jovem mãe, na soleira da porta, brincava com o filho; beijava sua boquinha cor-de rosa, ainda perolada de pingos de leite, e fazia para ele, provocando-o, milhares dessas infantilidades divinas que só as mães sabem inventar. O pai, que estava em pé a certa distância, sorria suavemente para aquela dupla encantadora, e seus braços cruzados apertavam a própria alegria sobre seu coração.

Não consegui suportar o espetáculo; fechei a janela, joguei-me na cama com um ódio e um ciúme assustadores no coração, mordendo meus dedos e meu cobertor como um tigre em jejum há três dias. Não sei quanto tempo fiquei assim; mas ao me virar num gesto de furioso espasmo, vi o abade Sérapion em pé no meio do quarto a me observar atentamente. Senti vergonha de mim mesmo, e, deixando minha cabeça cair sobre o peito, tapei os olhos com as mãos."Romuald, meu amigo, algo extraordinário está acontecendo com você", diz-me Sérapion depois de alguns minutos em silêncio; "seu comportamento é realmente inexplicável! Você, tão piedoso, tão calmo e suave, agita-se em sua cela como uma fera. Tome cuidado, meu irmão, e não dê ouvidos às sugestões do diabo; maligno, irritado porque você se consagrou para sempre ao Senhor, ronda ao seu redor como um lindo lobo e faz um derradeiro esforço para atraí-lo. Em vez de deixar-se abater, meu querido Romuald, faça uma couraça de orações, um escudo de mortificações, e combata valentemente o inimigo; você o vencerá. É uma prova necessária à virtude e o ouro cairá mais fino da copela. Não se apavore nem desanime; as almas mais bem guardadas e mais firmes enfrentaram esses momentos. Reze, jejue, medite, e o mau espírito se retirará."

As palavras do abade Sérapion me fizeram retornar a mim mesmo, e fiquei um pouco mais calmo. "Eu vinha lhe anunciar a sua nomeação para a paróquia de C***; o padre que mantinha o presbitério acaba de morrer, e o senhor bispo encarregou-me de instalá-lo; esteja pronto amanhã."Respondi com um gesto de cabeça que estaria pronto, e o abade se retirou. Abri meu missal e comecei a ler orações; mas aquelas linhas logo se embaralharam diante de meus olhos; o fio das idéias se enrolou dentro de meu cérebro, e o livro escorregou de minhas mãos sem que eu reparasse.

Partir no dia seguinte sem tê-la revisto! Somar essa impossibilidade a todas que já existiam entre nós! Perder para sempre a esperança de encontrá-la, a menos que houvesse um milagre! Escrever-lhe? Por quem mandaria a carta? Com o caráter sagrado de que eu estava investido, com quem me abrir, em quem confiar? Sentia uma ansiedade terrível. Depois, o que o abade Sérapion tinha me dito sobre os artifícios do diabo me voltava à memória; a estranheza da aventura, a beleza sobrenatural de Clarimonde, o brilho fosfórico de seus olhos, a impressão escaldante de sua mão, a confusão em que me jogara, a súbita mudança que se operara em mim, minha piedade esvanecida num instante, tudo isso provava claramente a presença do diabo, e aquela mão acetinada talvez fosse apenas a luva com que ele cobrira suas garras. Essas idéias me mergulharam num imenso terror, apanhei o missal que caíra do meu colo para o chão, e recomecei a orar.

No dia seguinte, Sérapion foi me buscar; duas mulas nos esperavam na porta, carregando nossas mirradas malas; ele subiu numa e eu na outra, de qualquer jeito. Enquanto percorríamos as ruas da cidade, eu olhava para todas as janelas e todas as sacadas para tentar ver Clarimonde; mas era bem de manhãzinha, e a cidade ainda não tinha aberto os olhos. Meu olhar tentava mergulhar atrás das persianas e cortinas de todos os palácios defronte dos quais passávamos. Sérapion talvez atribuísse essa curiosidade à admiração que me causava a beleza da arquitetura, pois ele diminuía a marcha de seu animal para me dar tempo de ver.

Finalmente chegamos à porta da cidade e começamos a escalar a colina. Quando cheguei lá no alto, virei-me para olhar mais uma vez as terras onde vivia Clarimonde. A sombra de uma nuvem cobria inteiramente a cidade; seus telhados azuis e vermelhos estavam fundidos num mesmo semi-tom em que emergiam aqui e acolá, como flocos brancos de espuma, as fumaças matinais. Por uma ilusão de óptica singular, desenhava-se,dourado sob um raio único de luz, um edifício que ultrapassava em altura as construções vizinhas, totalmente imersas na névoa; embora estivesse a mais de uma légua, parecia bem perto. Distinguiam-se os menores detalhes, as torrinhas, as plataformas, as janelas, e até os cata-ventos em forma de rabo de andorinha.

"Qual é aquele palácio que vejo lá longe iluminado por um raio de sol?", perguntei a Sérapion. Ele pôs a mão acima dos olhos e, depois de olhar, me respondeu: "É o antigo palácio que o príncipe Concini deu à cortesã Clarimonde; lá acontecem coisas pavorosas". Nesse momento, e ainda não sei se é uma realidade ou uma ilusão, tive a impressão de ver passar pelo terraço uma forma esbelta e branca que brilhou um segundo e se apagou. Era Clarimonde! Oh! Saberia ela que a essa hora, do alto daquele caminho íngreme que me afastava dela, e que eu não desceria, estava eu fitando, ardoroso e inquieto, o palácio onde ela morava, e que um irrisório jogo de luz parecia aproximá-lo de mim, como que me convidando a entrar na qualidade de seu senhor? Provavelmente ela sabia, pois sua alma estava ligada à minha com tanta simpatia que sentia as menores vibrações, e era esse sentimento que a impelira, ainda envolta em seus véus noturnos, a subir ao terraço em meio ao gélido orvalho da manhã.

A sombra alcançou o palácio, e tudo se tornou um oceano imóvel de telhados e cumes em que só se enxergava uma ondulação acidentada. Sérapion bateu em sua mula, cujo passo a minha logo imitou, e uma curva do caminho me afastou para sempre da cidade de S..., pois eu não deveria mais voltar lá. Ao fim de três dias de estrada por campos bastante tristes, vimos surgir entre as árvores o galo do campanário da igreja onde eu devia servir; e depois de seguir por ruas tortuosas bordejadas de choupanas e terrenos cercados, encontramo-nos defronte da fachada que nada tinha de suntuosa. Um pórtico enfeitado com algumas nervuras e duas ou três pilastras de arenito grosseiramente talhadas, um teto de telhas e contrafortes do mesmo arenito das pilastras, e mais nada: à esquerda o cemitério infestado de capim alto, com um grande crucifixo de ferro no meio; à direita e na sombra da igreja, o presbitério. Era uma casa de extrema simplicidade e de árida limpeza.

Entramos; umas galinhas ciscavam na terra raros grãos de aveia; aparentemente acostumadas ao hábito preto dos eclesiásticos, não se incomodavam com a nossa presença e mal se assustavam ao nos deixar passar. Um latido esganiçado e rouco se fez ouvir, e vimos correr um velho cachorro. Era o cão do meu predecessor. Tinha o olhar meigo, o pêlo cinza e todos os sintomas da mais alta velhice a que um cão pode chegar. Afaguei-o suavemente com a mão, e ele logo começou a andar ao meu lado com ar de satisfação inexprimível. Uma senhora bastante idosa, e que tinha sido a governanta do antigo pároco, foi também ao nosso encontro e, depois de ter me feito entrar numa sala baixa, perguntou se minha intenção era mantê-la. Respondi que manteria, a ela e ao cão, e também as galinhas, e toda a mobília que seu patrão tinha lhe deixado ao morrer, o que a fez sentir um ímpeto de alegria, pois o abade Sérapion concordou de imediato com o preço que ela queria. Terminada minha instalação, o abade Sérapion retornou para o seminário. Portanto, fiquei sozinho e sem outro apoio além de mim mesmo. O pensamento de Clarimonde recomeçou a me obcecar, e, mesmo fazendo alguns esforços para expulsá-lo, nem sempre conseguia.

Uma noite, passeando pelas alamedas de meu jardinzinho, ladeadas de buxos, tive a impressão de ver pela cerca viva uma forma de mulher que seguia todos os meus movimentos, e entre as folhas cintilarem as duas pupilas verde-água; mas era apenas uma ilusão, e, tendo passado para o outro lado da alameda, nada encontrei além do rastro de um pé na areia, tão pequeno que parecia um pé de criança. O jardim era cercado de muralhas muito altas; visitei todos os seus cantos e recantos, não havia ninguém. Jamais consegui explicar esse episódio, que, aliás, não era nada se comparado com as coisas estranhas que iriam acontecer comigo.

Fazia um ano que eu vivia assim, cumprindo rigorosamente todos os deveres da minha condição, rezando, jejuando, exortando e socorrendo os doentes, dando esmolas a ponto de me privar dos bens mais indispensáveis. Mas sentia sobre mim uma aridez extrema, e as fontes da graça me estavam fechadas. Não desfrutava dessa felicidade conferida pelo cumprimento de uma santa missão; meu pensamento estava em outro lugar, e as palavras de Clarimonde voltavam a toda hora a meus lábios como uma espécie de refrão involuntário. Ó irmão, medite bastante sobre isso! Por ter erguido uma única vez o olhar para uma mulher por uma falta aparentemente tão leve, sofri durante vários anos as inquietações mais miseráveis: minha vida desandou para sempre. Não o reterei mais tempo nessas derrotas e vitórias interiores, sempre seguidas de recaídas mais profundas, e passarei imediatamente a um episódio decisivo.

Uma noite bateram violentamente à minha porta. A velha governanta foi abrir, e um homem de tez acobreada e ricamente vestido, mas seguindo uma moda estrangeira,com um longo punhal, delineou-se sob os raios da lanterna de Bárbara. Seu primeiro gesto foi de terror; mas o homem a tranquilizou, e disse-lhe que precisava me ver imediatamente para alguma coisa que dizia respeito ao meu ministério. Bárbara o fez subir. Eu ia me deitar. O homem me disse que sua amante, uma grande dama, estava às vésperas da morte e desejava um padre. Respondi que estava pronto para segui-lo; levei comigo o necessário para a extrema-unção e desci às pressas.

Na porta dois cavalos pretos como a noite batiam os pés de impaciência, e bufavam deixando no pelame dois longos rastros de fumaça. Ele segurou o estribo para mime ajudou-me a montar num cavalo, depois pulou no outro apoiando apenas a mão no santantônio da sela. Apertou os joelhos e largou as rédeas de seu cavalo, que partiu como uma flecha. O meu, cuja brida ele segurava, também desembestou no galope e manteve-se perfeitamente lado a lado com o outro. Devorávamos o caminho; debaixo de nós, a terra corria, cinzenta e riscada, e as silhuetas negras das árvores fugiam como um exército em derrocada. Atravessamos uma floresta de sombra tão opaca e glacial que senti correr por minha pele um arrepio de supersticioso terror. As faíscas que as ferraduras de nossos cavalos arrancavam das pedras deixavam no caminho como que um rastro de fogo, e se alguém, àquela hora da noite, tivesse nos visto, meu guia e eu, teria nos confundido com duas assombrações a cavalo num pesadelo. De vez em quando, dois fogos-fátuos cruzavam o caminho, e as gralhas piavam miseravelmente no bosque cerrado, onde de longe em longe brilhavam os olhos fosforescentes de gatos selvagens. A crina dos cavalos estava cada vez mais descabelada, o suor corria por seus flancos, e o bafo saía de suas narinas barulhento e apressado. Mas quando o escudeiro os via fraquejar, dava um grito gutural para reanimá-los, que nada tinha de humano, e a corrida desembestava furiosamente.

Finalmente o turbilhão parou; ergueu-se de repente na nossa frente um volume negro espetado por alguns pontos; os passos de nossos cavalos soaram mais barulhentos sobre um piso de ferro, e entramos por uma abóbada que abria sua goela escura entre duas torres imensas. Uma grande agitação reinava no castelo; domésticos de tochas na mão cruzavam os pátios em todas as direções, e luzes subiam e desciam de patamar em patamar. Entrevi confusamente imensas arquiteturas, colunas, arcadas, escadarias e rampas, um luxo de construção feérico e perfeitamente digno de um rei. Um pajem negro, o mesmo que tinha me dado as pastas e que reconheci instantaneamente, veio me ajudar a descer, e um mordomo, vestido de veludo preto com uma corrente de ouro em volta do pescoço e uma bengala de marfim na mão, deu um passo em minha direção.

Lágrimas pesadas transbordavam de seus olhos e corriam pelas faces por cima da barba branca. "Tarde demais!", disse ele balançando a cabeça, "tarde demais!, senhor padre; masse não pôde salvar a alma, venha velar o pobre corpo. "Pegou meu braço e me levou à sala fúnebre; eu chorava tão alto quanto ele, pois tinha entendido que a falecida era ninguém menos que Clarimonde, tanto e tão alucinadamente amada. Havia um genuflexório ao lado da cama; uma chama azulada rodopiando sobre um vaso de bronze projetava em todo o quarto uma luz fraca e incerta, e aqui e ali fazia cintilar no escuro alguma protuberância de um móvel ou de uma sanca. Sobre a mesa, dentro de uma urna cinzelada, boiava uma rosa branca murcha cujas folhas, excetuando uma única que ainda vivia, estavam todas caídas ao pé do vaso como lágrimas perfumadas; uma máscara negra quebrada, um leque, disfarces de todo tipo estavam jogados sobre as poltronas e faziam ver que a morte havia chegado subitamente àquela suntuosa residência e sem se fazer anunciar.

Ajoelhei-me sem me atrever a dar uma olhada para o leito, e comecei a recitar os salmos com grande fervor, agradecendo a Deus por ter posto um túmulo entre o pensamento dessa mulher e mim, a fim de que eu pudesse acrescentar às minhas preces seu nome doravante santificado.Mas pouco a pouco o ânimo se arrefeceu e caí em devaneios. Aquele quarto nada tinha de câmara-ardente. Em vez do ar fétido e cadavérico que eu estava habituado a respirar nesses velórios, uma langorosa fumaça de essências orientais, sei lá eu que cheiro adorável de mulher, pairava suavemente no ar tépido. Aquela claridade pálida mais parecia uma meia-luz acesa para a volúpia do que a luzinha de reflexos amarelos que tremelica junto dos cadáveres.

Eu pensava no acaso singular que me fez reencontrar Clarimonde na hora em que a perdia para sempre, e um suspiro de arrependimento escapou de meu peito. Pareceu-me que alguém também tinha suspirado atrás de mim, e virei-me sem querer. Era o eco. Nesse movimento, meus olhos caíram sobre o leito fúnebre que até então eles tinham evitado. O cortinado de adamascado vermelho com grandes flores, suspenso por franjas de ouro, deixavam ver a morta deitada e de mãos postas sobre o peito. Cobria-a um véu de linho de uma brancura resplandecente, que a púrpura escura da tapeçaria realçava ainda mais, e tão fino que nada escondia da forma encantadora de seu corpo, permitindo seguir as belas linhas onduladas como o pescoço de um cisne que nem mesmo a morte conseguira endurecer.

Dir-se-ia uma estátua de alabastro feita por um escultor hábil para colocar sobre um túmulo de rainha, ou então uma moça adormecida sobre quem tivesse nevado. Eu não agüentava mais; aquele ar de alcova me deixava tonto, aquele perfume febril de rosa semi-murcha subia ao meu cérebro, e eu andava a passos largos pelo quarto, parando a cada volta diante do estrado para observar a graciosa falecida sob a transparência da mortalha. Estranhos pensamentos atravessavam meu espírito; imaginava que ela não estava realmente morta, e que era apenas uma astúcia que usara para me atrair a seu castelo e revelar seu amor. A certa altura, pensei até ter visto seu pé se mexer entre a brancura dos véus, e desfazer as pregas retas do sudário. E depois dizia comigo mesmo: "Será mesmo Clarimonde? Que provas tenho? Esse pajem negro não pode ter passado para o serviço de outra mulher? De fato, estou mesmo louco por me sentir tão desconsolado e agitado".

Mas meu coração respondeu com um batimento acelerado: "É ela mesmo, é ela mesmo". Aproximei-me do leito e olhei com atenção redobrada o objeto de minha incerteza. Confessarei a você? Aquela perfeição de formas, se bem que purificada e santificada pela sombra da morte, me perturbava mais voluptuosamente do que devia, e aquele repouso parecia tanto um sono que qualquer um se enganaria. Esqueci que tinha ido a um ofício fúnebre, e imaginei que era um recém-casado entrando no quarto de sua noiva que esconde o rosto por pudor e não quer se deixar ver. Consternado de dor, alucinado de alegria, trêmulo de receio e prazer, debrucei-me sobre ela e peguei a ponta da mortalha; levantei-a devagar, retendo minha respiração por temer acordá-la. Minhas artérias latejavam com tal força que eu assentia assobiar em minhas têmporas, e o suor escorria por minha testa como se eu tivesse remexido numa lápide de mármore.

Era mesmo Clarimonde, tal como eu a conhecera na igreja no dia da minha ordenação; sempre tão sedutora, e a morte parecia uma faceirice a mais. A palidez de suas faces, o rosa menos vivo de seus lábios, os longos cílios abaixados e recortando sua franja castanha contra a palidez davam-lhe uma expressão de castidade melancólica e sofrimento pensativo cuja força de sedução era inexprimível; seus longos cabelos soltos, em que ainda se viam algumas florzinhas azuis, formavam um travesseiro para sua cabeça e protegiam com os cachos a nudez dos ombros; suas belas mãos, mais puras, mais diáfanas do que hóstias, estavam cruzadas em atitude de piedoso repouso e tácita oração, que corrigia o que poderiam ter tido de sedutoras demais, mesmo na morte; e seus braços nus delicadamente roliços e polidos como o marfim, dos quais não haviam tirado suas pulseiras de pérolas.

Fiquei muito tempo absorto em muda contemplação, e quanto mais olhava para ela, menos conseguia acreditar que a vida tinha abandonado para sempre aquele belo corpo. Não sei se era uma ilusão ou um reflexo da lamparina, mas parecia que o sangue recomeçava a circular sob a palidez opaca; no entanto ela continuava na mais perfeita imobilidade. Toquei de leve seu braço; estava frio, mas não mais frio do que sua mão no dia em que roçara na minha sob o pórtico da igreja. Voltei a meu estado normal e debrucei meu rosto sobre o seu, deixando chover sobre suas faces o morno orvalho de minhas lágrimas. Ah!, que sentimento amargo de desespero e impotência! Que agonia aquele velório! Gostaria de poder reunir toda a minha vida para lhe dar e soprar sobre seu gélido despojo a chama que me devorava.

A noite avançava, e, sentindo se aproximar o momento da separação eterna, não consegui me recusar à triste e suprema doçura de deixar um beijo nos lábios mortos daquela que teve todo o meu amor. Ó prodígio! Um leve sopro misturou-se ao meu sopro, e a boca de Clarimonde respondeu à pressão da minha: seus olhos se abriram e recuperaram um pouco de brilho, ela deu um suspiro e, descruzando os braços, passou-os atrás de meu pescoço com ar de júbilo inefável. “Ah!, és tu, Romuald", disse com voz lânguida e doce como as últimas vibrações de uma harpa, "mas o que estás fazendo? Esperei-te tanto tempo que morri; mas agora estamos noivos, poderei te ver e ir à tua casa. Adeus, Romuald, adeus! Eu te amo; é tudo o que queria te dizer, e devolvo-te a vida que convocaste sobre mim por um minuto com teu beijo; até breve."

Sua cabeça caiu para trás, mas ela continuava a me segurar entre seus braços como para me reter. Um turbilhão de vento arrebentou a janela e entrou no quarto; a última pétala da rosa branca palpitou por um instante como uma asa na ponta da haste, depois se soltou e voou pela janela aberta, levando a alma de Clarimonde. A lamparina se apagou e caí desfalecido sobre o seio da bela falecida. Quando voltei a mim, estava deitado em minha cama, no quartinho do presbitério, e o velho cachorro do ex-pároco lambia minha mão que saía para fora do cobertor.

Bárbara se movimentava no quarto com um tremor senil, abrindo e fechando gavetas, remexendo pós dentro de copos. Ao me ver abrir os olhos, a velha deu um grito de alegria, o cão soltou um uivo e abanou o rabo; mas eu estava tão fraco que não consegui pronunciar uma só palavra nem fazer um só gesto. Soube então que tinha ficado assim durante três dias, não dando outro sinal de vida além de uma respiração quase insensível. Esses três dias não contam em minha vida, e não sei onde meu espírito esteve durante todo esse tempo; não tenho a menor lembrança.

Bárbara me contou que o mesmo homem de tez acobreada, que tinha ido me buscar durante a noite, havia me levado de volta de manhã numa liteira fechada e partira logo em seguida. Mal consegui concatenar minhas idéias, repassei em meu interior todas as circunstâncias daquela noite fatal. Primeiro pensei que tinha sido vítima de uma ilusão mágica; mas circunstâncias reais e palpáveis logo destruíram essa suposição. Não conseguia acreditar que tivesse sonhado, já que Bárbara tinha visto tanto quanto eu o homem com os dois cavalos pretos cujos arreios e aparência ela descrevia com exatidão. No entanto, ninguém conhecia nas redondezas um castelo que combinasse com a descrição daquele onde encontrei Clarimonde.

Uma bela manhã vi o abade Sérapion entrar. Bárbara lhe comunicara que eu estava doente, e ele acorrera às pressas. Embora essa solicitude demonstrasse afeto e interesse por minha pessoa, sua visita não me deu o prazer que deveria ter dado. O abade Sérapion tinha no olhar algo penetrante e de inquisidor que me perturbava. Diante dele sentia-me constrangido e culpado. Foi o primeiro a descobrir meu drama interior, e eu estava zangado com ele por essa clarividência.

Enquanto me pedia notícias de minha saúde num tom hipocritamente melífluo, fixava em mim suas duas pupilas de leão, amarelas, e seu olhar afundava em minha alma como uma sonda. Depois me fez algumas perguntas sobre a administração de minha paróquia, se eu estava satisfeito, em que passava o tempo de folga deixado por meu ministério, se eu tinha feito alguns conhecimentos entre os moradores do lugar, quais eram minhas leituras favoritas, e mil outros detalhes do gênero. Respondi a tudo isso o mais brevemente possível, e, sem esperar que eu tivesse terminado, ele passava a outra coisa.

Evidentemente, essa conversa não tinha nada a ver com o que ele queria dizer. Depois, sem nenhuma preparação, e como uma notícia de que se lembrasse agorinha mesmo e temesse esquecer depois, disse em voz clara e vibrante que ressoou em meu ouvido como as trombetas do Juízo Final: "A grande cortesã Clarimonde morreu recentemente, após uma orgia que durou oito dias e oito noites. Foi uma coisa infernalmente esplêndida. Lá reviveram as abominações dos festins de Baltasar e de Cleópatra. Em que século estamos vivendo, meu Deus! Os convivas eram servidos por escravos morenos que falavam uma língua desconhecida e cujo aspecto me pareceu tal e qual o de verdadeiros demônios; a libré do mais modesto poderia servir de traje de gala para um imperador. Desde sempre corriam sobre essa Clarimonde histórias muito esquisitas, e todos os seus amantes terminaram de modo miserável ou violento. Disseram que era uma ghoul, uma vampira; mas acho que era Belzebu em pessoa."Calou-se e me observou mais atentamente que nunca, para ver o efeito de suas palavras.

Não consegui evitar um gesto ao ouvi-lo dizer "Clarimonde", e essa notícia de sua morte, além da dor que me causava pela estranha coincidência com a cena noturna que eu testemunhara, jogou-me numa agitação e num pavor que se estamparam em meu rosto, por mais que eu fizesse para controlá-los. Sérapion me deu uma olhadela inquieta e severa; depois disse: "Meu filho, devo adverti-lo, você está com o pé levantado sobre um abismo, tome cuidado para não cair. Satã tem as garras compridas, e os túmulos nem sempre são fiéis. A pedra que cobre Clarimonde deveria ser selada com um triplo selo, pois, pelo que dizem, não é a primeira vez que ela morre. Que Deus o proteja. Romuald!" Depois de dizer essas palavras, Sérapion voltou para a porta a passos lentos, e nunca mais o revi; partiu para S*** praticamente na mesma hora.

Eu estava perfeitamente restabelecido e tinha retomado minhas funções habituais. A lembrança de Clarimonde e as palavras do velho padre estavam sempre presentes no meu espírito, porém nenhum acontecimento extraordinário foi confirmar as previsões fúnebres de Serapion. Eu começava a crer que seus temores e meus terrores eram exagerados, mas uma noite tive um sonho.

Mal havia sorvido os primeiros goles do sono, ouvi alguém abrir o cortinado de minha cama e puxar as argolas do trilho com um ruído forte; abruptamente recostei-me sobre os cotovelos e vi uma sombra de mulher em pé na minha frente. Na mesma hora reconheci Clarimonde. Ela trazia na mão uma pequena lamparina com a forma dessas que se põem nos túmulos, cuja luz dava a seus dedos finos uma transparência rosa que se prolongava numa gradação insensível até a brancura opaca e leitosa de seu braço nu. Sua única vestimenta era o sudário de linho que a cobria em seu leito de morte, e cujas pregas ela prendia no peito, como se envergonhada de estar tão pouco vestida, mas sua mãozinha não era suficiente; estava tão branca que a cor do pano se confundia com a de suas carnes sob o pálido raio da lamparina. Enrolada nesse fino tecido que revelava todos os contornos de seu corpo, mais parecia uma estátua de mármore de banhista antiga do que uma mulher dotada de vida. Morta ou viva, estátua ou mulher, sombra ou corpo, sua beleza era inalterável; só o brilho verde de suas íris estava meio embaçado, e sua boca, outrora tão vermelha, agora tinha apenas o tom rosa pálido e suave quase parecido com o de suas faces. As florzinhas azuis que eu tinha notado em seus cabelos estavam completamente secas e haviam perdido praticamente todas as folhas; nem por isso ela era menos sedutora, tão sedutora que, apesar da singularidade da aventura e da forma inexplicável como tinha entrado em meu quarto, nem por um instante fiquei apavorado.

Colocou a lamparina na mesa e sentou-se ao pé de minha cama, depois disse debruçando-se sobre mim, com aquela voz a um só tempo argentina e aveludada que só nela conheci: "Deixei-te esperando bastante, meu querido Romuald, e deves ter pensado que eu havia te esquecido. Mas venho de bem longe, e de um lugar de onde ninguém ainda retornou: não há lua nem sol no país de onde venho; é só espaço e sombra; nem caminho, nem vereda; nenhuma terra para o pé, nenhum ar para a asa; e no entanto eis-me aqui, pois o amor é mais forte que a morte, e acabará por vencê-la. Ah!, quantas faces prostradas e coisas terríveis vi em minha viagem! Quanta dificuldade teve minha alma, que voltou a este mundo pela força da vontade, para reencontrar seu corpo e nele se reinstalar! Quantos esforços precisei fazer antes de levantar a lápide com que me cobriram! Olha!, as palmas de minhas pobres mãos estão todas machucadas. Beija-as para curá-las, meu amor querido! "Ela comprimiu uma após outra as palmas frias de suas mãos em minha boca; beijei-as, de fato, diversas vezes, e ela me olhava com um sorriso de inefável condescendência.

Confesso, para minha vergonha, que tinha esquecido totalmente as advertências do abade Serapion e o compromisso que eu tinha assumido. Tombei sem resistência, e na primeira investida. Nem mesmo tentei rechaçar o tentador; a frescura da pele de Clarimonde penetrava na minha, e eu sentia correr por meu corpo voluptuosos arrepios. Pobre criança! Apesar de tudo o que vi, ainda custo a crer que fosse um demônio; pelo menos não tinha o menor jeito, e nunca Satã escondeu melhor suas garras e seus chifres. Tinha encolhido os calcanhares debaixo de si e continuava acocorada na beira do meu colchão numa pose cheia de um displicente coquetismo. De vez em quando passava sua mãozinha por meus cabelos e os enrolava em cachos como para testar em meu rosto um novo penteado. Eu me entregava com a mais culpada condescendência, e ela tudo acompanhava com o balbucio mais encantador.

Notável é que eu não sentisse o menor espanto com uma aventura tão extraordinária, e com essa facilidade de nossa visão para admitir como muito simples os acontecimentos mais estranhos, eu nada via ali que não fosse perfeitamente natural."Eu te amava muito antes de te ver, meu querido Romuald, e te procurava por toda parte. Eras meu sonho, e te avistei na igreja no momento fatal, e disse imediatamente: 'É ele!'. Dei-te um olhar em que pus todo o amor que eu tivera, que tinha e que teria por ti; um olhar capaz de danar um cardeal, de fazer um rei ajoelhara meus pés diante de toda a corte. Ficaste impassível e preferiste teu Deus a mim. "Ah!, como tenho ciúme de Deus, que amaste e amas ainda mais que a mim! "Ai de mim! Como sou infeliz! Nunca terei teu coração só para mim, eu, que tu ressuscitaste com um beijo, Clarimonde, a morta, que por tua causa força as portas do túmulo e vem te dedicar uma vida que ela só reviveu para fazer-te feliz!"

Todas essas palavras eram entrecortadas de carícias delirantes que atordoaram meus sentidos e minha razão a ponto de eu já não temer, para consolá-la, proferir uma terrível blasfêmia, e dizer que a amava tanto quanto a Deus. Suas pupilas se reavivaram e brilharam como crisoprásios. "Verdade!, bem verdade! Tanto quanto a Deus!", ela disse me tomando em seus belos braços. "Já que é assim, virás comigo, me seguirás para onde eu quiser. Deixarás tuas feias batinas pretas. Serás o mais orgulhoso e o mais invejado dos cavaleiros, serás meu amante. Ser o amante declarado de Clarimonde que recusou um papa, como isso é belo! Ah!, a boa vida muito feliz, a bela existência dourada que levaremos! Quando partimos, meu lorde?""Amanhã! Amanhã!", gritei em meu delírio."Amanhã. Está bem!", ela recomeçou. "Terei tempo de mudar de roupa, pois esta é um pouco sumária e não vale nada para a viagem. Preciso também avisar meus criados que acreditam que estou seriamente morta e estão no auge do desconsolo. O dinheiro, as roupas, as carruagens, tudo estará pronto; virei pegar-te a esta hora. Adeus, meu coração querido." E roçou a ponta dos lábios na minha testa. A lamparina se apagou, as cortinas se fecharam, e não vi mais nada; um sono de chumbo, um sono sem sonho abateu-se sobre mim e deixou-me entorpecido até a manhã seguinte.

Acordei mais tarde que de costume, e a lembrança daquela visão singular agitou toda a minha manhã; acabei me convencendo de que era apenas fruto de minha imaginação excitada. No entanto, as sensações tinham sido tão vivas que era difícil acreditar que não haviam sido reais e, não sem certa apreensão pelo que ia acontecer, fui para a cama depois de ter rezado a Deus para que afastasse de mim os maus pensamentos e protegesse a castidade de meu sono.

Logo ferrei no sono, e meu sonho prosseguiu. As cortinas se afastaram, e vi Clarimonde, não como da primeira vez, pálida no seu pálido sudário e com as faces violeta como a morte, mas alegre, lépida e viçosa, com um fantástico traje de viagem de veludo verde enfeitado de galões de ouro e levantado de um lado para deixar ver uma saia de cetim. Seus cabelos louros caíam em cachos grandes de um largo chapéu de feltro preto cheio de plumas brancas caprichosamente reviradas; ela segurava um pequeno chicote terminado por um apito de ouro. Tocou em mim de leve e disse: "Bem!, lindo dorminhoco, é assim que fazes teus preparativos? Contava encontrar-te de pé. Levanta-te bem depressa, não temos tempo a perder." Pulei para fora da cama. "Anda, tu te vestes e partimos", disse apontando com o dedo uma pequena trouxa que tinha trazido; "os cavalos se aborrecem e estão impacientes na porta. Já deveríamos estar a dez léguas daqui."

Vesti-me às pressas, e ela mesma ia me passando as peças de roupa, rindo as gargalhadas de minha falta de jeito, e me indicando o uso de cada uma quando eu me enganava. Arrumou meu cabelo e, quando acabou, estendeu-me um espelhinho de bolso, de cristal de Veneza, rodeado por uma filigrana de prata, e disse: "O que achas de tua aparência? Queres me contratar para teu serviço como valet dechambre?" Eu não era mais o mesmo, não me reconheci. Não parecia mais comigo, tanto quanto uma estátua terminada não parece um bloco de pedra. Meu antigo rosto lembrava apenas o esboço grosseiro do que o espelho refletia. Eu estava bonito, e minha vaidade foi sensivelmente afagada com essa metamorfose. Aquelas roupas elegantes, aquela rica veste bordada faziam de mim um personagem totalmente diferente, e eu admirava a força de umas poucas varas de tecido cortadas de certo modo. O espírito de meu traje penetrava em minha pele, e dez minutos depois eu estava razoavelmente enfatuado.

Dei voltas pelo quarto para me sentir à vontade. Clarimonde olhava para mim com cara de condescendência materna e parecia muito contente com sua obra."Pronto, agora chega de criancices; para a estrada, meu querido Romuald! Iremos longe e não chegaremos a tempo." Pegou-me pela mão e me arrastou. Todas as portas se abriam diante dela, mal as tocava, e passamos pelo cachorro sem acordá-lo. Na porta, encontramos Margheritone; era o escudeiro que já tinha me conduzido; ele segurava a brida de três cavalos pretos como os primeiros, um para mim, um para ele, um para Clarimonde. Aqueles cavalos só podiam ser ginetes da Espanha, nascidos de jumentas fecundadas pelo zéfiro; pois iam tão depressa quanto o vento,e a lua, que se levantara na nossa partida para nos iluminar, rolava no céu como uma roda que se desprendeu de uma carruagem; a lua estava à nossa direita, pulando de árvore em árvore e perdendo o fôlego para correr atrás de nós.

Logo chegamos a uma planície onde, perto de um bosque, nos esperava um carro atrelado com quatro animais vigorosos; subimos, e os cocheiros os puseram num galope alucinante. Um de meus braços passava pela cintura de Clarimonde e uma de suas mãos estava fechada dentro da minha; ela encostava a cabeça em meu ombro, e eu sentia seu colo seminu roçar em meu braço. Nunca tinha sentido uma felicidade tão intensa. Naquele momento estava esquecido de tudo, e me lembrava de ter sido padre tanto quanto me lembrava do que tinha feito no seio de minha mãe, tal era o grande fascínio do espírito maligno sobre mim.

Dessa noite em diante, de certa forma minha natureza se desdobrou, e dentro de mim passou a haver dois homens que não se conheciam. Ora eu me considerava um padre que sonhava toda noite que era um nobre, ora um nobre que sonhava que era padre. Não conseguia separar o sonho da vigília, e não sabia onde começava a realidade e onde terminava a ilusão. O jovem senhor enfatuado e libertino zombavado padre, o padre detestava as libertinagens do jovem senhor. Duas espirais enredadas uma na outra e enroladas sem nunca se tocarem representam muito bema vida bicéfala que foi a minha.

Apesar da estranheza da situação, não creio ter um só instante beirado a loucura. Sempre conservei muito nítidas as percepções de minhas duas existências. Só que havia um fato absurdo que eu não conseguia explicar: é que o sentimento do mesmo "eu" existisse em dois homens tão diferentes. Era uma anomalia da qual não me dava conta, tanto ao pensar que era o pároco do vilarejo de ***, como ao imaginar que era Signor Romualdo, amante titular de Clarimonde.

O fato é que eu estava, ou pelo menos imaginava estar, em Veneza; ainda não conseguira esclarecer o que havia de ilusão e de realidade nessa bizarra aventura. Morávamos num grande palácio de mármore que dava para o Canaleio, repleto de afrescos e estátuas, com dois Ticianos da melhor época no quarto de Clarimonde, um palácio digno de um rei. Cada um de nós tinha a sua gôndola e as suas barcarolas a seu serviço, nossa sala de música e nosso poeta. Clarimonde concebia a vida em grande estilo, e sua natureza tinha algo de Cleópatra. Quanto a mim, eu levava uma vida de filho de príncipe, e tinha a pose de um membro da família de um dos doze apóstolos ou dos quatro evangelistas da Sereníssima República; não teria me desviado de meu caminho para deixar o doge passar, e não creio que, desde que Satanás caiu do céu, ninguém tivesse sido mais orgulhoso e mais insolente.

Ia ao Ridotto, e jogava um jogo diabólico. Via a melhor sociedade do mundo, filhos de família arruinados, divas de teatro, vigaristas, parasitas e espadachins. No entanto, apesar da dissipação dessa vida, mantive-me fiel a Clarimonde. Amava-a perdidamente. Ela seria capaz de despertar a própria saciedade e fazer da inconstância constância. Ter Clarimonde era ter vinte amantes, era ter todas as mulheres, de tal forma era mobile, mutável e tão diferente de si mesma; um verdadeiro camaleão! Levava você a cometer com ela a infidelidade que teria cometido com outras, assumindo por completo o temperamento, o jeito e o tipo de beleza da mulher que parecia agradar a você.

Retribuía o meu amor centuplicado, e foi em vão que os jovens patrícios e até os velhos do Conselho dos Dez fizeram-lhe as mais fantásticas propostas. Um Foscari chegou a ponto de lhe propor casamento; ela tudo recusou. Tinha ouro suficiente, queria apenas amor, um amor jovem, puro, despertado por ela, e que devia ser o primeiro e o último. Não fosse um maldito pesadelo que voltava todas as noites, quando eu pensava ser um pároco de aldeia se macerando e fazendo penitência por causa de meus excessos do dia, eu teria conhecido a felicidade completa.

Sereno, depois de ter me acostumado a estar com ela, quase já não pensava no modo estranho como eu tinha conhecido Clarimonde. Entretanto, por vezes o que o abade Sérapion me dissera voltava à minha memória e me deixava inquieto. De uns tempos para cá a saúde de Clarimonde já não era tão boa; sua tez estava cada dia mais mortiça. Os médicos que foram chamados nada entendiam de sua doença, não sabiam o que fazer. Prescreveram alguns remédios insignificantes e não voltaram mais. No entanto, ela empalidecia a olhos vistos e tornava-se cada vez mais fria. Estava quase tão branca e tão morta como na famosa noite no castelo desconhecido. Eu me sentia desconsolado ao vê-la se consumindo assim, lentamente.

Tocada por minha dor, ela me sorria suave e tristemente com o sorriso fatal de quem sabe que vai morrer. Certa manhã, estava sentado perto de sua cama e almoçava sobre uma mesinha para não deixá-la nem um minuto. Ao cortar uma fruta, fiz sem querer um talho bastante fundo no dedo. Logo o sangue jorrou em filetes púrpura, e algumas gotas respingaram em Clarimonde. Seus olhos se iluminaram, sua fisionomia assumiu uma expressão de alegria feroz e selvagem que eu nunca tinha visto. Pulou para fora da cama com uma agilidade animal, uma agilidade de macaco ou gato, e jogou-se sobre o ferimento e começou a chupá-lo com jeito de indizível volúpia. Sorvia o sangue aos golinhos, como um gourmet que saboreia um vinho de Jerez ou de Siracusa. Piscava os olhos quase fechados, e a pupila de suas íris verdes transformara-se de oblonga em redonda. De vez em quando ela parava para beijar minha mão, depois recomeçava a apertar com os lábios as bordas da ferida para fazer sair mais umas gotas vermelhas. Quando viu que não saía mais sangue, levantou-se com os olhos úmidos e brilhantes, mais rosada que uma aurora de maio, o rosto pleno, a mão morna e úmida, enfim, mais bela que nunca e num estado de perfeita saúde. "Não morrerei!, não morrerei!", disse, alucinada de alegria e se pendurando em meu pescoço. "Poderei te amar ainda muito tempo. Minha vida está na tua, e tudo o que sou vem de ti. Algumas gotas de teu rico e nobre sangue, mais precioso e eficaz que todos os elixires do mundo, me restituíram a vida."

Essa cena me deixou por muito tempo preocupado e me infundiu estranhas dúvidas quanto a Clarimonde, e, na própria noite, quando o sono me levou de volta ao presbitério, vi o abade Sérapion mais grave e ansioso do que nunca. Olhou-me atentamente e disse: "Não contente de perder sua alma, você quer perder também seu corpo. Desafortunado rapaz, em que cilada você caiu!". O tom em que disse essas poucas palavras me impressionou vivamente; mas, apesar de sua vivacidade, a impressão foi logo dissipada, e mil outros afazeres a apagaram de meu espírito.

Uma noite, porém, vi pelo meu espelho, cuja pérfida posição ela não tinha calculado, Clarimonde despejando um pó na taça de vinho temperado que costumava preparar depois da refeição. Peguei a taça, fingi levá-la aos lábios e deixei-a em cima de algum móvel como para terminá-la mais tarde, tranquilamente, e, aproveitando um instante em que a beldade estava de costas, joguei o conteúdo debaixo da mesa.Depois, retirei-me para meu quarto e me deitei, decidido a não dormir e a ver odesfecho de tudo aquilo.

Não esperei muito; Clarimonde entrou de camisola e, tendo se livrado dos véus, deitou-se ao meu lado na cama. Quando teve certeza de que eu estava dormindo, descobriu meu braço e tirou do cabelo um alfinete de ouro; depois começou a murmurar em voz baixa:"Uma gota, só uma gotinha vermelha, um rubi na ponta de minha agulha!... Já que ainda me amas, não devo morrer... Ah! pobre amor, teu belo sangue de cor púrpura tão brilhante, vou bebê-lo. Dorme, meu único bem; dorme, meu deus, meu menino; não te farei mal, só pegarei de tua vida o necessário para não deixar que a minha se extinga. Se não te amasse tanto poderia ter outros amantes cujas veias eu secaria; mas desde que te conheço tenho horror a todo mundo... Ah!, que lindo braço! Como é roliço! Como é branco! Jamais ousarei espetar essa linda veia azul."

E, enquanto dizia isso, chorava, e eu sentia suas lágrimas choverem sobre meu braço que ela ainda segurava entre as mãos. Finalmente se decidiu, deu-me uma pequena injeção com a agulha e começou a bombear o sangue que escorria. Embora tivesse bebido apenas umas gotas, o medo de me esgotar a invadiu, e, depois de esfregar a ferida com um unguento que a cicatrizou na mesma hora, cuidadosamente enrolou uma bandagem no meu braço.

Eu não podia mais ter dúvidas, o abade Sérapion tinha razão. No entanto, apesar dessa certeza, não conseguia deixar de amar Clarimonde, e de bom grado teria lhe dado todo o sangue necessário para manter sua existência artificial. Aliás, eu não sentia um grande medo; para mim, a mulher poderia ser uma vampira, e o que eu tinha ouvido e visto me tranquilizava de vez; na época minhas veias eram abundantese não secariam tão cedo, e eu não barganhava minha vida gota a gota. Eu mesmo teria cortado o braço e lhe dito: "Bebe!, e que meu amor se infiltre em teu corpo junto com meu sangue!". Evitava fazer a menor alusão ao narcótico que ela havia despejado no meu copo e à cena da agulha, e vivíamos na mais perfeita harmonia.

No entanto, meus escrúpulos de padre me atormentavam mais que nunca, e não sabia que nova maceração inventar para domesticar e mortificar minha carne. Embora todas essas visões fossem involuntárias e eu não participasse de nada, não me atrevia a tocar no Cristo com mãos tão impuras e um espírito conspurcado portais deboches reais ou sonhados. Para evitar cair nessas exaustivas alucinações, tentava me impedir de dormir, com os dedos mantinha as pálpebras abertas e ficava em pé encostado nas paredes, lutando contra o sono com todas as minhas forças; mas logo a areia do adormecimento rolava em meus olhos, e ao ver que toda luta era inútil eu baixava os braços desanimado e cansado, e a torrente me arrastava denovo para as praias pérfidas.

Sérapion me fazia as exortações mais veementes, e criticava duramente minha moleza e meu pouco fervor. Um dia em que estive mais agitado que de costume, ele me disse:"Só há um meio de você se livrar dessa obsessão, e, mesmo sendo extremo, temos de empregá-lo: para os grandes males, grandes remédios. Sei onde Clarimonde foi enterrada; precisamos desenterrá-la para que você veja em que estado lamentável está o objeto do seu amor; você não será mais tentado a perder sua alma por um cadáver imundo devorado pelos vermes e prestes a se desmanchar em pó; isso certamente o fará voltar ao bom caminho." Quanto a mim, estava tão exausto com essa vida dupla que aceitei: querendo saber, de uma vez por todas, quem, se o padre ou o nobre, era tapeado por uma ilusão, estava decidido a matar em proveito de um ou outro um dos dois homens que havia dentro de mim, ou a matá-los ambos, pois aquela vida não podia durar.

O abade Sérapion muniu-se de uma picareta, de uma alavanca e de uma lanterna, e à meia noite nos dirigimos para o cemitério de ***, cujos jazigos e disposição ele conhecia perfeitamente. Depois de virar a luz da lanterna para as inscrições de vários túmulos, chegamos enfim a uma lápide meio escondida pelo mato e devorada por musgos e plantas parasitas, onde deciframos esse início de inscrição: Aqui jaz Clarimonde/Que foi em vida/A mais bela do mundo. "É aqui mesmo", disse Sérapion, e pondo no chão a lanterna enfiou a alavanca nointerstício da lápide e começou a levantá-la. A pedra cedeu, e ele pôs mãos à obra, com a picareta. Eu, mais negro e mais silencioso que a própria noite, o observava; quanto a ele, curvado sobre seu trabalho fúnebre, pingava de suor, ofegava, e sua respiração apressada lembrava um estertor de agonizante.

Era um estranho espetáculo, e quem nos visse de fora mais acharia que éramos profanadores e ladrões de mortalhas do que sacerdotes de Deus. O zelo de Sérapion tinha algo de duro e de selvagem que o fazia parecer um demônio, mais doque um apóstolo ou um anjo, e seu rosto de feições austeras e profundamente acentuadas pelo reflexo da lanterna não tinha nada de pacífico. Senti meus membros porejarem um suor glacial, e meus cabelos se arrepiavam dolorosamente na cabeça; no fundo de mim mesmo considerava a ação do severo Sérapion um sacrilégio abominável, e gostaria que do flanco das nuvens escuras que rolavam pesadas acima de nós saísse um triângulo de fogo que o reduzisse a pó. Os mochos empoleirados nos ciprestes, inquietados pelo brilho da lanterna, vinham fustigar o vidro com suas asas poeirentas, soltando gemidos queixosos; as raposas ganiam ao longe, e mil ruídos sinistros se soltavam do silêncio.

Finalmente a picareta de Sérapion bateu no caixão, cujas pranchas ressoaram comum ruído surdo e sonoro, com aquele barulho terrível que e mite o nada quando tocado; ele virou a tampa, e entrevi Clarimonde pálida como o mármore, as mãos postas; seu sudário branco formava uma só prega da cabeça aos pés. Uma gotinha vermelha brilhava como uma rosa no canto de sua boca descorada. Diante do que viu, Sérapion ficou furioso: "Ah!, estás aí, demônio, cortesã, impudica, bebedora de sangue e ouro!, e aspergiu de água benta o corpo e o caixão sobre o qual traçou com o próprio aspersório a forma de um crucifixo. Mal a pobre Clarimonde foi tocada pelo santo orvalho, seu belo corpo ruiu em pó; não foi mais que uma mistura horrivelmente disforme de cinzas e ossos semicarbonizados. "Aí está a sua amante, senhor Romuald", disse o padre, inexorável ao me mostrar aqueles tristes despojos; "ainda estará tentado a passear no Lido e na Fusine com sua beldade?" Baixei a cabeça; uma grande ruína acabava de se formar dentro de mim.

Retornei ao presbitério, e o senhor Romuald, amante de Clarimonde, separou-se do pobre sacerdote, a quem por tanto tempo fizera uma estranha companhia. Só que na noite seguinte vi Clarimonde; ela me disse, como na primeira vez sob o pórtico da igreja: "Ai de ti! Ai de ti! Que fizeste? Por que escutaste esse padre imbecil? Não eras feliz? E o que eu tinha te feito para violares meu pobre túmulo e desnudar os horrores do meu nada? Doravante está rompida qualquer comunicação entre nossas almas e nossos corpos. Adeus, terás saudades de mim." Dissipou-se no ar como fumaça e não tornei a vê-la.

Que pena! Ela falava a verdade: senti saudades dela mais de uma vez e ainda sinto. A paz de minha alma foi bem dispendiosamente comprada; o amor de Deus não era tão grande para substituir o dela. E essa, irmão, a história de minha juventude. Jamais olhe para uma mulher, e ande sempre com os olhos fitos na terra, pois, por mais casto e calmo que você seja, basta um minuto para fazê-lo perder a eternidade.


Breve comentário sobre o autor:

Théophile Gautier (1811 - 1872)

Poeta, novelista, jornalista, crítico de arte e de literatura francês nascido em Tarbes, no Hautes-Pyrénées Departement, precursor do parnasianismo francês e cuja grande produção literária incluiu peças de teatro, obras de crítica e história da arte, e, em parceria com Vernoy de Saint-Georges, foi o autor do roteiro do famoso balé Giselle.

Tornou-se famoso com sua novela Mademoiselle de Maupin em 1835. Foi contemporâneo de Flaubert, Sainte-Beuve e Baudelaire, sendo respeitado por estes.

Figura proeminente por cerca de 40 anos na vida artística e literária de Paris, produziu ainda obras fantásticas e notáveis, contos exóticos e de temas sobrenaturais, como La Mort Amoureuse (1836) e La Comédie de la Mort (1838). Entre seus escritos críticos se destacaram Histoire de l'Art Dramatique Depuis Vingt-Cinq Ans, 6 vols (1858-1859) e Rapport sur le Progrès des Lettres Depuis Vingt-Cinq Ans (1868). Outras publicações interessantes foram Le Roman de la Momie (1858) e Le Capitaine Fracasse (1863).


Fontes: