15 de março de 2011

Filhos de Galagah

          Há uns 150 anos, um certo matemático contaria uma pequena história para três crianças, numa tarde quente ao longo do rio Tâmisa. Daquela brincadeira, o resultado seria um pequeno livro, rapidamente rotulado como infantil, que para muitos marca o início de um estilo que perdura até hoje: a fantasia.
          Ganhando detalhismo milimétrico com Tolkien, significado espiritual com C. S. Lewis, sarcasmo com Lemony Snicket, non-sense absoluto e insubstituível com Lewis Carroll (o matemático do parágrafo anterior), coerência científica e teológica com Philip Pullman ou mesmo pitadas (muitas vezes grandes pitadas) de terror e profundidade com Gaiman, a fantasia na literatura descende diretamente dos contos de fadas medievais, que por sua vez descendem das respectivas mitologias e culturas dos povos que criaram estes contos. Até hoje a fantasia leva milhões às páginas, de papel ou eletrônicas, de livros e mais livros com histórias e mais histórias, cada uma tentando conquistar o seu lugar ao sol. Algumas até conseguem a sua luz, mas por não terem “raízes” acabam sendo queimadas e logo perecem no esquecimento.
          E qual não foi a minha surpresa ao descobrir, num lugar que jamais presumiria tal coisa, um escritor de fantasia bem próximo do meu cotidiano?!
          Leandro Reis “Radrak” é o autor da série Legado Goldshine, cujo primeiro livro, Filhos de Galagah, tive a oportunidade de ler. Como estreia do escritor, o livro foi inspirado em uma longa crônica de RPG, mestrada por ele mesmo para seus amigos. Porém, a partir de algo simples – escrever a longa crônica como presente para esses amigos –, o gosto por escrever foi crescendo, e a série foi então iniciada. E sobre o que o livro fala?
          Basicamente, é uma história de heróis, dragões, magos e senhores do Escuro. Basicamente, eu disse. Passando por vários, inúmeros lugares comuns – heróis cheios de fé em algum código de justiça que sequer ousam pensar em desafiar, raças e mais raças de criaturas praticamente iguais, vilões absolutamente e completamente maldosos e malignos e cruéis – o livro não surpreende de início. Parece mais um dos muitos ecos do que foi J. R. R. Tolkien. Até entrar a Bruxa Vermelha em cena.
Iallanara, a Bruxa Vermelha
          Iallanara – sem dúvida alguma a minha personagem preferida – contém algo difícil de se ver em personagens principais: dois lados opostos guerreando entre si, com profundidade. Mesmo em clássicos como Crônicas de Nárnia, os personagens principais são inerentemente bons, haja o que houver, corrompidos ou não. Com Iallanara, a Bruxa Vermelha, é diferente, pois ela é – pasme – indefinível. Seus sonhos, seu amigo invisível (um detalhe de que realmente gostei), sua sinceridade em relação ao mundo (ela não finge que quer algo bom, ela simplesmente não quer) e sua extrema falta de sinceridade consigo mesma a tornam a personagem mais interessante do livro. E talvez até aqui pareça que ela é a personagem principal, correto?
Galatea Goldshine
          Não. Galatea Goldshine, a princesa devotada, leal e pura, decidida a ser paladina, é a protagonista. O grande problema de Galatea, como algumas outras críticas também apontam, é a sua falta de espontaneidade, seja no comportamento, seja nas escolhas. Isso porque ela jamais escolhe. O seu destino está escrito e ela simplesmente o segue, mesmo que para isso tenha que fazer certa vista grossa a maldades à sua volta. Sempre recebe ajuda, sempre consegue no final, e isso torna o suspense algo um tanto quanto ausente em certos momentos – você sabe que, seja como for, ela vencerá, nem que para isso um deus dragão mais poderoso que tudo tenha que intervir (e acredite, isso acontece). Chega a ser realmente agradável quando Iallanara expõe suas opiniões sobre Galatea, sobre sua suposta coragem, suposta honra.
          Além das duas personagens opostas, há mais alguns outros personagens, que em alguns momentos chegam mesmo a ser interessantes, chegam a chamar a atenção, porém esses momentos não parecem ser muito aproveitados. Mesmo os vilões não tem nenhuma dualidade, nenhuma escolha: são de certa forma iguais a Galatea, pois apenas cumprem seus papéis de matar, pilhar e destruir. Não há confrontos internos, não há como não odiar o vilão. Não fosse por Iallanara, o livro seria inteiramente maniqueísta.

          Quanto ao universo criado, de nome Grinmelken, há pontos muito bons e alguns não tão bons. A engenhosidade de alguns cenários, como a cidade voadora de Lemurian, realmente impressiona: mesmo que de início a ideia pareça bizarra, em pouco tempo faz total sentido dentro das explicações dadas. O primeiro livro se atém a poucos cenários, o que é bom, pois permite que estes sejam mais bem descritos e construídos. A mitologia criada também é muito boa, contendo a ideia central do equilíbrio entre tudo. Porém, em certos momentos há algumas incoerências com esse suposto equilíbrio: a própria vitória absoluta que Galatea tanto almeja não equilibraria as forças. Há de se falar também das magias lançadas por magos, feiticeiros e pela própria Bruxa Vermelha: há uma forte ressonância com magias de alguns sistemas e cenários de RPG. As magias são bem usadas, criando batalhas interessantes, porém o típico “dedo de Deus“ nas situações em que o bem perderia realmente chega a irritar.
O Aspecto de Orgul
          Por fim, um detalhe interessante no livro, que talvez o tenha tornado diferente da vasta maioria para mim: a quantidade grande de cenas mais fortes do que o habitual para o estilo. Noites semelhantes a clássicos de terror, rituais macabros, ou mesmo a presença de torturas em vários momentos, tornam a narrativa mais densa do que se suporia para um livro desse porte. Porém, faltam descrições com mais profundidade – emocional principalmente – na maioria das cenas, o que deixa o sabor de oportunidade desperdiçada em vários momentos.
          Li somente o primeiro livro por enquanto, que segundo o próprio autor foi mais uma experiência que uma tentativa de fato. Levando isso em conta, e considerando ainda que a história nasceu de uma crônica de RPG (que amiúde não segue os padrões de roteiro de um livro comum), Filhos de Galagah é uma ótima estreia. O segundo livro da série, O Senhor das Sombras, contém, segundo críticas, mais profundidade que o primeiro. Quanto ao terceiro e último livro, Enelock, ainda está sendo escrito por Leandro Reis, e deve ser lançado em alguns meses.
          É algo realmente especial conhecer alguém que se empenhou e conseguiu concluir dois livros e está para terminar o terceiro de uma série de fantasia. Sinceramente, já havia desistido de encontrar bons livros de fantasia recentes. Filhos de Galagah não impressiona, mas é uma boa promessa. Esperemos que esta se cumpra, e que assim a série, a história e principalmente o estilo do autor consigam criar fortes raízes para resistir ao calor abrasador do esquecimento.

          Há também um site, que contém contos, trechos dos livros e curiosidades sobre o mundo de Grinmelken. Vale a pena conferir, é uma ótima prévia: