12 de dezembro de 2011

Poslúdio

Deito palavras frias
Não dormem, não calam
Quedei ante a visão
Cortinas fechando
A nenhuma plateia

Se o palco não abriga
Se o infernal picadeiro
De risos blasfemos recheado
Não me acolhe qual filho
Terei eu ao menos uma poltrona?

O grito verteu feliz
A face tornou a ter cor
Traços e letras e notas
Concentrados à única plateia
A arte do ressuicídio

Mas o sangue pulsou
E, da peça que fiz
Sobrou a fraca luz
A um palco exangue

É verdade que saltei
E voei com asas de cêra
Corpo rompido, no chão

Cala-te, não deduz
Detestável apócrifo juiz
Que és em tuas páginas
A me lembrar o que ali
Dedos meus destilaram

És apenas meu refúgio
Apodrecido Circo incolor
Emudece tua dança
Apaga teu som

Que eu quero o vazio
O silêncio me empresta
A audácia leviana do infeliz

Que eu quero o incolor
Sem luz me alimento agora
Da desejada força

Liberto como jamais quis.



Escrito no Circo, em 10/12/2011, às 21h.

Ouvindo Open Ground (Tristania),
Gloomy Sunday e The Art of Suicide (Emilie Autumn)

Imagem: cena de Destino, de Salvador Dalí e Walt Disney.

29 de novembro de 2011

A Irrelevância da Música

Qual o seu artista musical preferido? Ah sim, claro. Ele/ela tem realmente uma beleza estonteante. E sua atitude é sem dúvida parte intrínseca de sua arte. As letras das músicas são verdadeiros poemas, talvez em línguas mortas ou dissecando problemas sociais. Inegável dizer, também, que suas roupas, seus conflitos e as declarações na mídia são totalmente coerentes com sua revolta contra a sociedade. Mas.... espere.... e a sua música?

Geralmente, quando se fala de música, é ela própria o que menos importa. Por mais paradoxal que possa soar esta afirmação, ela é plenamente verificável em qualquer discussão a respeito do assunto. Seja na informalidade de uma mesa de botequim ou na mídia mais especializada, há quase sempre uma série de fatores que se sobrepõem ao dado sonoro, obstruindo sua apreciação.

Recebi muito recentemente um link, por compartilhamentos de redes sociais, do Paulo Raposo, um compositor do Vale do Paraíba, São Paulo, mais precisamente de Pindamonhangaba. O link em questão é o texto intitulado A Irrelevância da Música, publicado em março de 2008 no portal Trópico da UOL, de autoria de Matheus G. Bitondi, e que discursa sobre a minúscula importância real que se dá à música quando falamos de música.

E o mais interessante é que o texto não se limita à música popular, como se poderia supor. A própria música erudita, com seus "deuses" inatingíveis, é colocada em foco.


Enfim, um texto que vale a pena ser lido e ponderado.

28 de novembro de 2011

Autores, Leitores e outras promoções...


No Brasil existem muitos autores, contudo, a grande maioria sofre para lançar seus livros, além de muitas outras dificuldades, que os tornam verdadeiros guerreiros. Erika Monterisi é um deles...

A internet se tornou uma ferramenta aliada dos autores, que inovam sua relação com leitor, tornando-a mais próxima, além de criar novas formas de divulgação do seu trabalho.

Uma dessas formas são as parcerias com blogs, que praticam sorteios, possibilitando aos leitores chances de conhecer autores nacionais. O site Viagem Imaginária é um desses e está com uma promoção até o dia 15/12, para sortear o livro Sol & Lua!

Vale a pena conferir!

Para resenha do livro leia a resenha do Sonata Escarlate sobre Sol & Lua.

Vida e Morte da Porraloca!


Ninfomaníaca? Bêbada? Viciada? Não existem adjetivos próprios e impróprios que descrevam Rê Bordosa. A diva do mundo underground é uma criação do cartunista Angeli.

Criada em 1984, Rê Bordosa era o símbolo de uma época: mulheres entrando na meia idade que viviam seus problemas existenciais em meio ao sexo livre, drogas e tudo o mais que viesse. Uma personagem de caráter escrachado e sem qualquer pudor, o que confere todo seu charme.

Personagem de maior sucesso de Angeli, Rê Bordosa fez sua primeira aparição na antiga revista Chiclete com Banana, e fez grande sucesso. Tamanho, que foi morta pelo autor, para que ela não estigmatizasse a carreira do mesmo. Aqui uma entrevista retirada do site Universo Hq, onde o autor comenta sua conturbada relação com a personagem:

Pergunta - Exatos 13 anos depois da morte da Rê Bordosa, a personagem ainda te incomoda?

Angeli - Bom, creio que não me incomoda mais. Até porque o que mais me angustiava era a possibilidade da existência dela se tornar um grude na minha carreira. Daí a decisão de matá-la.

Pergunta - Você já comentou que começou a se sentir incomodado com a possibilidade da personagem ficar maior do que o autor. Foi isto que o levou a parar de publicar tiras da personagem?

Angeli - Sim, é verdade. Sempre me irritou muito em entrevistas de outros desenhistas aquela coisa do "mundo encantado de Maurício de Sousa", ou "mundo encantado de Saci Pererê" (Ziraldo). Enfim, o mundo encantado de qualquer coisa. O meu projeto não tinha muita pretensão de seguir uma trajetória específica, mas a visão que eu tenho do meu trabalho é que, no todo, ele resulte em uma crítica de comportamento, no qual todos os personagens, charges e textos se juntem em uma crítica só.

Pergunta - No caso de Rê Bordosa, a personagem seguiu um caminho diferente, fugiu a seu controle?

Angeli - Quando eu percebo que alguma coisa está tomando um rumo que sai um pouco fora deste projeto, começa a me incomodar. E a Rê Bordosa, de alguma forma, estava apagando o brilho dos outros personagens.

Pergunta - Como assim?

Angeli - Ela era uma personagem muito forte e gostosa de trabalhar, mas problemática. O meu medo foi sempre de ter que carregá-la e me ver obrigado a desenhá-la até por uma questão de mercado. O leitor gosta, funciona, claro. Mas se eu fosse fazer um livro tinha que botar ela na capa, e isso começou a me incomodar. Qualquer proposta que de trabalho, era com a Rê Bordosa em primeiro lugar. E meu objetivo era fazer uma coisa mais ampla do que uma personagem.

Pergunta - A Rê Bordosa foi assassinada há 14 anos. Ela era muito voltada a mulher daquela época (1984 a 1987). Você acha que atualmente existem muitas Rê Bordosas por aí?

Angeli - As leitoras da época da Rê Bordosa continuam muito fiéis a ela. As mulheres de hoje que não a leram, possuem os mesmos problemas que ela tinha na década de 80. Creio que agora a autodestruição, através do sexo, do álcool e do cigarro é menor. Esta geração ainda tem um sentimento de culpa, problemas de adequação com o sexo oposto, com uma sociedade machista e também diante do que as mulheres acham o que é certo ou errado.

Pergunta - Como você contextualizaria sua personagem naquela época?

Angeli - A Rê Bordosa era um corpo estranho no movimento feminista ou machista, seja o que isso fosse. Então, hoje em dia ainda tem esses problemas, mas a forma de atuar é diferente. Talvez a droga que se usa hoje seja diferente e o álcool não esteja tão presente. E tem também a AIDS, que mudou muito o comportamento das mulheres.

Pergunta - A Rê Bordosa nasceu em 1984 e morreu em 1987. A AIDS já estava começando a ser discutida. Hoje, você acha que, com o tempo, a AIDS poderia mudar o comportamento da personagem?

Angeli - Acho. Eu não gostaria de mudar o meu personagem por causa de uma doença que surgiu. Mas, sem dúvidas, o comportamento sexual da mulher de hoje mudou. Fazer loucuras sexuais não é mais a mesma coisa de quando a Rê Bordosa fazia. Como, por exemplo, levar um time de futebol para dentro da banheira. Acredito que isto não existe mais.

Pergunta - Em algum momento da vida você se sentiu Rê Bordosa?

Angeli - Pode falar de uma década toda (risos)

Pergunta - Conte uma história de Rê Bordosa que você tenha vivido...

Angeli - Uma vez rolou uma bebedeira muito grande, e eu e o Homero (amigo de infância) acabamos presos na 4ª delegacia. Fizemos um teatro lá dentro, estávamos tão bêbados que começou a achar engraçado tudo aquilo. Tomamos umas porradas e pontapés e mandaram a gente embora.

Tinha um poste na frente da delegacia, e a coisa que nós dois mais queríamos era fazer xixi. Então, descemos as escadas, paramos no poste e começamos a mijar, um de cada lado do poste. Acho que isso é uma atitude de Rê Bordosa.

Tem também um outro caso que aconteceu em Ouro Preto, Minas Gerais. Eu e Glauco (cartunista) ficamos bebendo uma semana inteira, e fomos atrás das menininhas da cidade. Nessa mesma viagem, arrumei uma namoradinha e fui para a casa dela. Fiquei lá um tempo, namorei e tudo. Umas 6h da manhã, eu falei: "Não vou dormir aqui, vou para minha casa". Saí de lá, mas esqueci que Ouro Preto é feita de ladeiras intermináveis, e eu não havia calculado o quanto tínhamos andado de madrugada até chegar na casa da menina. E foi um sufoco até chegar no hotel, eu me arrastava por aquelas ladeiras, com os bofes para fora. De repente abrem uma fresta de uma janela e gritam: "Aí, Angeli, tá longe de casa, hein, meu?" Eu só consegui lançar uns grunhidos, mas não tinha nem ideia de onde vinha o grito.

Para matar a saudade dos fãs, a Devir / Jacarandá lança uma coleção com as obras de Angeli. Rê Bordosa, vida e obra da porraloca é o terceiro volume da série Sobras Completas do autor.

Outra grande homenagem à personagem foi Dossiê Rê Bordosa, um curta metragem, feito em stop-motion, dirigido por César Cabral, que tenta explicar os motivos que acarretaram a morte de Rê Bordosa por seu próprio criador, o cartunista Angeli.




Links:

Sites Interessantes:
  • Universo Online - onde se encontra uma novela feita especialmente para internet, em que o autor ressuscita sua falecida personagem.
  • Dossie Rê Bordosa - um site onde você pode encontrar maiores informações sobre o curta.
  • Devir - site onde você pode encontrar informações sobre as publicações de Angeli.

12 de novembro de 2011

Herança

Lágrima
De onde saíste
Se não te dei asas?


Teu reflexo marca
As feições de tua raiz
Sente
Teus dedos tocam
A pele como tua origem

Olhar e não ver
Não senti mais
Como não existisse
Remontei o cenário
Recomecei a peça
Juiz, meu júri
E meu réu

Troca
É isto o teu abraço?
São aqueles os braços
Os laços que querias?

Ou tua fome ilusionou
A face fraca do tolo
Em fortaleza incorruptível
De onde sairia teu sangue?

Pois dali saiu
É este teu sangue
O mesmo fraco fugitivo

Toca teu corpo
Fala
Cada palavra tua
É o eco da intolerância
Cada gesto teu
É teu gesto ancestral

Livre?

Culpa de ser e não ser
Sentir sem sentir
Há aquele ainda?
São as cinzas amontoadas
Sujando teu lar

Pensar ainda
Ouvir não mais
Não ver nem lembrar
Mas o vadio pensamento
Dilacera teus passos

Imagens e sons e toques
Troca, apenas foi isso
A moeda que repousa
Em outro bolso lotado

E sempre
Sempre

Então olha
Tua carne é fraca
Teu sangue é podre
Teu horizonte é finito
Mas chora
Ao menos isso
É teu, não de teu par

Lágrima
Por que saíste
Apenas para desabar
O cenário do espetáculo?



Escrito no Circo em 11/11/2011, à 01:48 AM

Ouvindo Stairway to Heaven, Led Zeppelin

Imagem: Welcome Home by Pajunen

7 de novembro de 2011

É Dura a Vida no Campo

Procurando por tirinhas humorísticas para utilizar em trabalhos escolares, deparei-me com o autor Sávio Moura e sua obra É dura a vida no campo. Quadrinhos bem humorados, que possuem como pano de fundo a vida no campo dos pampas.

Não há como não rir com os personagens: Chiru Velho, Dona Palometa, Virso, Juracema, Chumim, O Porco, O Cavalo, A Coruja e O Galo. Com um humor simples, o autor explora toda a cultura gaúcha e o cotidiano do campo de forma espirituosa.


Um pouco do autor...


Sávio Moura nasceu em 18/07/1965, na cidade de São Luiz Gonzaga (região das Missões, noroeste do estado do Rio Grande do Sul). Vivendo em meio a cultura missioneira, se encantando pelos artistas Pedro Ortaça, Cenair Maicá, Jayme Caetano Braun e Noel Guarany (que formam o grupo Quatro Troncos Missioneiros), que valorizam e cantam a cultura da região sulina.

Em 1994, passou a colaborar no jornal A Notícia, como chargista. Dedica-se desde 2006 à tira É dura a vida no campo, criada para concorrer na 2ª Mostra de Artes do Atelier Los Libres.

No ano de 2007, recebeu uma homenagem na 2ª Feira do Livro Infanto Juvenil, realizada pela Prefeitura de São Luiz Gonzaga - SEMEC.

Abaixo seguem trechos de uma entrevista dada pelo autor ao jornal A Notícia (para ler na íntegra visite a página da entrevista):

A NOTÍCIA: Como surgiu a ideia de fazer a história em quadrinhos “É Dura A Vida no Campo”?

SÁVIO: Historicamente, quase todos os personagens de histórias em quadrinhos tiveram origem em tiras de jornais. Então considero uma evolução natural a criação de um gibi com os personagens da tira “É Dura a Vida no Campo”.

O projeto iniciou ainda em 2009, mas, pela sua complexidade, levou algum tempo para ser concretizado. Com tranqüilidade e com as histórias definidas, o projeto foi apresentado para a Editora Cassol, de Porto Alegre, que se interessou no gibi. Como o tema proposto vai de encontro ao que a editora trabalha, que são nossas tradições gaúchas, acredito que será uma boa parceria.

A NOTÍCIA: Quais as diferenças entre os livros publicados com as tiras de jornais e a revista?

SÁVIO: A produção de uma tira de jornal é muito rápida, pois a idéia já vem pronta, e o desenho pode ser feito em um instante. No gibi, as exigências quanto ao acabamento final é maior, e a produção de uma história leva mais tempo.

Os livros contêm todas as tiras publicadas, desde a primeira. São registros valiosos da evolução da história, com o surgimento e desenvolvimento de cada personagem. São edições luxuosas, e de custo mais elevado. Foi a partir daí que senti a necessidade de ter uma publicação mais acessível. A tira “É Dura a Vida no Campo”possui personagens fortes, com condições de sustentar histórias mais longas. Eu próprio tinha muita curiosidade de saber como o Chiru Velho e Cia. se comportariam em aventuras mais longas. E gostei muito do resultado final.

A NOTÍCIA: Como foi o processo de criação das histórias da revista?

SÁVIO: A criação das histórias seguiu um planejamento inicial: deveríamos ter uma história de mistério com o Chiru Velho, uma de romance com o Virso e a Juracema, e outra com o Porco e os bichos. A criação é completamente diferente de uma tira. Como são historias mais longas, é necessário seguir um plano: primeiro, faz-se uma resenha da história imaginada; ou seja, contar toda ela em texto. Baseado nisso, pode-se fazer o roteiro, que é um rascunho da história definindo o que irá em cada quadrinho. Com o roteiro definido, se começa o desenho a lápis. Depois, é hora da arte final, em nanquim. Em seguida, o desenho passa para o computador, para colocação dos diálogos nos balões e colorização. Após a revisão, a empresa de design faz a adaptação para as exigências da gráfica, a qual é contatada pela editora.

Para mais informações visite o site do autor.

6 de novembro de 2011

Flor de Neve e o Leque Secreto


Flor de Neve e Lírio são duas meninas que vivem na China do século 19. Embora vivam em condições de vida diferentes, elas possuem as mesmas obrigações: a de serem esposas perfeitas de maridos que nunca viram. A única escolha de uma mulher seria a da amizade, assim elas se tornam Iaotong, amigas por toda eternidade.

Mais tarde separadas elas passam a se comunicar por meio de leques, onde escreviam utilizando a escrita Nushu, conhecida somente por mulheres.

Paralela as histórias de Flor de Neve e Lírio, Nina e Sophia, duas amigas que vivem no século 21, descobrem a beleza da tradição do Iaotong, mas também descobrem a dificuldade de mantê-lo atualmente.


Flor de Neve e o Leque Secreto é baseado no livro de mesmo nome da autora Lisa See, e apresenta de forma sensível o universo dessas mulheres que sofriam a mutilação de seus pés, pois isso era o padrão de beleza da época. Embora aparentem fraqueza, as mulheres possuíam um universo único, paralelo ao mundo em que viviam. Tal universo ao meu ver é representado na escolha do Iaotong, o laço de amizade e amor que unia duas mulheres.

Contudo, o filme apresenta paralelamente a história de Nina e Sophia, que embora vivam em uma sociedade menos opressora, também possuem suas obrigações e tragédias pessoais. Assim, elas encontram na tradição do Iaotong uma forma de superação.

As duas tramas são emendadas, colocando uma nova perspectiva na história, que até então girava somente em torno do laço forte de amizade.

O silêncio que muitas vezes toma conta da cena é impressionante, sendo então completado por uma trilha sonora tocante. O filme conta um segredo para o espectador, e aqueles que interagem com as personagens parecem alienados, muitas vezes não compreendendo o comportamento das Iaotong.

Por fim, o filme termina com cenas belíssimas de telas em preto e branco.

Vale a pena conferir!


19 de outubro de 2011

Ziraldo


O que a mistura de Zizinha e Geraldo dá?

Ninguém sabe, mas a questão é no que deu, no cartunista, chargista, pintor, caricaturista, escritor, cronista, desenhista e jornalista brasileiro, todos eles reunidos na pessoa de Ziraldo Alves Pinto, ou somente Ziraldo.

Nascido em 24 de outubro de 1932, em Caratinga, viveu com sua família (os pais e sete irmãos) até 1949 onde foi para o Rio de Janeiro viver com o avô.

Em 1957 formou se na Faculdade de Direito de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Casou-se no ano seguinte com Vilma Gontijo.

Desde pequeno se interessava por desenhar e ler. Sua carreira começou na revista Era uma vez..., por meio de colaborações mensais. Em 1954, iniciou no jornal A Folha de Minas, com uma página de humor.

Fez inúmeros trabalhos jornalísticos, além de produzir, como artista gráfico, cartazes para inúmeros filmes do cinema brasileiro. Nos anos 60, seus cartuns e charges políticas eram publicados na revista O Cruzeiro e no Jornal do Brasil. Personagens como Supermãe e Mineirinho ficaram populares. Foi nesta época que lançou a primeira revista brasileira do gênero de quadrinhos feita por um só autor: A Turma do Pererê.

Em 1964, a revista foi encerrada pelo regime militar, e seus personagens só voltaram a ser publicados em 1975 pela Editora Abril.

Durante toda a ditadura, Ziraldo lutou contra a repressão fundando, juntamente com outros humoristas, O Pasquim, um dos principais jornais não-conformistas, que incomodou o regime militar até o fim deste.

Ganhador de vários prêmios e reconhecido internacionalmente, Ziraldo já foi até homenageado no carnaval de 2003 pela escola de samba paulista Nenê de Vila Matilde, com o enredo É melhor ler... O Mundo Colorido de um Maluco Genial.

Em 2004, ganhou com o livro Flicts o prêmio internacional Hans Christian Andersen.

Ziraldo é um gênio, seus livros contem um humor inocente, e sua arte gráfica insere ainda mais o tom infantil e leve. Arte gráfica que também pode ser identificada em logotipos, ilustrações, cartazes do Ministério da Educação, camisetas, entre outros.


O Joelho Juvenal conta a história do joelho de um menino, de sua infância até a vida adulta. Um livro bem interessante sobre o processo de amadurecimento.

"Era uma vez um joelho que se chamava Juvenal.
Juvenal tinha um problema, coitado: vivia todo escalavrado.
Também, quem mandou o Juvenal ser o joelho de um menino levado?
Juvenal queria muito aprender língua de menino só pra dizer assim: “Menino, tem dó de mim!”
Mas, quando o esfolado sarava, Juvenal bem que gostava de correr e de saltar.
E ele se desdobrava e se dobrava outra vez todo alegre, pois sabia que, indo e vindo, fazia o menino feliz."


O Menino Maluquinho conta a história de um menino traquinas, alegria da casa, líder da garotada, amigo de todas as horas, o mais sabido, o mais rápido. O livro é um relato de uma infância feliz. Veja a versão online.



O Bichinho da Maçã foi editado pela primeira vez em 1982. De forma alegre conta a história de um bichinho da maçã que adorava contar casos.



As Aventuras do Bonequinho de Banheiro, que utilizando de uma das mais conhecidas imagens do mundo nos traz a história de vida da mesma.


Existem muitas outras obras de Ziraldo, escritas e ilustradas, apenas ilustradas, são tantas que não cabem listá-las aqui, mas certamente é uma obra que vale a pena conferir!


Sites para visitar:

17 de outubro de 2011

O Salto

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"O que está dentro de mim dispensa e repudia
Os costumes e galas que imitam a agonia."
Hamlet, W. Shakespeare,
trad. de Millôr Fernandes
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Não sonhava mais
Ah que antes conseguia
Nem tentava, era dádiva
Presente de um rancoroso cansaço

Não mais dançava
Nem gritava calado
Sua procissão de silêncios
Não mais baixava olhos

Ouvia, de fato
E fazia soar as teclas
E traçava firmes as retas
Com o impulso do vento passado

Qual brasa que 'inda aquece
Mesmo o fogo tendo partido
Calava ainda multidões
De olhares mal dormidos

Brincadeira, ah joguete!
Um lance oportunista
De dedos exangues
Já sepultados em velhas páginas:

Eis que surgem olhos
O primeiro par deles na plateia
Quando já sumiam as luzes
E o sorriso já quase terminava

E voz, que chama e aprecia
Palavras sutis,
Suaves gestos leves
Em novas acrobacias

Tornou a dançar
E, já habilidoso, bailar
Pelo palco iluminado
Seu peito finalmente batia

Pontuando, aqui e ali,
Um menor, um diminuto
Por fim um pentatônico
Passo com os pés frios

Acendeu sua luz
Encarou a noite, pois valia
Encarou o tempo, ah, que valia
Pular o salto fatal da alegria

E fatal, bem... o foi
Sonhou seu poslúdio
Olhos brilharam, quimera!

Chegou-lhe o chão
Findou-se o sonho
Mas havia, ele, então sonhado?



Escrito no Circo, em 09/10/2011, às 3:50h.

Ouvindo a Valsa opus 64 nº 2,
de Frédéric Chopin

Imagem: estudo para uma provável
nova "capa" do Sonata Escarlate.

5 de outubro de 2011

A Invenção de Hugo Cabret

O livro conta a história do órfão Hugo Cabret, que vive em uma estação de trem na França no início do século XXI, onde cuida da manutenção dos relógios do lugar. Hugo possui um segredo, e este segredo lhe consome, porém sua vida muda ao ser pego roubando da loja de brinquedos da estação, onde o idoso dono do lugar e sua sobrinha aos poucos descobrem a verdade sobre o menino, e este aos poucos descobre que o seu segredo é bem maior e mais profundo.

O enredo do livro nos apresenta um pouco da origem do cinema, trazendo as emoções das primeiras apresentações de filmes ao grande público, a sensação de novidade, o medo, e principalmente toda a magia contida.

Lembrando um pouco de Will Eisner, o livro mescla ilustrações com texto, onde o autor tenta impregnar seu livro com um ar cinematográfico. Com ilustrações bem feitos, cenários bem construídos por meio do desenho, o autor não perde tempo descrevendo nada, concentra-se somente na história. Existem partes puramente visuais, e os efeitos de edição, os desenhos, além das sombras e enquadramentos, conferem uma atmosfera de suspense e perseguição como em um cinema.

O livro já foi adaptado para os cinemas sob a direção de Martin Scorsese ("Ilha do Medo"), e conta no elenco com: Asa Butterfield, Chloe Moretz, Jude Law, Helen McCrory, Ben Kingsley, Emily Mortimer, Christopher Lee, Sacha Baron Cohen, Ray Winstone. Deve estrear nos cinemas em 2012.

Um livro que vale a pena ler, uma leitura fácil, rápida (ainda que ele tenha 500 páginas), e leve. Vale a pena conferir o site do livro!

7 de setembro de 2011

Meredead - Leave's Eyes


Através da dica de um amigo voltei a ouvir Leave's Eyes, uma banda que respeito muito. A vocalista Liv Kristine e seu marido Alexander Krull sempre fizeram um Metal Sinfônico de qualidade utilizando como pano de fundo a mitologia nórdica.

Em seu novo álbum Meredead, a banda transcende seu gênero, apresentando um material, que embora não seja novidade, possui uma qualidade indiscutível. Os arranjos, as letras, os vocais todo o álbum apresenta uma atmosfera de velhas histórias ao pé da fogueira, que você se sente pronto a viajar à bordo de um Drakkar.

Meredead foi um mergulho profundo na história, segundo Liv Kristine no Myspace da banda: Quando começamos a compor as primeiras ideias de música para o nosso quarto álbum, todos nós estávamos muito ansiosos para dar mais um passo no reforço da sonoridade individual e no conceito do Leave's Eyes, como temos feito a cada álbum", comentou a vocalista, "Junto com o processo de composição, eu mergulhei nos temas das canções e em diversas fontes de literatura. Algumas músicas precisavam claramente de letras enraizadas na história e cultura do norte, bem como com temas místicos."

Sendo fã de inglês arcaico, decidi compor algumas das letras em inglês arcaico, o que é claro, inclui grandes estudos de conhecimento gramatico e fonético, o que eu gostei muito de fazer. Além de inglês arcaico e moderno, algumas canções são cantadas em norueguês, para manter sua força individual e focar em certos temas de gêneros especiais do canto norueguês.

Foi dado ao álbum o título Meredead. É uma criada por mim (pelo menos ainda não achei em dicionários) e pode significar "morte pelo/no mar", ou "mar mortal"".

É um álbum feito para fãs do gênero, para quem realmente aprecia, pois ele é bem repetitivo em um primeiro momento, mas cada música conta uma história, algumas chegam a ser verdadeiros chamados de guerra.

28 de agosto de 2011

Edith Piaf

Não! Sem arrependimentos
Não! Eu não terei arrependimentos
Todas as coisas
Que deram errado
Pelo menos terei aprendido a ser forte
Non, Je Ne Regrette Rien -Edith Piaf

Este trecho define muito bem Edith Giovanna Gassion, ou como ficou mundialmente conhecida Edith Piaf. Cantora e letrista francesa, nasceu em Paris em 1915, filha de um contorcionista acrobata e de uma cantora de cabaré.

A infância de Edith foi muito difícil, marcada por desgraças: seus pais eram alcoólatras, tendo sido abandonada pela mãe.

Aos 16 anos, ficou grávida de Marselle, que morreu aos dois anos. Marcada por essa tragédia, Piaf continuou a cantar nos cafés e clubes da Rua Pigalle, endereços recomendados na Paris da época.

Piaf teve sua vida transformada por Louis Leplée, proprietário do cabaré Gerny's, um dos mais conhecidos de Paris. Com seu sucesso, ficou conhecida como "Mome Piaf" (pequeno pardal).

Contudo, a vida voltou a castigar a jovem Piaf, visto que Leplée foi encontrado morto no clube que dirigia. A cantora foi suspeita do assassinato. A imprensa a acusou e a elite parisiense lhe voltou as costas. Assim, Edith Piaf voltou a misturar-se com as pessoas dos piores bairros de Paris, levando uma vida desregrada.

Piaf, no entanto, voltou a brilhar ao final da 2ª Guerra Mundial, voltando aos grandes cenários da França, Europa e da América. Tornou-se a grande dama da canção francesa, ajudando talentos emergentes. Em 1946, foi para New York onde conheceu o boxeador Marcel Cerdan, morto em 1949, quando sofreu um acidente de avião. Isso causou em Edith uma profunda depressão, que a fez utilizar álcool e tranquilizantes para superar o trauma. Esta foi a época de seus grandes sucessos: La Vie En Rose e Le Trois Cloches.

Em 1950, triunfou no Olympia, e em 1956 no Carnegie Hall, em New York. Porém, depois de um acidente, Piaf ficou desfigurada e tornou-se viciada em morfina. Com saúde frágil, em 1959 teve seu diagnóstico de câncer.

Morreu aos 47 anos, em Florence no ano de 1964.


Algumas obras de Edith Piaf:


Piaf - Um Hino ao Amor, em minha opinião, é uma belíssima homenagem a esta cantora. A caracterização da atriz Marion Cotillard se percebe nos trejeitos, resumindo a força e a fragilidade de Piaf.

A tragédia, as drogas, tudo é tratado de forma sutil, evidenciando a pequena e frágil Pardal, que se torna um verdadeiro cisne em palco.

O filme é uma delicada biografia, um trágico conto da vida de Piaf, mas também é um filme que nos fala de amor, em todas as formas, inclusive as mais cruéis.

21 de agosto de 2011

Cordel do Fogo Encantado

Uma vez ganhei uma camiseta, foto estranha, e nela estava escrito Cordel do Fogo Encantado. Tempos depois alguém me disse: "Essa banda é boa!"...Passado muito tempo depois... Depois da camiseta, depois da pessoa que me falara, eu vi um poema, e o poema era bom, veio alguém e disse novamente "da banda boa", ai ouvi com atenção, ouvi prestando a atenção devida, ouvi sem interferência da mente...e exclamei "Essa banda é boa!"


A banda Cordel do Fogo Encantado nasceu em Arcoverde, Pernambuco. Formada por José Paes de Lira, ou Lirinha, Clayton Barros e Emerson Calado, mais tarde em Recife, recebeu a adesão de Nego Henrique e Rafa Almeida.
A banda mistura elementos de poesia, música, espetáculo teatral, suas apresentações surpreenderam pela magia do clima teatral, pela força de sua sonoridade, utilizando misturas ousadas de instrumentos percussivos com a harmonia do violão raiz.
Sempre surpreendendo, atraindo críticas positivas sobre o trabalho a banda teve seu fim em fevereiro de 2010, quando Lirinha anunciou a sua saída, alegou que tinha necessidade de trilhar novos caminhos.

Cordel do Fogo Encantado (2001)


O Palhaço do Circo Sem Futuro (2002)


MTV Apresenta (2005)


Transfiguração (2006)

15 de agosto de 2011

Enelock

"A meu ver, quem escreve para crianças pode abordar seu trabalho de três maneiras: duas são boas, e uma, em geral, é má."

C. S. Lewis, Três Maneiras de Escrever para Crianças

A frase acima inicia um belo ensaio do renomado autor d'As Crônicas de Nárnia - uma das grandes obras da literatura dita "infanto-juvenil". Em tal artigo, Lewis descreve três arquétipos de escritores para crianças, que ao seu ver são de certa forma comuns. Porém, apesar desse ensaio tratar especificamente da literatura para crianças, esses arquétipos podem ser estendidos à literatura como um todo. É possível enxergar, com certa clareza e nitidez, três tipos de escritores - e não apenas hoje em dia, mas em toda a história da literatura:

Há aqueles que escrevem seguindo os paradigmas já presentes, que seguem fórmulas predeterminadas e que, invariavelmente, garantem um sucesso rápido, estrondoso e, naturalmente, momentâneo. Escrever assim é pensar milimetricamente em como agradar ao leitor. Tais escritores conquistam fãs muito mais pela velocidade com que espalham suas obras do que pelo conteúdo delas. Conquistam também o desprezo de alguns poucos. E as obras escritas sob esse arquétipo, apesar de terem por vezes o poder de nos cativar, de nos fazer rir ou chorar, não nos fazem realmente contestar a ordem natural das coisas. Nesse arquétipo podem ser inseridos muitos dos best-sellers atuais e passados.

Há ainda os escritores que percebem essa falta de profundidade e decidem quebrar os paradigmas existentes. Quebram com as ideias, as regras predefinidas e, fazendo as suas próprias e moldando a arte à sua vontade, criam formas novas. Escrever assim é empunhar uma espada. Tais escritores conquistam não apenas seguidores, mas também inimigos. Não há, para estes, o desprezo, pois suas obras não são "mornas", não permitem a indiferença. As obras desse arquétipo normalmente nos chocam, fazem-nos contestar a ordem do mundo à nossa volta. Nesse tipo de literatura podem ser classificadas a maioria das obras imortais, e algumas poucas da atualidade.

E há, por fim, aqueles que escrevem para si mesmos. Não escrevem com fórmulas, ou empunhando armas, mas escrevem com seu sangue, com sua alma. Não seguem nem quebram paradigmas, pois estes não se aplicam a esse tipo de literatura. Tais escritores por vezes não conquistam fama, mas sim a eternidade. Suas obras não são vendidas como água em cada banca de esquina por dois ou três anos, mas são lidas e compartilhadas nas bibliotecas. Tais obras não nos fazem contestar apenas o mundo à nossa volta: fazem-nos contestar a nós mesmos. Todas as obras imortais pertencem a esse tipo, e raríssimas obras atuais também.


Nessa última semana terminei de ler o terceiro e último livro da série Legado Goldshine, Enelock, do escritor Leandro Reis, de São José dos Campos, SP. Que impressão fica nesse fim de trilogia?

O livro começa intenso, e permanece assim ao longo dos capítulos. Seguindo a evolução encontrada nos outros dois livros, cada personagem é desta vez descrito de maneira mais profunda, sendo exibidos os problemas pessoais que levaram aos acontecimentos maiores do universo de Grinmelken.

Galatea Goldshine continua em sua busca pelas três runas sagradas de seu deus, Radrak, mas desta vez não há como alcançar o portador da terceira runa. Seu maior inimigo, Enelock, mantém tal portador como prisioneiro, usando-o como isca para que os exércitos de todos os reinos venham lutar e sangrar em sua própria terra, Ars Nibul. O interessante nesse livro é que Galatea não é mais a guerreira toda-poderosa do primeiro livro, nem planeja com cuidado cada passo como no segundo. Galatea está cansada. Cansada pelo mundo à sua volta, cansada pela sua impotência, cansada por si mesma. Galatea brilha, mas seu brilho não é mais do que o brilho intenso de uma lâmpada antes do fim. A personagem evoluiu, na série como um todo, de uma mera heroína banal, superestimada por todos e extremamente irreal de fato, para uma mulher que não pode aproveitar os poucos momentos bons que tem devido às suas obrigações com seu reino e o mundo, uma pessoa com feridas profundas demais para cicatrizarem.

Iallanara Nindra, por sua vez, segue seu caminho, com suas próprias lutas e seus próprios inimigos. Não é segredo, e isso já desde a primeira resenha que fiz sobre a série, que Iallanara é minha personagem favorita. Mas, em determinados momentos, cheguei a supor que o mais interessante nessa personagem havia morrido com o fim do segundo livro: a dualidade e a profundidade. Não havia mais aquela dúvida quanto aos seus objetivos, e suas intenções pareciam claras demais, óbvias demais. Porém, isso só tornou mais interessante o momento em que Iallanara mostra quem realmente é, e por que ainda estava ali. A personagem, que já possuía profundidade suficiente para torná-la quase real, nesse livro se torna, assim como Galatea, uma mulher dona de suas próprias ações. As obrigações de Iallanara são um tanto quanto diferentes das de Galatea, mas é fato que há também feridas abertas. Porém, há em Iallanara algo dos grandes personagens da literatura: a imprevisibilidade. Não digo isso por uma determinada verdade acerca da personagem, mas sim pela sua própria natureza. Ela não segue a lógica, muito menos a ordem. E, muitas vezes, não segue sequer a si mesma.

Os dois elfos que acompanham Galatea desde o primeiro livro, Sephiros e Gawin, continuam ao seu lado mas, dessa vez, não são apenas coadjuvantes que nos entretem nos momentos de monotonia. Cada um tem seus próprios problemas, seu passado e, talvez, um futuro, ganhando personalidades mais realísticas.

E, por fim, o personagem-título do livro. Enelock, o Lorde Supremo dos Mortos, que mal havia sido citado no primeiro livro, com uma participação quase ínfima no segundo, desta vez se torna o centro das atenções. Diferente do que eu supunha desde o começo desta série, o vilão não seguiu os padrões de outros livros de fantasia - um ser pura e completamente mal. Enelock também tem seus próprios problemas, e até mesmo seus próprios motivos. Em certos momentos, chega-se mesmo a torcer para que ele consiga encontrar sua redenção. E, dessa forma, o fato de seu maior inimigo ser uma mulher faz todo o sentido (quem ler entenderá). Como toda boa história de fantasia, Legado Goldshine possui um vilão de peso, que não mede esforços, que sabe os pontos fracos dos inimigos, mas que desconhece alguns dos seus próprios. Como todo bom vilão, Enelock acredita que o que faz é necessário e correto.

Dignas de nota são também as descrições dos "anões" de Grinmelken. Contrariando as descrições comuns por um lado, e por outro elevando-as ao máximo, o autor criou uma raça de criaturas interessantes, que poderiam certamente ser mais bem descritas em obras posteriores - o que de fato não cabia a esse livro. Também interessante é a descrição da criatura "criadora" dos vampiros. Semelhante às descrições de um certo sistema de RPG, tal personagem incita ao mesmo tempo o terror e a devoção.

Olhando um pouco além dos detalhes, é possível enxergar uma distina evolução entre os três livros da série. Filhos de Galagah, o primeiro, segue todas as fórmulas já bem conhecidas das histórias de fantasia, focando na honra e em personagens poderosos. O Senhor das Sombras, o segundo, quebra com essas mesmas fórmulas, além de romper com o conceito pelo qual uma história de fantasia deve, mesmo que contenha sangue e luta, ser leve - o segundo livro não é nem um pouco leve. E Enelock?

Em Enelock, novamente as fórmulas de histórias de fantasia são quebradas, mas esse não é mais o foco. Nem mesmo a honra e a glória são o foco. É possível sentir aquilo que se sente quando se lê uma história daquele terceiro tipo de literatura. Os principais personagens se tornam reais, é possível quase enxergá-los à nossa frente, não porque suas feições sejam bem descritas, mas porque suas personalidades são plausíveis. É plenamente possível enxergar Galatea em determinadas pessoas, Iallanara em outras, Sephiros, Gawin... E, infelizmente, é também possível enxergar Enelock em muitas pessoas.

Legado Goldshine termina com uma obra que é o que toda arte deve ser: um espelho dos seus espectadores. Porque, afinal, como Oscar Wilde bem disse, é o espectador, e não a vida, que a arte, na verdade, espelha.

No site/blog da série é possível ainda ler contos, ver entrevistas e ler os artigos publicados pelo próprio Leandro Reis e, naturalmente, comentá-los.

Há também uma entrevista dada pelo autor à Revista Fantástica, com uma mensagem interessante a escritores iniciantes.


Este artigo faz parte do Booktour do Legado Goldshine, promovido pelo autor em seu blog. Leia também as outras resenhas feitas aqui no Sonata Escarlate:

E se você ficou curioso acerca das tais 'três maneiras de escrever para crianças', aquele ensaio citado no início deste artigo está no final do volume único d'As Crônicas de Nárnia.

14 de agosto de 2011

William Butler Yeats

William Butler Yeats, ou mais conhecido como W.B. Yeats é um grande poeta nascido em 13 de junho de 1865, em Dublin, Irlanda. Poeta e autor teatral, ganhou o Prêmio Nobel em 1923 de Literatura.

A obra de Yeats compõe-se de poesia lírica e diversas peças de teatro, inspiradas essencialmente na mitologia celta. Algumas de suas obras mais significativas são: "Cathleen ni Houlihan (1902)", "On Baile's Strand (1904)" e "Deirdre (1907)".

W. B. Yeats foi fundador em 1889, juntamente com a escritora Isabella A. Gregorym, o Irish Literaray Theather em Dublin, transformado mais tarde no Irish National Theatre Society, grande impulsionadora do teatro nacional irlandês, encenando peças de Yeats e J.M Synge.

Em 1887, W. B. Yeats se inscreveu em uma "Sociedade Teosófica", em Londres, onde se dedicou ao estudo dos escritos de William Blake e H.P. Blavastsky, além de alquimistas, rosacruzes, cabalistas, Sociedade Hermética de Dublin, a Ordem da Aurora Dourada.

Em 1917, casou-se com Georgie Hyde-Lees, que veio a se descobrir uma médium passando a psicografar.

Foi com os rabiscos produzidos por ela que W. B. Yeats compôs "Uma Visão", um tratado esotérico cheio de gráficos e descrições dos 28 tipos possíveis de personalidade (26 humanas e 2 sobrenaturais), de cuja matemática ele tirou versos e imagens, cumprindo o que sua esposa psicografara: "Nós viemos trazer-lhe metáforas para a sua poesia".


A ILHA DO LAGO DE INNISFREE

Erguer-me-ei e partirei já, e partirei para Innisfree,
E uma pequena cabana erguerei lá, de barro e vime feita:
Nove renques de feijão aí terei, uma colmeia de obreiras e
Viverei sozinho na ensurdecedora clareira.

E aí terei uma certa paz, porque a paz vem lentamente,
Caindo dos véus da manhã, até onde o grilo canta;
Onde a meia-noite é trémula, e o meio-dia é roxo brilho,
E a noite, de asas de pardais se completa.

Erguer-me-ei e partirei já, porque sempre noite e dia
Oiço a água do lago a folhear murmúrios na rebentação;
Quando vou por estradas, ou por passeios cinza,
Oiço-a no lúmen profundo do coração.


LEDA E O CISNE

Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.

Capturada assim,
E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?


UMA CAPA

Uma capa fiz do meu canto
Debaixo a cima
Bordada
De antigas mitologias;
Mas tomaram-na os tolos
Para exibi-la ao mundo
Como se por eles fora lavrada.
Deixa, canto, que a tomem
Pois maior feito existe
Em andar nu.


MORTE

Nem temor nem esperança assistem
Ao animal agonizante;
O homem que seu fim aguarda
Tudo teme e espera;
Muitas vezes morreu,
Muitas vezes de novo se ergueu.
Um grande homem em sua altivez
Ao enfrentar assassinos
Com desdém julga
A falta de alento;
Ele conhece a morte até ao fundo —
O homem criou a morte.

5 de agosto de 2011

Torpor

Anoitece.
Minha sombra fugiu
Meu corpo se cansou
E então desapareço
Na espera por outro dia

Chove.
A lágrima secou
A língua se esqueceu
Do cálido toque
E em torpor se calou

Janelas até batem
Árvores até discutem
Mas ah, braços soltos
Dedos que não tem vontade

Falso interesse onipresente
De todos os lados, vazio
Letargia das letargias
Um quase infindo rallentando

E tanto tempo!
Poeira acumulada
Fino pó na entrada
De um espetáculo interrompido

Levado pelo cálido abraço
Aconchegante rotina que enlaça
Esqueci-me de bater,
De acordar o coração

O sangue até não parou
Mas o olhar arrefeceu
À vista de maravilhas
Enxergar não mais era preciso

Agora, porém, eu vejo
O escuro inevitável
A cela bem vestida
Qual sono primaveril

Fala então, desperta,
Solta a voz esquecida
Deixa-a gritar
Verte tua fúria,
Tua tempestade

Calarei o dia
Alçarei meu próprio vôo,
Corpo em chamas, das cinzas
Em sombra e luz nos céus
De minha longa
Minha eterna noite



Escrito no Circo, em 04/08/2011, às 21:20h

Ouvindo Valsa opus 34 nº 2,
de Frédéric Chopin

4 de julho de 2011

O Retrato de Dorian Gray


Baseado no romance de Oscar Wilde " O Retrato de Dorian Gray", o filme de mesmo nome seria a décima adaptação do personagem de Wilde.

Embora seja a primeira adaptação que assisto, gostei muito, o enfoque da tríade Dorian, Basil e Lorde Henry é interessante, sendo evidenciado todo o processo de decadência pelo qual o jovem Dorian passa. Além da crítica ácida aos modos hipócritas da sociedade tão bem evidenciados no personagem de Henry.

O amor idílico de Basil e o desejo de Henry pela beleza de Dorian, sentimentos que levam a execução do quadro, são mostrados como dois polos que entram em conflito pela posse do jovem, principalmente em relação a Basil, que encontra sua decadência quando transcende a linha entre a devoção e a entrega absoluta.

Dorian por sua vez interpretado por Ben Barnes, não nos é mostrado de uma forma angelical, como no livro, mas sim como um jovem de modos brutos e inocentes que se deixa levar pelo hedonismo londrino. Sua inocência é demonstrada de forma corporal, e não em sua beleza física.

Por fim, o elemento principal, o quadro de Dorian, que sofre todas as agruras do tempo e de seu modo de vida relapso e prejudicial. A transformação mostrada para mim foi um pouco exagerada, mas a relação que Dorian tem com o quadro quando o descobre a verdade de sua existência e o quanto isso o afeta, foi bem explorada, principalmente no diálogo entre Dorian e um padre, onde a maldição do jovem transcende a fé ignorante do padre.

Enfim, um filme muito interessante e bem feito, vale a pena assistir!

Fonte: Site.

20 de junho de 2011

Anjos e Outras Armadilhas


"...Uma história de anjos e demônios, música e plantas, luz e sombras, contada com todas as cores da noite."

Tive de emprestar palavras para poder descrever o quanto apreciei a obra de Pedro Pires, português, nascido na cidade do Porto (Portugal). Anjos e outras armadilhas é uma série de três contos que podem parecer isolados, mas que se completam. Uma narrativa complexa, com uma poesia sensível e perturbadora.

As imagens vem a completar o quadro da narrativa, com ilustrações que nos deixam uma impressão de sonho e irrealidade, atmosfera que a todo momento acompanha a narrativa.

O autor escreveu, ilustrou, produziu a capa, foi responsável pelo projeto de gráfico e as letras da edição publicada pela Devir Editora.

Uma estreia muito boa do autor!!


Sobre o autor, Pedro Pires é publicitário desde 1989, dedicou também especial atenção à ilustração e à pintura. Tendo exposto alguns inéditos coloridos no Salão de Banda Desenhada do Porto de 1999. Dois anos depois, viu editado Desse teu Corpo, a sua primeira história em quadrinhos colorida após as experiências anteriores em preto-e-branco, como Senti-a no Braço (com argumento de Vale da Silva) e Olivião, publicadas na Coleção Quadradinho.

Nos últimos tempos, também tem experimentado a ilustração infantil. Depois de executar alguns trabalhos na área de tradução e design para a Devir em Portugal, teve o primeiro capítulo de Anjos e Outras Armadilhas pré-publicado na revista Comix # 3.

Biblioteca Sustentável


A criatividade das pessoas não tem limites, e enquanto muitos países vivem a falácia de atitudes mais sustentáveis uma cidade da Alemanha inova com um projeto sócio-ambiental que deveria inspirar muitas outras cidades.

A Open Air Library é uma biblioteca construída basicamente com caixas de cerveja doadas por uma empresa local. A população ajudou na construção da estrutura e um escritório de design realizou o acabamento, reutilizando partes da fachada de um armazém abandonado da cidade.

Um projeto completo, a Open Air Library também tem como iniciativa o incentivo a leitura entre a população que doou cerca de 2 mil livros para o acervo. A biblioteca fica aberta 24 horas, sem seguranças, o que não acarretou nenhum sumiço do acervo.

Lições a parte, fica a inspiração para outros países, afinal não foi o dinheiro que construiu a biblioteca, mas a vontade coletiva e o amor ao conhecimento!


Moda Vamp?!


A nova febre do momento sem dúvida é a imagem do Vampiro, nunca ela foi tão aclamada, tão copiada e reinventada como antes. Nessa onda o site Fottus, fez montagens de famosos em versões vampíricas. Alguns ficaram muito bons, outros, nem tanto!

Scarlett Johansson

Madonna

Alanis Morissette
Fonte: Fottus.

13 de junho de 2011

O Nome da Rosa

Fazia um bom tempo que estava para assistir "O Nome da Rosa", estava um pouco receosa sobre esse filme, contudo ao assistir fiquei extremamente satisfeita.

O filme é baseado no livro de Umberto Eco, que se passa na última semana de novembro de 1327 num mosteiro do século XIII onde ocorrem assassinatos misteriosos.

Este mesmo local, onde ocorrem tão sinistros assassinatos, receberá uma importante discussão, e resolução de um impasse, entre duas ordens distintas do clero da época: os franciscanos, que pregam a simplicidade e humildade, e os beneditinos, que vivem de uma forma luxuosa.

O personagem central William de Baskerville é um franciscano, porém é também um homem de conhecimento, justo, e apegado a "razão", contrastando com os valores pregados pela Igreja. Possuidor de um astrolábio, um quadrante e lentes de aumento, o autor completa a figura de William como um filósofo e um pensador, não sendo então, um joguete da igreja.

Seu pupilo Adson, é jovem, sua juventude e inocência, o protegem de ser manipulado, e sua visita a abadia faz com que ele conheça uma jovem garota, que devido a sua pobreza é usada pelos monges para satisfazer seus desejos sexuais em troca de alimento. Adson se apaixona por ela, e tem sua primeira experiência sexual, esse acontecimento lhe trás um elo entre o que ocorre fora da vida eclesiástica, lhe trazendo a realidade dos gentios explorados pela Igreja.

Assim, William e Adson, como Sherlock Holmes e Watson, tentam buscar por meios lógicos os culpados dos assassinatos que ocorrem na abadia, em meio a histeria da crença de obras demoníacas.

O nome do filme tem referência na expressão usada na Idade Média que servia para denotar o infinito poder das palavras, mas para mim em uma das cenas finais, essa expressão muda de sentido denotando a "eterna dúvida". Enredo interessante e completo, cenários bem construídos, boas atuações, personagens profundos e bem elaborados, e uma história que prende do começo ao fim, fazem com certeza valer a pena assistir a esse filme!


Onde Vivem Os Monstros

Baseado no romance de Maurice Sendak "Onde vivem os Monstros" conta a história de Max, um garoto de nove anos de idade que aprende a lidar com seus sentimentos, com destaque para raiva.

Após uma explosão de raiva, ele foge de casa e se esconde, e é levado para uma terra estranha onde vive sete monstros, ali Max é coroado rei.

Cada monstro vem a representar um aspecto da personalidade de Max, sendo Carol a representação de sua raiva e impulsividade, logo ele se torna o mais próximo do menino. Seus enfrentamentos com cada um dos monstros e sua relação com eles aos poucos vão desvendando a Max aspectos de si mesmo, de uma forma infantil ele observa a si mesmo, e seu relacionamento com a mãe (representados nos momentos com KW).

O filme é bem interessante, mas deixa um pouco a desejar em muitos aspectos, principalmente para seu público alvo (infantil), o filme sofreu um atraso de 2 anos, por falta de verbas e pela insatisfação dos produtores com obra. A trilha sonora, idealizada por Karen O. deixa a desejar nos momentos em que se exige seriedade, mas orna perfeitamente com os momentos de bagunça e selvageria vividos por Max e seus súditos monstruosos.

No geral, acho que a proposta de reflexão do filme é muito boa, e a forma como a personalidade de cada monstro foi trabalhada é interessante. Vale a pena assistir!

Instinto de Vingança

Instinto de Vingança é um filme interessante de ser assistido, pois tenta inovar um enredo já exaurido. A história gira em torno de Terry, um paciente que sofreu um transplante de coração, e que cuida de sua filha com uma rara doença degenerativa incurável, para completar esse quadro, ele conta com o auxílio da médica de sua filha, a Dra. Elizabeth Clemson. Contudo, depois de um check-up de rotina, ele sofre de uma súbita sensação, que aos poucos se torna incontrolável, e que o leva a cometer atos que colocam em cheque sua sanidade.

O filme é uma releitura do conto de Edgar A. Poe Coração Delator, que já sofreu inúmeras adaptações. A história do filme em si não traz grandes surpresas, e em muitos momentos é forçada, mas no final achei bem interessante, principalmente a tentativa de discussão ética que se propõem.

Um filme que vale a pena ser visto, mas não espere grandes surpresas...


E aqui deixo uma animação do conto de Edgar A. Poe:

4 de junho de 2011

Sol & Lua - Erika Monterisi

Hoje em dia vemos uma explosão impressionante de novos autores, as dificuldades por eles encontradas são inúmeras, mas é certo que hoje em dia publicar um livro se tornou bem mais acessível. Muitos desses autores se lançam para o mundo com romances, mas ao contrário do que podíamos observar em épocas anteriores, os romances agora são recheados de criaturas sobrenaturais, como vampiros, lobisomens, anjos...

Seres lendários que antes participavam de narrativas de terror, passaram a ser símbolos das agruras da vida humana, e mais do que isso almejam a mortalidade mais do que nunca. Voltados para um público infanto-juvenil estes autores alçaram seus sucessos com uma receita única de seres sobrenaturais+romance= sucesso!

Mas entre estes autores, que utilizam de fórmulas pré arranjadas, e sem grandes surpresas, com personagens tão profundos quanto uma poça de água, vemos florescer alguns outros autores, que ao contrário de apresentar algo vazio ao leitor, buscam fazer uma narrativa elaborada.

Sol & Lua é um livro de romance, onde um vampiro se apaixona por uma humana, até aí podemos observar a velha fórmula utilizada de forma exaustiva, porém a autora, Érika Monterisi, imprime em seus personagens uma maior personalidade, que em alguns momentos do livro podem parecer exageradas, mas que ao final acabamos por compreender suas intenções.

A personagem principal, ao contrário das heroínas de outros livros possui opiniões bem fortes, acreditando sim no seu príncipe encantado, mas lembrando sempre que ele veio de um sapo. Sua naturalidade ao encarar os feitos de seu amado Phill são explicados pela autora, não nascendo do nada e sem qualquer motivo. Hanna amadurece ao longo do livro, na medida em que conhece mais do mundo e de si mesma.

Os vampiros dos livros seguem a mesma linha de Anne Rice, que podemos basicamente resumir em impulsivos. Cada personagem vampiro possui uma característica própria, destaco Andrew, que ao contrário de viver uma existência amargurada por sua condição aproveita ao máximo, tirando proveito disso.

Phill é um personagem apaixonado, e pode parecer extremamente inocente em uma primeira impressão, mas da mesma forma que Andrew se entrega a sua existência, porém comedido por seu amor por Hanna.

Existem outros vampiros, Pamela e Hugo, e juntos eles formam uma família, em um relacionamento baseado nas melhores chances de sobrevivência.

Sol & Lua possui uma narrativa que vai contra as encontradas em livros do gênero, colocando personagens mais próximos da realidade, enquanto descreve belas paisagens cariocas. Um livro gostoso de ler, e que também discute alguns assuntos como alma, reencarnação, inserindo um tom interessante a narrativa, deixando-a mais rica.

A autora certamente deve amadurecer em alguns pontos de sua narrativa, mas no seu todo, a obra ficou boa, superando inclusive alguns famosos autores brasileiros do gênero "vamp", principalmente no quesito "prender o leitor".

Aqui deixo uma sinopse retirada na íntegra do site do livro:

"...A Hanna é uma menina de 16 anos extremamente comum. É carismática, mas ao mesmo tempo, fechada, ela não fala muito sobre o que sente. Na verdade, ela se fecha para esse tipo de coisa e acha muito "fútil" ser a maioral. Tem sonhos como todas as meninas dessa idade (a maioria): estudar, se formar, casar e ter filhos.

"Tudo começa quando seus pais e ela se mudam de Salvador para o Rio de Janeiro. A sua vida vira de cabeça pra baixo e ela perde tudo que tinha de mais valioso: seus amigos, seu quarto. Sai de um apartamento espaçoso para um quarto e sala. Não possui mais um lugar para desenhar, para ficar só no seu mundinho.

"Porém, numa viagem para Friburgo, quando foi visitar uma amiga de infância, conhece alguém que muda a sua vida. Um homem, que se diz vampiro: Phill Smith. Ela não acredita, debocha até, mas depois de alguns assassinatos na zona rural da cidade, ela começa a achar estranho toda essa história.

"No desenrolar, ela se vê metida numa rede tramada por todos dessa família de vampiros: Andrew (advogado criminalista), Pâmela, Hugo e Phill. Uma história de amor, paixão, desejos, poder e mistérios antigos que só a instiga a prosseguir. Hanna quer entender o tudo que está acontecendo ao seu redor, porém Phill insiste que sentir é mais importante que entender. Ele sabe que ela precisa amadurecer para conseguir entender os mistérios que os unem."

Fica aqui uma dica de leitura!!!

A Rainha do Castelo de Ar

A Rainha do Castelo de Ar é o último filme da Trilogia Milennium. Não me estenderei falando sobre, pois já comentei em postagens anteriores.

Neste filme, vemos Lisbeth Salander em seu julgamento, enquanto Mickel Blomkvist busca provas pra inocenta-la das acusações. Para isto, ele tem que desvendar ainda mais o passado de sua amiga, que ainda que revelado, não foi explicado, para encontrar a chave de sua inocência.

Por fim, concluo que o filme é bem elaborado, com excelentes atuações. Sua história, ainda que não apresente novos elementos, é bem construída, e nos expõem há varias reflexões, sobre moral, sociedade. Um filme que vale a pena ser visto!

29 de maio de 2011

O Senhor das Sombras

– "Ah", disse o rato, "o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro".

– "Você só precisa mudar de direção", disse o gato, e devorou-o.

Tradução de Modesto Carone

O texto acima, intitulado Pequena Fábula, é considerado a primeira obra realmente imortal do autor checo Franz Kafka. Kafka foi um dos maiores expoentes do expressionismo alemão, e é aclamado como fundador de um estilo um tanto quanto paradoxal: o realismo mágico. Seus livros – incluindo contos, romances e narrativas medianas – são publicados e analisados à exaustão até hoje, um século depois de terem sido escritos.

Porém, Pequena Fábula não foi o primeiro texto que o autor franzino escreveu: antes dela, ele já tinha escrito inúmeras peças de teatro, consideradas hoje desprezíveis para a literatura universal. É curioso, assim, que um texto tão pequeno, aparentemente tão simples, tenha prevalecido sobre peças inteiras de teatro com o passar dos anos.

Algo interessante ocorre quando lemos vários livros de um mesmo autor: podemos notar sua evolução, seja narrativa, poética ou estilística – claro, quando essa evolução existe. Isso aconteceu comigo há pouco mais de uma semana, quando terminei O Senhor das Sombras, segundo livro da série Legado Goldshine, do autor paulista Leandro Reis.

Antes mesmo da própria narrativa, há um prefácio muito bem escrito por Raphael Draccon, autor conhecido nacionalmente no meio da literatura fantástica. A narrativa é adiada por um prólogo intenso, com uma revelação que já mostra, a quem (como eu) não gostou tanto do maniqueísmo do primeiro livro, que nesta continuação os fatos não são o que parecem ser.

A habilidade narrativa do autor melhorou muito. As cenas não são mais previsíveis, e a própria sequência dos acontecimentos é encadeada de uma forma que torna a leitura interessante do início ao fim. Os cenários também são muito bem construídos – algo que já acontecia em Filhos de Galagah, porém desta vez um pouco melhor –, e os personagens em si são muito mais reais do que antes. Um dos maiores sinais da evolução estilística de Leandro Reis é o ódio que senti por certos capítulos: fizeram me sentir mal, sufocado, como se participasse das cenas. Isso é ótimo, porque só assim podemos realmente sentir a história, não apenas conhecê-la.

Galatea, a protagonista, continua sua jornada em busca das runas sagradas, atravessando o continente, conhecendo vários povos diferentes e culturas estranhas, o que traz um certo amadurecimento a seus ideais. Ela deixa de ser, de certo modo, a guerreira que resolve tudo por meio de um belo golpe certeiro de espada. Utiliza, em alguns momentos, até mesmo de malícia para conseguir o que quer, e sua fé é sempre o elemento chave de todos os seus atos – afinal, ela é considerada a "mão" de seu deus, Radrak, entre os homens.

Ocorre que, apesar da missão sagrada de Galatea ser conhecida por muitos, nem todos a consideram válida ou mesmo necessária. Em determinada cena, um personagem de uma raça nobre, quase divina, e também idoso e sábio, contesta se tal missão não seria apenas uma disputa, um jogo entre deuses que coloca a todos em perigo. Tal contestação é obviamente repelida, mas é interessante que ocorra, pois até então ninguém contesta se tudo aquilo é justo: não havia dualidade na missão.

É interessante notar também como o autor uniu de forma simbiótica as histórias das duas personagens principais, Galatea e Iallanara. Não apenas a personalidade de Galatea é aprofundada desta vez, mas principalmente Iallanara, em todo o seu universo interior de medos, preconceitos e mágoas, é detalhada ao máximo. O que no primeiro livro foi apenas uma sombra, desta vez se torna nítido: Iallanara tem diversos problemas, sendo a maioria devido às suas próprias decisões. Ela deixa de ser uma criatura estranha entre todos, para se tornar aquela cujo passado, presente e futuro podem decidir o rumo de vários povos, aquela cujas decisões vão impactar em mudanças eternas. E, ao mesmo tempo, ela ainda é a fortaleza impenetrável, cujo interior é mais frágil que uma flor de vidro.

Outros personagens são também aprofundados, ganham personalidades mais realistas. Até mesmo alguns vilões, em todo seu antagonismo, crueldade e escuridão, demonstram motivos para o que fazem, mostram que não foram sempre manifestações do mal. Um dos vilões, inclusive, exibe uma fraqueza tão simples, tão humana, que o torna muito mais interessante, muito mais próximo aos vilões que todos conhecemos.

Talvez fique a pergunta: por que a tal Pequena Fábula de Kafka foi a introdução deste artigo?

O detalhe mais interessante que encontrei no livro, mais do que as cenas dramáticas, as dualidades etc., foi uma frase dita por uma personagem em determinada cena, em um dos primeiros capítulos: "Cuidado com o que cativa!". Todo o livro pode ser definido por essa frase. O Senhor das Sombras mostra, de uma forma que encontrei em pouquíssimos livros até hoje, o quanto essa frase é verdadeira. Cada personagem é atormentado e perseguido por aquilo que, impensadamente, cativou. Como Kafka em sua Pequena Fábula, Leandro Reis conseguiu, em apenas algumas palavras, definir toda a sua obra. Este é, para mim, o maior sinal da evolução na narrativa e, principalmente, no estilo do autor.

Há ainda, necessário dizer, um bom epílogo em O Senhor das Sombras, que deixa no leitor uma ansiedade grande pelo próximo livro. Porém, ao que tudo indica, no terceiro livro a escuridão prevalecerá como nunca antes na história, e o vazio tomará conta de todos. Esse sentimento deixado pelo epílogo, e também por alguns detalhes do segundo livro como um todo, faz com que seja quase plena a certeza de que Leandro Reis evoluiu ainda mais em Enelock, o terceiro livro e, assim, cumpriu a promessa feita em Filhos de Galagah: uma boa história, uma boa narrativa, e um estilo que deve prevalecer.

Enelock, o terceiro livro da série Legado Goldshine, já foi concluído pelo autor e deve ser lançado em breve pela Idea Editora, que também publicou os outros dois livros.

No site do autor há um conto, indicado por ele próprio, cujos acontecimentos ocorrem entre o primeiro e o segundo livro: Olhos de Herói. Vale a pena ler, é muito bem escrito.

Este artigo faz parte do Booktour do Legado Goldshine, promovido pelo autor em seu blog. Leia também o artigo do Sonata Escarlate sobre o primeiro livro da série, Filhos de Galagah

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E se você ficou curioso a respeito de Franz Kafka, e do porquê de Pequena Fábula ser tão valorizada, leia Lição de Kafka, de Modesto Carone.