3 de janeiro de 2010

Coraline



"Coraline descobriu a porta pouco depois de terem se mudado para a casa."
(...)
"Das portas que encontrou, treze abriam e fechavam. A outra - a porta grande e de madeira escura esculpida, no canto mais afastado da sala de visitas - estava trancada."

Assim começa uma história aparentemente infantil, aparentemente banal, em um livro aparentemente dispensável. E, pra ser sincero, eu não cheguei primeiro ao livro. Para ser bem sincero, eu primeiro conheci o jogo baseado no filme, depois fiquei sabendo do filme e, só aí, em uma livraria que mais parece um sebo, me deparei com o mesmo título - nada tão especial, se não fosse pelo nome estampado acima de "Coraline": Neil Gaiman.

Coraline conta a história de uma menina que se muda com os pais - que não lhe dão a menor atenção - para uma casa muito velha, ou mais precisamente para um dos apartamentos da casa. Há duas mulheres morando no apartamento abaixo, e um homem um tanto quanto maluco no apartamento acima. E há um apartamento vazio. E há uma porta que dá para uma parede de tijolos. Pelo menos, ao que parece.

Coraline atravessa a porta e descobre outro mundo, onde sua Outra Mãe e seu Outro Pai a acolhem com carinho, brincadeiras e comidas deliciosas. E aquele Outro Mundo parece ser tudo que ela sempre quis. Parece mesmo, se não fossem pelos botões costurados nos olhos de todos, pela altura estranha e mãos que mais parecem garras de sua Outra Mãe... A partir daí Gaiman nos lança numa atmosfera de terror e fantasia non-sense (com deliciosas citações de Alice no País das Maravilhas e filmes clássicos de terror) que retiram definitivamente o livro do rótulo "Infantil".

O livro é de 2002, e conta com ilustrações brilhantes (e aterrorizantes) de Dave McKean. No Brasil, foi lançado pela Editora Rocco. Em 2009 foi feito um filme, dirigido por Henry Selick (o mesmo diretor de O Estranho Mundo de Jack, cujo roteiro é de Tim Burton), totalmente em stop motion, que é a técnica de se filmar as cenas quadro por quadro - uma das mais trabalhosas e mais antigas do cinema. Mas, o filme segue o livro???


Como toda adaptação, há diferenças. A principal e mais gritante é a presença de Wybie, um menino que mora ao lado da casa de Coraline, porém a maneira com que Selick - que também escreveu o roteiro do filme - introduziu o personagem na história é genial. Algumas diferenças ocorrem na história, quanto à sequência dos fatos e outros, mas mesmo assim o filme é uma bela adaptação do livro.

Quanto ao filme ainda, vale a pena assistir aos extras e visitar o site, pois em ambos há vídeos mostrando a dificuldade e o milagre que é a arte do stop motion. Para não ficar só na vontade, aqui vai um deles:


O filme é um dos melhores do gênero stop motion já criados. Arrisco até dizer que as marionetes, a caracterização dos personagens e a animação em si são melhores do que em O Estranho Mundo de Jack.

Foi lançado ainda um jogo para o Nintendo Wii (que por experiência própria não vale a pena...) baseado no filme, e há versões em Blu-Ray e 3D do filme disponíveis.

Enfim, Neil Gaiman reinventa em Coraline a fantasia non-sense, que normalmente não é levada muito a sério, adicionando uma boa (tremenda) dose de terror à história e a todos os personagens. O filme vale a pena, mas o livro... é perfeito.

"Este livro conta uma história fascinante e perturbadora que quase me matou de susto. A menos que você queira se esconder debaixo de sua cama, com o dedo na boca, tremendo de medo e fazendo toda a espécie de sons estranhos, sugiro que largue o livro devagarinho e vá procurar uma diversão mais leve, algo assim como um crime sem solução, pra desvendar."
Lemony Snicker, autor de Desventuras em Série.

E ele tem razão! Li o livro em uma casa que não era a minha, num quarto com objetos que eu desconhecia. Ao menor barulho eu olhava em volta. Então, se você quer misturar Alice com um terror direto e certeiro, e ainda ficar com dúvidas sobre a segurança das suas janelas, sugiro que leia!



E abaixo você confere o trailer do filme (em inglês):



"Contos de fada são a pura verdade: não porque nos contam que os dragões existem, mas porque nos contam que eles podem ser vencidos." - G. K. Chersterton