8 de janeiro de 2010

Vênus em letras...



Às vezes você está conversando, e são conversas tão complexas que você prefere se abster do assunto, não por que você não tenha um conhecimento, mas pelo simples fato de que não está muito afim.
O tema discutido era sobre as mulheres na poesia, e parei para pensar na relação entre os poetas e as poetisas, em geral, os poetas obtem uma maior exposição do seu trabalho do que as poetisas. Não estou falando de uma guerra de sexos entre qual é capaz de escrever melhor, não, apenas me chama a atenção, até tempos atrás as mulheres antes eram esposas, depois donas de casa, mulheres e somente a partir daí elas podiam ser simplesmente elas.
Vivendo à margem, elas observaram, e quando colocaram tudo que viam em palavras, simplesmente brilharam, ainda que de forma anônima. Então coloco aqui a história de três autoras brilhantes.




A primeira vez que li e decorei um poema, que me apaixonei por um poema foi lendo Florbela Espanca, o nome do poema era "Eu".
Ela nasceu em Vila Viçosa em 8 de dezembro de 1894, poetisa portuguesa teve uma vida agitada e inquieta, precursora do movimento feminista no seu país, ela transformava seus pesadelos e inquietações em poemas íntimos, femininos e erotizados.

Era filha de Antonia da Conceição Lobo com João Maria Espanca, mas sua mãe sendo empregada, o pai não a reconheceu, mas após a morte de sua mãe Florbela passa a ser criada por seu pai e a esposa dele, Maria Espanca. João Maria só veio reconhecer a paternidade anos após a morte de Florbela.

Casou-se três vezes, a primeira vez foi em 1913 (no dia de seu aniversário) com Alberto Moutinho.
Concluiu o curso de Letras em 1917, e inscreveu-se depois no curso de Direito, sendo a primeira mulher a frequentar este curso na Universidade de Lisboa.

No ano da publicação de "Livro de Mágoas" sofre um aborto involuntário (1919), passando a apresentar sintomas de desequilibrio mental.
A partir da separação em 1921, passou a encarar preconceito social decorrente da separação, casando no ano seguinte com Antonio Guimarães.

Em 1923 é publicado "Livro de Sóror Saudade". Após sofrer novo aborto, seu marido se divorciou, e em 1925 ela casa-se novamente, com Mário Lage.
A morte de seu irmão em um acidente de avião a deixa abalada e leva-a a escrever "As Máscaras do Destino".

Após ser diagnosticado um edema pulmonar ela se suicida no dia do seu aniversário, 8 de dezembro de 1930. Antes já havia tentado suicídio por duas vezes em outubro e novembro de 1930, às vésperas da publicação de sua maior obra "Charneca em Flor", que foi publicado em janeiro de 1931.

Poemas:

Eu...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!


Charneca em Flor


Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu bruel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Volúpia

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A núvem que arrastou o vento norte...
Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

Links:




Outra cujo contato é inevitável é Clarice Lispector, a leitura de seus livros cai em alguns vestibulares, além de ser estudada no ensino médio. Então, conheci ela do pior jeito possível, sendo obrigada a ler para fazer uma prova, mas passei a respeitá-la tempos depois quando vi uma entrevista sua, e sua personalidade forte me conquistou, me fazendo entender o que até então estava obscuro: a essência de seus escritos.
Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik em 1920, mas passou sua infância no Recife, mudou-se em 1937 para o Rio de Janeiro, onde formou-se em Direito.
Seu romance de estréia "Perto do Coração Selvagem" em 1943, teve calorosa acolhida e recebeu o Prêmio Graça Aranha.
Casou-se em 1944 com um diplomata, e em Nápoles serviu em um hospital durante os últimos meses da Segunda Guerra.
Esteve viajando pela Suíça e Estados Unidos, voltando a morar no Rio de Janeiro.
Suas obras de destaque são:

- A Legião Estrangeira (1964);



A partir de 1942 começou a colaborar com a imprensa, trabalhou na Agência Nacional e nos jornais A Noite e Diário da Noite, colunista no Correio da Manhã, entrevistas na Manchete, cronista do Jornal do Brasil. Textos estes que se encontram reunidos no volume "A Descoberta do Mundo".

A crítica francesa Hélène Cixous diz:
" Se Kafka fosse mulher. Se Rilke fosse uma brasileira judia nascida na Ucrânia. Se Rimbaud tivesse sido mãe, se tivesse chegado aos cinquenta. (...) É nessa ambiência que Clarice Lispector escreve. Lá onde respiram as obras mais exigentes, ela avança. Lá, mais à frente, onde o filósofo perde fôlego, ela continua, mais longe ainda, mais longe do que todo o saber".

(Clique para uma biografia mais que completa sobre a escritora)

Frases:

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."

"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever"

"Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas."

"Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome."
(Perto do Coração Selvagem)

"E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano"

"Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós."

"É difícil perder-se. É tão difícl que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo."

"... passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser."

Entrevista:

Parte 1


Parte 2


Parte 3


Parte 4


Parte 5


E por fim, deixei a recente descoberta por último, arrumando um monte de revistas, nestes encontros ao acaso com reportagens que você se surpreende encontrei Sylvia Plath, e uma crítica sobre o filme inspirado em sua vida. Fui buscá-la e quando encontrei, foi inevitável o deslumbramento.


Nascida em Boston, em 1932. Passou rapidamente por Nova York, tentou o suicídio mais de uma vez.
Em 1956 casou com o poeta inglês Ted Hughes, e com ele foi para Cambridge, Inglaterra. tiveram dois filhos. Separou-se em 1962. Em 1960 lançou seu primeiro livro "Colossus".
Em 11 de fevereiro de 1963, aos 30 anos de idade cometeu suicídio inalando gás de cozinha na sua residência.


Obras:

The Colossus, 1960
The Bell Jar, 1963
(pseudonym Victoria Lucas)
Harper and Row, 1971
(edition apparently contains drawings by Plath and a Biographical Note by Lois Ames)
Ariel, 1965
Crossing the Water, 1971
Winter Trees, 1971

Poemas:


PALAVRAS

Golpes
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha
Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro
Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.
(tradução de Ana Cristina César)


ARIEL

Estancamento no escuro
E então o fluir azul e insubstancial
De montanha e distância.
Leoa do Senhor como nos unimos
Eixo de calcanhares e joelhos!... O sulco
Afunda e passa, irmão
Do arco tenso
Do pescoço que não consigo dobrar.
Sementes
De olhos negros lançam escuros
Anzóis...
Negro, doce sangue na boca,
Sombra,
Um outro vôo
Me arrasta pelo ar...
Coxas, pêlos;
Escamas e calcanhares.
Branca
Godiva, descasco
Mãos mortas, asperezas mortas.
E então
Ondulo como trigo, um brilho de mares.
O grito da criança
Escorre pela parede.
E eu
Sou a flexa,
O orvalho que voa,
Suicida, unido com o impulso
Dentro do olho
Vermelho, caldeirão da manhã.
(tradução de Ana Cândida Perez e Ana Cristina César)


A CHEGADA DA CAIXA DE ABELHAS

Encomendei esta caixa de madeira
Clara, exata, quase um fardo para carregar.
Eu diria que é um ataúde de um anão ou
De um bebê quadrado
Não fosse o barulho ensurdecedor que dela escapa.
Está trancada, é perigosa.
Tenho de passar a noite com ela e
Não consigo me afastar.
Não tem janelas, não posso ver o que há dentro.
Apenas uma pequena grade e nenhuma saída.
Espio pela grade.
Está escuro, escuro.
Enxame de mãos africanas
Mínimas, encolhidas para exportação,
Negro em negro, escalando com fúria.
Como deixá-las sair?
É o barulho que mais me apavora,
As sílabas ininteligíveis.
São como uma turba romana,
Pequenas, insignificantes como indivíduos, mas meu deus, juntas!
Escuto esse latim furioso.
Não sou um César.
Simplesmente encomendei uma caixa de maníacos.
Podem ser devolvidos.
Podem morrer, não preciso alimentá-los, sou a dona.
Me pergunto se têm fome.
Me pergunto se me esqueceriam
Se eu abrisse as trancas e me afastasse e virasse árvore.
Há laburnos, colunatas louras,
Anáguas de cerejas.
Poderiam imediatamente ignorar-me.
No meu vestido lunar e véu funerário
Não sou uma fonte de mel.
Por que então recorrer a mim?
Amanhã serei Deus, o generoso – vou libertá-los.
A caixa é apenas temporária.
(tradução de Ana Cândida Perez e Ana Cristina César )



40 GRAUS DE FEBRE

Pura? Que vem a ser isso?
As línguas do inferno
São baças, baças como as tríplices
Línguas do apático, gordo Cérbero
Que arqueja junto à entrada. Incapaz
De lamber limpamente
O febril tendão, o pecado, o pecado.
Crepita a chama.
O indelével aroma
De espevitada vela!
Amor, amor, escassa a fumaça
Rola de mim como a echarpe de Isadora, e temo
Que uma das bandas venha a prender-se na roda.
A amarela e morosa fumaça
Faz o seu próprio elemento. Não irá alto
Mas rolará em redor do globo
A asfixiar o idoso e o humilde,
O frágil
E delicado bebê no seu berço,
A lívida orquídea
Suspensa do seu jardim suspenso no ar,
Diabólico leopardo!
A radiação faz que ela embranqueça
E a extingue em uma hora.
Engordurar os corpos dos adúlteros
Tal qual as cinzas de Hiroshima e corroê-los.
O pecado. O pecado.
Querido, a noite inteira
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva.
Os lençóis opressivos como beijos de um devasso.
Três dias. Três noites.
água de limão, canja
Aguada, enjoa-me.
Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa Deus. Sou uma lanterna —
Minha cabeça uma lua
De papel japonês, minha pele de ouro laminado
Infinitamente delicada e infinitamente dispendiosa.
Não te assombra meu coração. E minha luz.
Eu sou, toda eu, uma enorme camélia
Esbraseada e a ir e vir, em rubros jorros.
Creio que vou subir,
Creio que posso ir bem alto —
As contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu
Sou uma virgem pura
De acetileno
Acompanhada de rosas,
De beijos, de querubins,
Do que venham a ser essas coisas rosadas.
Não tu, nem ele
Não ele, nem ele
(Eu toda a dissolver-me, anágua de puta velha) —
Ao Paraíso.
(tradução de Afonso Félix de Souza)


ESPELHO

Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.
Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.
(tradução de Vinicius Dantas)


PAPOULAS DE JULHO

Ó papoulinhas pequenas flamas do inferno,
Então não fazem mal?
Vocês vibram. É impossível tocá-las.
Eu ponho as mãos entre as flamas. Nada me queima.
E me fatiga ficar a olhá-las
Assim vibrantes, enrugadas e rubras, como a pele de uma boca.
Uma boca sangrando.
Pequenas franjas sangrentas!
Há vapores que não posso tocar.
Onde estão os narcóticos, as repugnantes cápsulas?
Se eu pudesse sangrar, ou dormir !
Se minha boca pudesse unir-se a tal ferida !
Ou que seus licores filtrem-se em mim, nessa cápsula de vidro,
Entorpecendo e apaziguando.
Mas sem cor. Sem cor alguma.
( tradução de Afonso Félix de Souza )


Trailer do Filme


Links (em inglês):

Link 1

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Artigo em Português sobre a autora.


Fonte: Rua da Poesia

Pensador

O Poema