13 de janeiro de 2010

Azul-cobalto


Havia então uma cidade, de clima um pouco frio, cujos cidadãos eram em sua grande maioria pintores habilidosos. Cada um havia desenvolvido um estilo próprio, mas havia também um estilo próprio da cidade. Naturalmente, como a pintura era muito comum, era também muito apreciada, de modo que era um costume já muito antigo dos cidadãos que, ao conhecer uma pessoa – e principalmente conhecê-la mais profundamente –, fosse dada uma pintura a essa pessoa. No começo, esse costume era mais freqüente entre pessoas que já se conheciam há um certo tempo, mas ultimamente os cidadãos daquela cidade vinham presenteando uns aos outros mesmo quando se conheciam muito pouco, e, cada vez mais freqüentemente, mesmo sem se conhecerem.

Havia então nessa cidade, algumas vezes por ano, concursos de quais pinturas, quais quadros, eram mais coloridos, ou maiores de tamanho, ou cujas cores eram mais vivas, ou qualquer outro critério que fosse criado, e cada cidadão – naturalmente apenas aqueles que haviam sido presenteados com quadros novos – vinha então ao centro da cidade e exibia o quadro que havia recebido de presente ou – no caso daqueles cidadãos particularmente mais populares, e já eram muitos – os vários quadros que havia recebido de presente. Porém, nos últimos tempos ficava cada vez mais difícil, e isso já era bem percebido por todos, apesar da maioria fingir ignorar o fato, identificar qual era o autor do quadro vencedor em cada concurso, porque era uma prática cada vez mais comum não assinar a pintura antes de dá-la de presente a alguém, e havia até um grupo de cidadãos – apesar de não ser um grupo exatamente definido, e ninguém saber ao certo quem pertence a ele, de certo que é um grupo – cuja corrente de pensamento afirmava que quanto menos o pintor em questão colocasse sua identidade nas pinceladas e nas cores, tanto melhor. Assim, já há um bom tempo esses concursos terminavam da mesma forma: os cidadãos mordiam as unhas na ansiedade de saber qual quadro era o melhor, a decisão era anunciada, e todos esperavam que o autor do quadro se manifestasse. E nada.

E então todos se voltavam para o segundo melhor que, sem exceção, em todos os concursos, todos até já sabiam e tiravam as unhas da boca, e alguns mais sinceros até se dirigiam já para suas casas, possuía um traço característico, ou mais precisamente, uma cor característica, pois não havia traços muito bem definidos, e um braço magro, esbelto e liso se levantava na multidão, seguido de uma voz suave e melodiosa que reclamava a autoria do quadro. A pintora então andava pela multidão até o palco central, subia as escadas com uma emoção contida, e segurava seu quadro, sua pintura, a seu lado, ela própria sendo uma obra de arte como todos conceberiam, como todos imaginariam a mais bela musa, e então ela olhava para todos buscando quem recebera de suas mãos aquele quadro, para lhe agradecer e lançar o conhecido olhar singelo, sublime e, infelizmente para a outra pessoa, muito rápido, antes de agradecer à multidão por terem escolhido seu quadro como o melhor.

Naturalmente que o quadro da pintora não era o melhor, mas sim o segundo melhor, todos sabiam disso e ponderavam consigo mesmos essa verdade, mas ninguém se atrevia a lançá-la a público, pois ninguém se atrevia também a contar quantos naquela cidade já haviam sido presenteados com os quadros daquela mulher. De modo que todos aplaudiam com uma emoção contida, por vários minutos, até que a pintora descia do palco e se dirigia para aquela pessoa a quem ela dera o quadro, e entregava-o a ela, com um doce e rápido beijo no rosto. E então aquele braço esguio se erguia e, com uma graciosidade particular e certeira, fazia um aceno de adeus. Todos sabiam, com aquele gesto, que a pintora não seria vista por vários dias, até que retornasse, e conhecesse alguém, e lhe fizesse outra obra-prima. E então haveria outro concurso, e essa obra-prima alcançaria o segundo lugar.

Esses concursos eram bem populares na cidade, eram as datas mais importantes. O anúncio do quadro vencedor era sempre feito no horário de almoço, para que todos pudessem assistir sem deixar suas atividades de lado, e mesmo assim a cidade inteira comparecia. Havia, porém, uma falta naquelas ocasiões.

Pois havia naquela cidade também uma desenhista, cujo traço era mais definido e mais nítido do que o de qualquer pintor, e cujos desenhos haviam circulado por todos da cidade, apesar de poucos terem tido a honra de recebê-los das mãos da própria desenhista. A desenhista morava numa casa muito diferente das outras, muito mais simples e com menos detalhes nos telhados, mas as cores com que a casa havia sido pintada eram sem dúvida as melhores. Isso porque a desenhista sempre fora, como todos sabiam, a maior e mais íntima amiga da pintora, e esta, como presente de aniversário, havia pintado há alguns anos a casa inteira da desenhista. De modo que a pintura da casa era tão bela, e a casa tão paradoxalmente simples, que havia se tornado uma espécie de atração turística da cidade. Alguns cidadãos gostavam bastante de subir aquela última rua, a deserta, de contornar a curva cercada de abetos e então ver aquelas cores tão vivas e pungentes, refletindo como fogo a luz do sol.

Não que a desenhista gostasse de morar num ponto turístico. Ela inclusive repelia como podia esses cidadãos, no começo simplesmente saindo de sua casa e gritando, ou com cachorros, mas no último ano ela descobrira uma maneira especial de mantê-los afastados. Ela então plantou, em todo o contorno do terreno da casa – porque afinal eles poderiam vir também da parte de trás da casa, ela sabia, as pessoas que se propunham a vigiar sua vida eram particularmente hábeis em encontrar novas maneiras, e tinham uma disposição incomum para isso –, e plantou também na curva que dava para a entrada do jardim, espinheiros muito cerrados, que não impediam de qualquer maneira que alguém realmente determinado visse a casa, mas bloqueavam de todo a passagem até a casa. Ela evitava assim o extremo incômodo de atender cidadãos curiosos para ver o interior da casa, especialmente porque quando isso acontecia ela era obrigada a presenciar o espanto deles quando viam que os cômodos eram todos pintados de cinza.

E assim sempre ocorria, a cidade se reunia de tempos em tempos com seus melhores quadros, a pintora ganhava em segundo por não se saber o autor do melhor quadro, ela se despedia, e todos então percebiam que a desenhista não estava lá. Depois de algum tempo, as pessoas já nem faziam essa última constatação. Já não era necessária, a presença da desenhista era algo tão improvável, tão absurdamente contra o normal, que as pessoas simplesmente perguntavam, depois de alguns dias, se alguém havia visto naquele último concurso a desenhista. E a resposta era sempre a mesma.

Esses cochichos chegavam aos ouvidos da desenhista, porque afinal era para a sua casa que a pintora sempre se dirigia depois de tais concursos. As duas conversavam por horas a fio, comendo batatinhas fritas, até o cair da noite, e depois até que os pássaros anunciassem a manhã, e então elas iam dormir, a desenhista em seu quarto cinza, e a pintora em um quarto feito já para ela, o único cômodo a cores. Esse era um segredo muito bem guardado por ambas, pois a cidade inteira especulava arduamente para onde iria a pintora durante aqueles dias em que ninguém a via, e portanto as duas desfrutavam de vários dias de paz.

Ultimamente, porém, a pintora vinha se sentindo infeliz com a falta de cores dos outros cômodos da casa da desenhista, e sugeria que iria pintá-los, como havia feito com o exterior da casa e com seu quarto. A desenhista sempre recusava a oferta, obviamente, alegando que o cinza era sua maior paixão, e que afinal não era o mesmo cinza que preenchia os cômodos. Cada cômodo, segundo ela, possuía um cinza diferente, ora mais claro, ora mais escuro, e ela chegava a afirmar que até mesmo havia matizes diferentes entre os diferentes cinzas. A pintora ria, naturalmente, de tal alegação, e então mostrava a beleza das cores de seu quarto, como eram vivas, tão belamente misturadas umas às outras, e apontava logo depois para os desenhos em tons cinza da desenhista, que ficavam pendurados nos corredores e nos quartos, e mostrava sua incompreensão com o cinza. A desenhista ria também, em resposta, mostrando sempre no quadro – no único quadro, aliás, que a pintora havia feito e guardado para si – colorido, pendurado no quarto da pintora, como seus traços não eram definidos, como as cores se confundiam e anulavam as formas, e mostrava os seus próprios desenhos, cujo contorno e traço eram reconhecidamente os mais definidos da cidade. A pintora mudava de assunto por um tempo, mas logo as duas voltavam a discutir, com outro pote de batatinhas fritas na mesinha de centro, sobre a intensidade das cores e sobre traços definidos. A desenhista expunha então seu desprezo pela intensidade e vivacidade das cores dos quadros exibidos pela cidade – afinal ela às vezes saía de sua casa para comprar sua comida, ou outros itens de necessidade, e principalmente os lápis, borrachas, crayons, bicos de pena e, mais raramente, um bom suprimento de nanquim para que pudesse continuar sua arte incomum – e dizia que era cada vez mais difícil identificar nestes quadros qualquer forma, perspectiva ou profundidade, mesmo que abstratas, e por isso era cada vez mais insuportável para ela sair de sua casa e encontrar aquelas telas com matizes disformes. Ainda mais porque a única cor de que ela realmente gostava, o azul-cobalto, era cada vez mais raro nos quadros da cidade. A pintora, um tanto quanto tímida quanto a tais observações – ainda mais porque havia muito tempo ela mesma não usava o tal azul-cobalto –, mudava de assunto e mostrava o esboço de algum quadro novo que estava fazendo para outro alguém que havia conhecido, e quando a desenhista mostrava algum interesse no esboço a pintora chegava até a dá-lo para ela, se já fosse um esboço, um estudo finalizado, e ela estivesse enfim pronta para começar a obra de fato. E assim as duas conversavam por dias, e então a pintora partia para começar outra obra-prima.

Enquanto pintava, porém, ela costumava pensar – e esse pensamento se tornava cada vez mais freqüente, a cada novo quadro – nos porquês da desenhista odiar tanto as cores, ser tão avessa a elas, que para a pintora eram como flores, vestiam seu corpo e a faziam se sentir deusa, rainha, selvagem, e tantas outras sensações que lhe ocorriam como torrente e chama enquanto pintava. E pensava que, talvez, a desenhista jamais houvesse usado mesmo um pincel com alguma tinta colorida, e que assim tivesse medo, ou mesmo pavor, de fazê-lo. Talvez a desenhista havia se acostumado tanto ao cinza que seus olhos não podiam mais ver a luz e beleza das cores. Afinal, que importância tão grande era essa que ela dava para os traços e contornos, se as cores já preenchiam o olhar de qualquer um de maneira tão intensa que não era possível sequer pensar em contornos? A pintora ponderava, mas jamais descobria realmente os motivos da desenhista e seu cinza.

Até que lhe ocorreu um fato inusitado. Depois de mais um concurso, e mais um prêmio, depois de andar como imperatriz das cores até a casa da desenhista, de cumprimentá-la e enfim entrar em seu quarto colorido, ela sentiu sede. Claro que a sede não foi de maneira alguma inusitada, mas no corredor ela viu uma porta semi-aberta e, sem qualquer curiosidade, apenas como a criança que pisa a formiga sem qualquer razão, abriu a porta e se deparou com um armário. Isso, claro, também não foi inusitado. A porta bateu então na prateleira mais próxima, e uma pequena bisnaga caiu no chão. A pintora se inclinou, pensando se tratar de algum tipo de nanquim em bisnaga, algo estranho mas claramente a única opção, e se surpreendeu ao ver as palavras “vermelho sangue” na bisnaga. Estava então a desenhista usando cores? Ela, que quase idolatrava o cinza, que tecia longos argumentos sobre a beleza do preto misturado ao branco, estava usando uma cor, e logo uma cor tão viva? A pintora guardou então a bisnaga na prateleira, descobrindo com mais surpresa ainda que não havia outras bisnagas ali, apenas a vermelho sangue, e foi enfim matar sua sede, que já desaparecera por completo. E a partir de então, em cada conversa com a desenhista, quando esta defendia o cinza, a pintora ria e suspeitava com seus botões, ria da hipocrisia da desenhista e suspeitava dos motivos de esconder que ela enfim havia se rendido às cores. E então ela comia com mais vontade as batatinhas, como se assistisse a um espetáculo, um filme de suspense, e se sentia uma Sherlock Holmes investigando um mistério indecifrável.

E vieram as noites, e vieram os dias, e então ela partiu, e veio outro concurso, e ela voltou. E procurou naquela prateleira pelo vermelho sangue, mas não o encontrou. E então ela andou discretamente, enquanto a desenhista cuidava de suas flores brancas, pela casa, vasculhando cada armário, cada prateleira, cada gaveta, mas não encontrou nada. E então restou apenas o ateliê, aquele quarto que a desenhista recusava-se a abrir, mesmo que para a pintora. Nada era mais óbvio.

Como a criança que queima a formiga com uma lupa, como quem não quer nada, ela abriu a porta, que para sua surpresa não estava trancada. Pequenos recortes em papel se dependuravam do teto, marionetes com expressões que ela não entendia estavam deitadas em uma mesa, bonecos que ela sabia que a desenhista usava como modelos – algo tão irracional para ela, ela que estava acostumada a ignorar as proporções – se assomavam em um armário, vários e vários dos seus próprios esboços pendurados em uma pequena parede e, no canto mais próximo, um armário – trancado – contendo inúmeros lápis, inúmeros crayons, todos naturalmente pretos, e inúmeros bicos de pena, com as mais variadas formas. E no centro, bem no centro daquele ateliê iluminado por várias janelas, estava a prancheta, tão estranha para a pintora – tão acostumada a cavaletes e telas –, e sobre ela uma grande folha de papel com mais um desenho tão bem definido, tão recheado de cinza que ela logo se enjoou dele e olhou em volta. Ora, ela havia uma única vez entrado naquele ateliê, além desta vez, havia muito tempo, e de tudo aquilo ela se recordava muito bem, com exceção de uma pequena caixa de madeira ao lado do armário de instrumentos de desenho. Ela olhou então pela janela e se certificou de que a desenhista ainda se entretinha com suas flores brancas, e abriu a caixa. Várias bisnagas, das mais variadas cores, se amontoavam em um lado, enquanto inúmeros pincéis, em sua maioria finos – afinal os que a pintora menos usava – se espalhavam pelo outro lado da caixa. Ela escutou então a porta de tela da cozinha se abrir, e fechou rápido a caixa e o ateliê. E voltou para sua tão adorável amiga, para mais uma rodada de batatinhas fritas. Por meio de perguntas tão sutis quanto objetivas, ela tentou fazer a desenhista revelar, sem querer, que usava realmente cores. E tentou convencê-la mais uma vez da beleza das cores, ouvindo porém desta vez não com risos ou suspeitas a defesa do cinza, mas sim com um certo escárnio e uma certa raiva – afinal por que a desenhista não lhe revelava que usava cores, a ela, pintora premiada inúmeras vezes, que havia encantado e hipnotizado multidões com a intensidade e vivacidade de suas cores?

E quando, dias depois, ela se debruçava sobre mais uma futura obra-prima, e sua cabeça fervilhava de suposições sobre a desenhista e suas cores escondidas, ocorreu-lhe um pensamento genial. Afinal, se a desenhista usava realmente cores, ainda que de maneira totalmente tímida, então ela realmente as apreciava. E se as apreciava, então realmente haveria forçosamente de se enjoar do cinza. Porque, uma vez que seus olhos se banhassem em vermelho, em amarelo, em verde, em violeta, ela jamais iria querer a indiferença vazia do cinza. O cinza era belo, a pintora tinha de admitir, mas era muito pouco. E, se era muito pouco, e se a desenhista haveria de um dia se enjoar do cinza, e então ela detestaria os cômodos de sua própria casa, então a desenhista ficaria imensamente feliz de ter seus cômodos renovados com a vivacidade das cores que só a pintora era capaz de criar. E então a pintora comprou para si um bom estoque de tintas, e de rolos e de pincéis, e planejou sua surpresa. Descobriu, porém, depois de refletir um pouco, que não conseguiria afinal pintar a casa toda sem que a desenhista percebesse. Teria de pintar um dos cômodos, e esperar a resposta. E qual cômodo seria? Nada era mais óbvio.

Assim, depois de mais um concurso, e de mais uma vitória por não haver autor definido para a melhor pintura, ela apanhou seu suprimento de tintas e rolos e pincéis e os levou consigo até a casa da desenhista. Disse à ela que ia apenas pintar uma das paredes de seu próprio quarto, afinal se enjoara das cores que havia pintado antes, e esperou que a desenhista saísse – porque a pintora sabia que a desenhista não suportava sequer o cheiro das tintas – e foi até o ateliê. Pensou por qual parede começaria, onde colocaria os móveis para que não os manchasse, se pintaria também o teto e o chão, e decidiu que pintaria as paredes e também os móveis, afinal aquele cinza estranho dos móveis era monótono demais. E então começou, e pintou como nunca antes, com as combinações mais vivas, mais intensas, e como nunca antes as cores pareciam percorrer seu corpo e banhá-la em um universo de sensações, um banho de turquesas e esmeraldas e rubis, e sóis amarelos e brilhantes como ouro, e papoulas incendiárias, e campos tão verdes, tão verdes que os olhos lhe doíam, e ela adorava essa dor.

E, como a noite começava a despontar no horizonte, ela se apressou e terminou a obra-prima das obras-primas. Deleitando-se com os reflexos que o último raio de sol espalhou pelo ateliê, ela concluiu a pintura, e se dirigiu para a sala, à espera da desenhista. Quando esta chegou, as duas conversaram novamente, e uma vez mais a pintora tentou convencer a desenhista de que o cinza não bastava. A desenhista novamente se defendeu, e as duas foram dormir, a pintora ansiosa pela manhã, quando levaria a desenhista para seu novíssimo ateliê.

E passaram as horas, e a noite passou, e o sol descobriu mais uma vez o mundo. Aqueles olhos naquele quarto colorido, antes o único a cores da casa, mal se abriam quando um grito ecoou pela casa. A pintora correu, subiu as escadas como flecha até o ateliê – ela sabia que só poderia vir dali, e borbulhava de alegria, e de ansiedade, afinal sua mais adorada amiga partilharia com ela da beleza das cores, com ela se banharia em mil sóis – e atravessou a porta sem olhar. Foi quando aqueles olhos se deteram na desenhista. Ela estava no centro, apoiada na prancheta, mão sobre a boca, joelhos implorando uma força que parecia não existir, e olhos ofuscados e embotados pelas lágrimas que lhe inundavam a face. Ela olhava desesperada de uma parede a outra, de um armário a outro, de um detalhe a outro, até que viu a pintora. E então correu até ela, e a empurrou para fora do ateliê, e fechou a porta. A pintora tentou abri-la, pedindo compreensão da desenhista, mas estava trancada. Ela tentou argumentar, mas parou para ouvir. E ouviu passos, uma caixa sendo aberta, silêncio, e o barulho inconfundível de um corpo caindo solto pelo chão. Ela tomou impulso, gritou como nunca antes havia gritado, e com os braços e pés e ombros se jogou contra a porta.

A desenhista estava deitada, como uma de suas marionetes jogada de canto, com as pernas umas sobre as outras, com bisnagas de tintas multicoloridas em volta de si, e bebia incessantemente de cada uma das bisnagas, violentamente ela apertava as bisnagas até que não houvesse mais amarelo-ocre, ou vermelho-carmim, ou azul-turquesa, e então passava a outra. A pintora, imóvel, não entendia, e com força renovada tentou arrancar daquelas mãos tão brancas a última bisnaga. E percebeu que a desenhista não a encarava. Não encarava nada em volta, antes fitava outro lugar. A pintora acompanhou o olhar e viu, na parede ao lado da porta, a parede que ela tinha deixado por último no dia anterior. E viu, horrorizada, que as suas pinceladas escorriam como se alguém tivesse jogado óleo de linhaça sobre elas, e viu também, assustada, que abaixo daquelas cores vivas e intensas, e ainda abaixo do cinza costumeiro, era possível distinguir um céu azul. Ela arranhou como pôde, sem nem saber por quê, a parede, até descobrir, abaixo da vida de sua própria cor, e abaixo do aparente cinza da desenhista, um céu, e montanhas, e um campo, e um belo lago azul, e em sua margem uma mulher, com um inconfundível traje, com a roupa nobre de uma imperatriz de cores. E enquanto as lágrimas, como dispersas pinceladas, escorriam pela sua face, ela ouviu o sussurro da desenhista. Em suas mãos tão brancas, abaixo de suas unhas pintadas de preto, escorria um azul profundo. E naquelas mãos estava a última bisnaga, vazia, a única que a desenhista não precisou tragar com ferocidade. E passou os braços por aqueles ombros tão brancos, tão frágeis, e ouviu novamente o sussurro. “São suas. As cores. São suas” ela ouviu, a voz tão fraca e tão pungente, certeira como uma flecha em fogo consumida, e a abraçou mais forte, até que o último suspiro se esvaísse pelos seus braços. Em lágrimas ela deitou a desenhista à sua frente, e tirou a última bisnaga de suas mãos.

E leu, em letras manchadas, a cor que se espalhava por aquele lago tão unicamente pintado, e enfim percebeu que aquele contorno, aquele traço que envolvia a mulher na margem do lago, era o mais definido de todos, que jamais houve uma união tão bela, tão intensa, e afinal tão viva, do cinza com as cores, e segurou uma última vez aquela mão tão branca, enquanto escorriam pelos seus dedos os restos de um azul-cobalto.