27 de abril de 2012

De um monólogo

Pois então visitei a Loucura, e ela me agarrou com braços fortes, fez-me amante, senhor e servo, até me dilacerar com suas garras de harpia.

És tu então que vem, desafiando a proteção frágil que construí? Tens nas tuas mãos flores das mais cruéis, nas tuas mãozinhas que quase amassam pétalas. Mas por que, por que não abres tua boca?

Cinza, inércia se fez da mais bela dança que valsei. Sutileza, gentileza, pergunta, e apenas o silêncio. É assim que se destróem pontes e se erguem muralhas, sabes?

E agora apontas para meus braços, derramando as pétalas mais podres, como se eu os aviltasse a cada noite em nova dança. Pequena, se sou uma Bovary, não é senão porque busco o incêncio que já encontrei em ti, e que me basta. Basta-me ainda banhar-me nas poucas brasas que ainda aquecem minha nuca, mas se vês em mim um trapezista, a saltar de corda em corda, talvez teu passado te ofusque a visão.

É verdade que já parti o espelho de Shalott, mas logo depois encontrei o fim. Não terás tais cacos, é fato, mas sinto que um certo Iago corrompe por dentro a tua força de mouro general.

Abaixa então teus braços, relaxa teus ombros. Não fui eu, Ofélia, que matei teu pai, não desejei tua queda. Mas cuida, que vais encontrar teu pântano sepulcro embaixo do salgueiro Indiferença, nascido não das minhas palavras, nem da falta delas, mas do silêncio de tuas faces multifacetadas.




Escrito em 23/04/2012, num bloco de papel.

Em preparação a um conto.

Imagem: Renaissance by Delphine Pavy.