7 de janeiro de 2013

O menino-mesmo

Olha lá o menino!
O mesmo, lá vai!

Desejou voar, e saltou
Mas sem asas, ficou no chão
Achou-se Ícaro
Era por demais humano

Quis pintar o rosto
De (hoje) cálida lembrança
Falhou a cor
Aprendiz do aprendiz

O menino-mesmo arfou
Correndo, explodindo, urrando
Viu-se livre.
Gabou-se,
De sua intrincada prisão

E, como fermento não erra,
Sentiu borbulhar o negrume
Adocicado temperado
Do grisalho enlouquecedor

O menino-mesmo mudou
Mudou-se, "renasceu"
Em círculos

Defendeu os céus,
Qual cavaleiro da Santa Ordem!
E entreviu, pela armadura de platina,
O cavalo de pau que cavalgava

Lutou pelo verdadeiro tom
Soando consonante feito pedra
Afirmou-se novo
– de joelhos para o velho mundo

Estirou o indicador feito lança
Imperador da sacra justiça
– caiu
Ladrão torpe
Cor imunda

O menino-mesmo amou.
– ah, se amou!
Amante tão desejável esta:
O reflexo de sua própria ambição.
Que o mesmo não ama,
O menino não pinta,
O símile não canta, nem dança.
O menino-mesmo amou.

E mais? Algo mais,
Mea culpa desinteressado?
Mais outra revelação
Obviedades mais?

O menino-mesmo, lá vai!
Quis ser sincero
E, ao querer, mentiu.


Escrito em 24 de dezembro de 2012,
às 19:20h.

No empoeirado Circo.

Imagem: Espelho Mágico,
by M. C. Escher.