3 de junho de 2010

Ou Cecília Ou Meireles


Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está a minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento.
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.



Um sorriso para quem adivinhar de quem é este poema...

Tudo bem se não acertar, eu mesma vou dizer, este poema é de Cecília Meireles, uma poeta que se por um lado me remete a infância e toda sua mitologia, também me põem a perguntar quem é a pessoa que se mira no espelho.

Nascida em 7 de novembro de 1901, na mesma cidade em que morreu de câncer em 9 de novembro de 1964, Cecília Benevides de Carvalho Meireles foi poeta, pintora, professora e jornalista.

Da sua vida cita:


"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.



Criada por sua avó portuguesa Jacinta Garcia Benevides, aos nove já começa a escrever seus poemas.
Como professora estudou línguas, literatura, música, folclore e teoria educacional.
Espectro foi sua primeira publicação em 1919, aos dezoito anos. O livro era composto de sonetos de caráter simbolista, embora vivesse em pleno período Modernista.
Em 1922 se casou com o pintor português Fernando Correia Dias, com quem teve 3 filhas, contudo ele sofria de depressão aguda o que o levou ao suicídio em 1935. Se casou em 1940, com o professor e engenheiro agrônomo Heitor Vinícius da Silveira Grilo.

Em seus poemas infantis conseguimos sentir musicalidade, explorando vários elementos.

No ano de 1923 publicou "Nunca mais..." e Poema dos Poemas, e em 1925 "Baladas Para El-Rei". Depois de longa pausa, publica em 1939 "Viagem", livro que lhe concedeu o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras.

Nos Açores, berço de seus pais, o nome de Cecília Meireles foi dado à escola básica da freguesia de Fajã de Cima.

Obras

- Espectros, 1919 
- Criança, meu amor,1923 
- Nunca mais…, 1923 
- Poema dos Poemas, 1923 
- Baladas para El-Rei, 1925 
- Saudação à menina de Portugal, 1930 
- Batuque, samba e Macumba, 1933 
- O Espírito Vitorioso, 1935 
- A Festa das Letras, 1937 
- Viagem, 1939 
- Vaga Música, 1942 
- Poetas Novos de Portugal, 1944 
- Mar Absoluto, 1945 
- Rute e Alberto, 1945 
- Rui — Pequena História de uma Grande Vida, 1948 
- Retrato Natural, 1949 
- Problemas de Literatura Infantil, 1950 
- Amor em Leonoreta, 1952 
- Doze Noturnos de Holanda e o Aeronauta, 1952 
- Romanceiro da Inconfidência, 1953 
- Poemas Escritos na Índia, 1953 
- Batuque, 1953 
- Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955 
- Pistoia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955 
- Panorama Folclórico de Açores, 1955 
- Canções, 1956 
- Giroflê, Giroflá, 1956 
- Romance de Santa Cecília, 1957 
- A Bíblia na Literatura Brasileira, 1957 
- A Rosa, 1957 
- Obra Poética,1958 
- Metal Rosicler, 1960 
- Poemas de Israel, 1963 
- Antologia Poética, 1963 
- Solombra, 1963 
- Ou Isto ou Aquilo, 1964 
- Escolha o Seu Sonho, 1964 
- Crônica Trovada da Cidade de San Sebastian do Rio de Janeiro, 1965 
- O Menino Atrasado, 1966 
- Poésie (versão francesa), 1967 
- Antologia Poética, 1968 
- Poemas Italianos, 1968 
- Poesias (Ou isto ou aquilo& inéditos), 1969 
- Flor de Poemas, 1972 
- Poesias Completas, 1973 
- Elegias, 1974 
- Flores e Canções, 1979 
- Poesia Completa, 1994 
- Obra em Prosa - 6 Volumes - Rio de Janeiro, 1998 
- Canção da Tarde no Campo, 2001 
- Episódio Humano, 2007 
- Obra principal de Cecília Meireles: Olhinhos de Gato. Olhinhos de Gato é um livro que foi baseado na vida de Cecília, contando sua infância depois que perdeu sua mãe Matilde Benevides Meireles e como foi criada por sua avó D. Jacinta Garcia Benevides (Boquinha de Doce, no livro) 



Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.


Fonte: Lusopoemas
           TV Cultura