24 de junho de 2010

Uma Lua Cheia de Histórias

Em tempos onde ser vampiro é o ideal jovem, como um herói incompreendido, surge outra criatura para formar um pano de fundo: o Lobisomem.
É triste que se relegue um papel tão secundário, pois o mito do lobisomem é tão (ou mais) vasto que o mito do vampiro, sendo em muitos casos fundidos.
Fico espantada também com a falta de informação dada ao assunto, que frequentemente é encontrado em capítulos de algum livro sobre vampiros ou qualquer outra criatura. 
Por fim, resolvi demonstrar um pouco do que é a história do lobo, e tentar contribuir, ainda que tão parcamente, para o conhecimento e a reflexão do mito do lobisomem.



“Em vão, tentou falar; a partir daquele momento
Sua boca espirava espuma e tinha sede
De sangue, enquanto vagava entre rebanhos
E suspirava por matanças.
Suas roupas transformaram-se em pêlos,
Seus membros ficaram atrofiados.
Um lobo, mas ainda mantendo parte de sua expressão anterior,
Grisalho como antes, sua fisionomia, furiosa,
Seus olhos brilham selvagemente, a imagem da fúria.”
(Ovídio, Metamorfoses)


A Licantropia é nome formal, para o que se vulgarmente conhece por lobisomem, correspondendo a transformação de pessoas em animais, sendo ela mental ou física. A palavra é originada de "Lycos", que significa "lobo" e "Anthropos”, "homem".
Como existem muitas variações da lenda, também há muitas variações do termo, por exemplo, os romanos denominam "Versipélio", os hungáros de "Volkodlák", os russos "Óboroten", os saxões de "Werwolf", os germanos de "Wahrwolf", e muitos outros.
América do Sul: kanima, um espírito que toma a forma de um jaguar.

- Argentina: lobisón.

- Brasil: o nome perdeu o hífem de Portugal e se tornou lobisomem. Além desse existem muitos outros como o boto, que assume a forma de um homem e o uirapuru, um pássaro marrom que assume a forma de um menino.

- Bulgária: vrkolak.

- Canada: wendigo ou witiko.

- Chile: chonchon, uma bruxa que se transforma em um urubu.

- Etiópia, Marrocos e Tanzania: boudas, um homem-hiena.

- Escandinávia: varulf.

- Estados Unidos: werewolf.

- Espanha: hombre lobo, lupino.

- França: loup-garou, bisclavret.

- Grécia: vrykolaka, um nome usado para lobisomens que também serve para descrever vampiros e feiticeiras/os.

- Haiti: loup-garouque pode mudar sua forma para qualquer coisa, seja planta ou animal.

- Islândia: hamrammr, uma criatura que assume a forma da última coisa que comeu, e ganha mais poder continuando a devorar outras coisas.

- Índia: rakshasa, uma criatura que pode assumir a forma de qualquer animal desejado.

- Indonésia: layak, um espírito que pode assumir a forma do que quiser.

- Itália: lupo manero ou benandanti para pessoas que se tornam lobos permanentemente para lutar contra bruxas no submundo.

- Japão: kitsune, uma pessoa que vira raposa, também o tanuki ou minjina, uma pessoa que assume a forma de um texugo, cachorro ou castor.Em geral criaturas capazes de alterar a forma são chamadas de henge.

- Latvia: vilkacis.

- Lituânia: vilkatas.

- México: nahaul, uma pessoa que assume a forma de um lobo, gato, águia ou touro.

- Nativos Norte Americanos: limikkin ou skin walkers.

- Normândia, França: lubins ou lupins.

- Noruega e Suécia: eigi einhamir.

- Filipinas: aswang, um vampiro / lobisomem.

- Portugal: lobis-homem e lobis-homens.

- Quênia: ilimu.

- Russia: wawkalak ou bodark.

- Sérvia: vukodlak.

- Slovakia: vulkodlak.

Uivos na história

A metamorfose de homens para lobos é bem antiga, principalmente nas crenças primitivas como o xamanismo. Nestas crenças ligadas ao conceito de relação homem/natureza, onde os aspectos naturais são valorizados na prática religiosa, é comum relatos de sacerdotes e xamãs que incorporam espíritos de animais, ou rezavam para que tivessem auxílio num ritual.
Tais crenças também podem ser observadas na adoração dos animais através dos "Totens", que corresponde a crença de que cada pessoa tem um animal totem que o auxilia e influência em sua vida (tanto que muitos povos indígenas personificavam para si aspectos animais).
Em tais crenças, ter aspectos animais e os próprios eram personificações de boas coisas, bons presságios, sendo vistos como bençãos e não como maldição.
Cada povo ao longo da história atribuiu a diferentes animais, aspectos e simbolismos diversos, alguns eram representantes de deuses, como Bastet representada em uma gata, Hórus em um falcão, Háthor em uma vaca, Seshat em uma serpente, Loki em um salmão, ou sendo relacionados a determinados deuses como Hécate que frequentemente era representada junto a uma matilha de cães, Ártemis junto a uma coruja e muitas outras relações.

O lobo sempre esteve associado a mulher, representando a mulher livre, independente e ativa, também chamada de "Shewolf". Tais mulheres possuíam poder, respeito e prestigio, sendo conhecidas em várias culturas como na América Norte e Central e Europa (os nórdicos a denominavam "Vargynjer").

Um exemplo, a Rainha Maeve (rainha irlandesa celta que reinou em Connacht, pertencente ao Ciclo de Ulster), seu nome significa "mulher-ébria" ou "rainha loba", sendo endeusada como Deusa da Guerra pelo seu desempenho em guerra e por apresentar um forte magnetismo sexual (aqui também podemos chamar a atenção para a expressão "idade da loba", ou seja, idade em que a mulher atinge seu ápice de maturidade).
Podemos citar também o mito da criação de Roma, onde seus míticos fundadores foram amamentados por uma Loba, porém há a expressão latina "lupa" que designa prostituta, ou seja, podemos intuir que Rômulo e Remo foram criados por uma prostituta.
Na tradição portuguesa e galega, outro caráter feminino dos lobos era a "Peeira" ou "Fada dos Lobos", jovens que se tornavam guardadoras e companheiras dos lobos, correspondendo as versões femininas dos Lobisomens possuindo o poder de comunicar-se e controlar as alcateias.

O historiador Heródoto acreditava que os povos do Leste da Europa (onde se situa a Romênia), tinham a capacidade de se transformar, em certos dias do ano, em lobos, retornando depois disso a forma humana. Esses povos eram denominados "Neuros", atacando pessoas desprevenidas em rituais de antropofagia durante o culto ao deus-lobo.
Na Itália Central, sacerdotes do Sorano (um dos nomes de Plutão, rei dos infernos) do povo Sabino, que em épocas primitivas habitavam a região, se entregavam ao culto envolvidos de em peles de lobo, animal consagrado ao deus.
Na Ilha de Sumatra (Indonésia) os homens de uma tribo afirmam poder se transformar em tigres.

Na cultura soviética, as alcateias de lobos que uivam, nas noites de inverno rigoroso, são lobisomens que cumprem seu destino até voltarem a conviver com os homens.
Para os chineses, os lobisomens conservam sua forma animal, depois de mortos. Ainda existe a crença no lobisomem fêmea, em que a mãe de um general se transforma em uma loba após os setenta anos de idade.
Na África, o lobisomem feminino assume a forma de hiena ou pantera, sendo uma penitência a uma mulher que cometeu pecado mortal, cumprindo o destino em se transformar por sete anos.
Na Armênia, acredita-se que uma pele de lobo cai sobre ela, e durante a noite devora os próprios filhos, e seus parentes mais próximos, partindo para outras crianças, e ao amanhecer volta a ter a forma humana.
Na Bretanha de 1832, havia a crença de que o lobisomem eram homens que afastados do confessionário por 10 anos, se transformavam em lobos. Outras vezes o castigo era atribuído quando a pessoa não mergulhava seus dedos em pia de água-benta por sete anos.
O lobo é um animal conhecido comumente por ser voraz. Seu simbolismo remete a destruição e a voracidade de devorar toda matéria e o mundo, sendo então ligado de forma antagônica tanto ao fim, como ao recomeço.
Sua ligação com a noite o faz ter a fama de ser capaz de enxergar nas trevas, sendo seu Senhor, mas também seu servo. Ele é o guia que embora ligado a noite, é o que conduz a luz.
Sua fome o associa com a "goela", imagem simbólica de poder de sucção e da incapacidade diante do mesmo (pensemos na "Boca de Lobo" em nossas ruas, não é por acaso o nome). Assim como a noite é a goela do lobo, que nos consome por completo, mas que também nos proporciona a aurora, e o retorno. Um caminho inevitável ao Inferno.
O Deus Egípcio Anúbis era representado com cabeça de chacal ou lobo, sendo o juiz do submundo, e em determinadas regiões (Cinópolis, por exemplo) era venerado como Deus dos Infernos.


Contudo, o mito do do lobisomem remete desde o séc. 10 a.C. nos escritos de Heródoto e o "Povo dos Neuros", que já foram discutidos anteriormente, porém foi Petronious, autor romano da peça teatral "Satyricon" no ano de 5 a.C. , que uniu o fenômeno da Lua Cheia com à metamorfose de um homem em lobo, mas foi Ovídio no ano de 1 d.C. que escreveu sobre o mito do rei Likaon (ou Licaon).
A crença no lobisomem prevaleceu na Europa Medieval, tendo seu auge no final do século XVI. Na França, mais de 30.000 ações judiciais ocorreram contra Lobisomens, e quase 100 delas foram executadas, pois os acusados teriam cometido seus crimes na forma lupina. Durante esse período de "Caça às Bruxas" os lobos foram perseguidos e mortos, muitos chegando a quase extinção. A Igreja Católica via o lobisomem como encarnação do mal, sendo um descendente de Caim ou como uma monstruosidade criada ao se vender a alma ao diabo.
Foi na Europa Medieval que os lobisomens assumiram definitivamente de criaturas do mal, na França um dos casos mais conhecidos foi de Pierre Bourgot, um pastor que em 1521 foi julgado pelos assassinatos brutais de várias mulheres jovens, declarando que se transformava em lobo durante o processo.
Na época, na França qualquer pessoa que tivesse muito pelo corpo todo, com sobrancelhas grossas que se fundem, com a palma das mãos muito ásperas e calejadas, de olhos arregalados e grandes poderia vir a ser condenado lobisomem pela inquisição.
Foi nessa época que surgiram histórias como "Chapeuzinho Vermelho" e dos "Três Porquinhos", que estão longe de ser leves como nas versões da Disney, pelo contrário, nas histórias originais ocorriam estupros e canibalismo, que serviam como alerta a população.
Também não é a toa na história dos Três Porquinhos o Lobo Mau soprar as casinhas, pois os lobos sempre tiveram associações com as forças naturais, assim em dias de tempestade onde os ventos "uivavam" para a imaginação popular, eram lobos gigantes que traziam os ventos e as tempestades, devastando tudo.

Uma alcateia de histórias


O mito grego para o lobisomem é proveniente de épocas pré-históricas que foram inseridas a religião baseada no Olimpo.
A história conta que Licaon, rei da Arcádia, filho de Pelagro e primeiro soberano da região, tentou assassinar Zeus, que se hospedou junto a ele por uma noite. Zeus como castigo lhe deu a forma lupina.
Existem outras versões em que Licaon faz um sacrifício humano e sua transformação é a cólera divina em resposta. Outra conta que Licaon serviu para Zeus carne humana.
Segundo Pausanias, Licaon sacrificou um filho de Zeus no monte Licaeus, no fim o rei é igualmente punido com a forma animal, para sempre transformado em lobo, podendo apenas retornar a sua forma humana após se alimentar por 10 anos de carne humana.
Note que desde começo o rei já portava o lobo em si, pois seu nome tem a mesma raiz latina para palavra lobo (Licus, Luko).


Em sua "Histoire de La Magique en France", Garinet narra acontecimentos de 1573 onde Gilles Garnier foi a julgamento, depois de ter sido acusado de ter devorado várias crianças em sua forma de Lobisomem. Foi então condenado, tendo sido arrastado até o local da execução e queimado vivo.
Garnier confessou durante o seu depoimento que, vendo-se cheio de problemas, foi a floresta em busca de calma, lá encontrou um fantasma que possuía forma humana. Este ser lhe propôs a faculdade de se transformar em lobo ou qualquer outro animal. Escolhendo a forma de lobo, Garnier conseguiu a metamorfose com unguento especial.
O caso foi em uma aldeia francesa nas proximidades de Dôle, em que um grande lobo foi responsável pela morte de dezenas de crianças, constatou-se que o animal tinha uma grande semelhança facial com Garnier, que confessou tudo sob tortura.

Outro caso descrito foi de Jean Grenier, um menino de 13 e 14 anos que confessou ter matado crianças quando estava metamorfoseado em lobo. Em seu relato, disse ter sido apresentado por seu vizinho ao Senhor da Floresta e que este lhe dera um ungüento para esfregar. O ungüento ficava sob a guarda do Senhor da Floresta, porém Grenier tinha liberdade para usá-lo como desejasse.
Grenier foi declarado como portador de licantropia, e assim, conseguiu ser condenado à prisão perpétua no Monastério Franciscano, e não a pena de morte.

Outro caso foi o de Victor de Aveyron da França, que foi diagnosticado como autista por Jean Itard. Graças ao trabalho paciente e amoroso de Itard, Victor aprendeu a falar, embora mantivesse muito do seu comportamento selvagem, mas conseguiu atingir a idade de 40 anos.

Outros casos conhecidos são as crianças lobo, que no início do séc. XX vieram ao conhecimento do público, relatos de crianças lobo na Índia, crianças babuíno, gazela e macaco na África. Tais crianças foram classificadas como Homo ferus por Lineu no séc. XVIII, mas tal designação não foi usada, eram conhecidas pelo seu comportamento selvagem, desdém por autoridades, indiferença ao uso de roupas, e em alguns casos afinidade por carne crua.
Agindo como animais, estas crianças uivam, mostram os dentes para mostrar desprazer, arfam como animais quando sentem calor, e corre sob quatro membros, um caso foi conhecido foi de Amala e Kamala, garotas feras encontradas em Calcutá, Índia.
As garotas foram encontradas por um missionário local, quando este tocou 3 lobos adultos de uma toca, e as encontrou junto aos filhotes. Colocadas em jaulas foram transportadas até um orfanato local. A viagem as desgastou, e quando ao final dela não tinham nem forças para beber água de lenços úmidos. Amala morreu com 2 anos e meio de idade e sua irmã morreu aos 17 anos por intoxicação, provavelmente causada pela dieta que lhes foi imposta.


Os Cynocephali, ou cabeças de cachorro, é uma raça descrita "Natural History" - Pliny de homens que possuíam corpos humanos, mas com cabeças de cachorro. Segundo o livro, estes seres viviam nas montanhas da Índia e latiam para se comunicar entre si, vestindo peles de animais, caçavam se utilizando de artefatos primitivos como arcos e flechas.
Outros relatos dos Cynocephali os mostravam de forma muito mais monstruosa, como o de Alexandre, o Grande, que os descreve como seres de enormes dentes e respiração de fogo. Outras fontes os descrevem como canibais, mas independente das descrições um ponto em comum era a dupla natureza (homem e animal).
Segundo fontes, os Cynochephali e outras raças parecidas eram conhecidos pela Igreja, que os usavam como soldados do Cristianismo. São Christopher, ou São Cristovão é o patrono dos viajantes e marinheiros, em muitos relatos ele seria um Cynocephali, um lobisomem. Está parte de sua história foi removida da literatura ocidental, contudo muito ainda se encontra na Irlanda e nas regiões que tiveram influência Celta, que sobreviveram graças ao fato dos monges irlandeses saberem grego, e sua cultura não ter sido tão afetada pelos romanos, como as outras na Europa.
São Cristovão teria nascido com a cabeça de Reprobus (um cachorro pagão), mas a alegria de sua conversão ao Cristianismo o redimiu, permitindo-o abandonar sua forma bestial. Sua imagem popular era de um gigante carregando Cristo criança, mas uma razão para está imagem era de que ele era um convertido de uma raça monstruosa.
Com o passar dos anos a história dos Cynocephali foi alterada, e acabou no terror do Lobisomem no séc. XVII.

Mais um caso é de Leonid Kliuchevskiy, de Perm, que anunciou pertencer a um clã antigo de lobisomens. Segundo ele, todos os homens de sua família são tendo em comuns cabelos e pêlos cinzentos e uma marca verde na face.
A descoberta se deu no funeral do pai, em que o bisavô insistiu para que se cortassem os tendões dos calcanhares do morto e que sua boca fosse preenchida com moedas para que após a morte não se tornasse um vampiro.
Leonid conta que seu pai lutou contra a maldição, bebendo bílis durante as luas cheias para escapar às mutações.
Os sintomas da maldição começam na adolescência: "É difícil descrever minha experiência. Pouco antes da lua cheia eu sofro com terríveis dores de cabeça, sinto-me agressivo e ansioso. Minha face se alonga, os pêlos do meu corpo se multiplicam, meus dedos se encurvam a minha percepção de sons e cheiros tornam-se muito aguçada". Leonid e seu irmão tornaram-se policiais e usam seus sentidos afiados no serviço de patrulhamento.
No entanto, o caso de Leonid é raro, segundo Vladimir Kon, especialista em fenômenos paranormais. Ele explica que: "maldição de família pode ter uma explicação científica: "Ao longo da história humana sempre existiram indivíduos com desvios psicológicos e/ou de percepção; algumas dessas alterações podem funcionar como dons especiais. Essas anormalidades são passada de geração em geração. São genéticas, hereditárias. Leonid pode ter preservado os instintos de seus ancestrais mais recuados. “Estes instintos se manifestam durante a lua cheia que, sem dúvida, exerce influência sobre os ‘humores’ (metabolismo) dos homens”.


Farejando na noite...



Nas diversas culturas o lobisomem se apresenta em diferentes roupagens, não assumindo necessariamente a forma lupina, podendo apresentar outras formas, dependendo da região. E a forma de se tornar um lobisomem também varia muito, e com o advento do cinema a lenda se espalhou, modificou novamente, e se unificou.

A principal forma de se tornar um lobisomem é ser mordida por outro, sofrendo então uma infecção. Neste caso, a "doença lupina" só pode ser curada quando o lobisomem que passou a infecção for morto.
Outra crença muito conhecida é de que o Lobisomem só se transforma em noite de lua cheia.

Versões variadas remetem a maldição do lobisomem, para os portugueses, o 7º (podendo variar entre o 5º e o 9º) filho incestuoso, possuindo certas características:
- Único menino caçula;
- Orelha pontuda;
- Nascer em um lugar onde se revolveu um cavalo (ou burro) numa noite de sexta-feira.
A partir daí em todas as sextas feiras da meia-noite às duas da manhã o lobisomem irá visitar 7 cemitérios, 7 vilas, 7 colinas e 7 encruzilhadas e volta ao local onde se revolveu, voltando a aparência humana. Essa lenda também tem grande influência no Brasil, com algumas variações.
Em algumas lendas, a pessoa adquire a maldição após ritual onde tenha feito um pacto com o Diabo ou outra entidade maligna.
Na Rússia, pessoa que deseja se transformar deve procurar na floresta uma árvore derrubada, esfaqueá-la com uma pequena faca de cobre e andar ao redor da árvore recitando encantamentos, em seguida salta três vezes sobre a árvore e corre para dentro da floresta transformado em lobo.
Em muitos lugares, se mantém a crença de que os lobisomens são magos negros que transformam seus corpos etéreos em lobos sangrentos que devoram pessoas.
Algumas características corporais reunidas eram suficientes para que uma pessoa fosse apontada como lobisomem:
- orelhas pontudas;
-sobrancelhas juntas;
-magreza;
-palidez;
-nariz fino;
-em algumas lendas o cabelo ruivo;
- há também a menção do lavrador de aspecto rude.

 As principais formas de adquirir a maldição são:
- Pela própria maldição, onde a pessoa se transforma no denominado Lobisomem Alpha, que ganha sua maldição por desafiar ou destruir um poderoso mago. Ele irá descobrir sua maldição na primeira noite de lua cheia, depois do feitiço. A primeira metamorfose é a mais traumática, dada a surpresa.
-Pela transmissão hereditária, onde a criança obtém sua maldição de seu pai ou mãe.
-Por sobreviver a um ataque. A pessoa mordida irá dormir bastante nas próximas semanas, enquanto a doença irá propagar por seu corpo. Na primeira lua cheia a vítima irá descobrir sua maldição.
- Outro método de se tornar um Lobisomem é ser mordido por um Lobo que tenha decidido amaldiçoar um homem. O princípio continua então como a maldição por mágica, com metamorfose ocorrendo na primeira noite de lua cheia.
- Há também o método pela auto-indução. Por meio de rituais, o ocultista torna-se um lobisomem. Os casos clássicos incluem um banho de banha de porco sob a lua cheia ou espojar numa encruzilhada onde os animais façam espojadura.

Quando a pessoa é branca, torna-se um cachorro negro e quando é negro vira um cachorrão branco.
Em algumas versões o lobisomem sai nas noites de quinta a sexta em busca de coco de galinha para comer, por isso invade galinheiros. Depois disso ele vai à busca de crianças de colo para lamber suas fraldas sujas de coco.

As formas de se curar da maldição são variadas, matar o lobisomem que o transformou é uma delas. Contudo, certos amuletos, ervas, ungüentos, feitiços e exorcismos também são citados.
Porém, a forma mais celebre de se matar um lobisomem é através da bala ou algum objeto de prata.
Há crenças que para se afastar um lobisomem, você deve fincar os pés juntos e abrir os braços (formando uma cruz) repetindo eu "eu creio", por ser uma entidade maligna o lobisomem será afetado. Quando se mata um lobisomem, dizem que se pronunciar o nome da pessoa ou dizer "matei uma pessoa" ela voltará a sua forma humana, se ao contrário pronunciar "matei um animal" ela continuará em sua forma animal.


A alcateia



Existe uma hierarquia, um Lobisomem Alpha é que se pode considerar como reprodutor, podendo gerar uma série de Lobisomens Beta na terra, tanto por reprodução como por mordida.
Um Lobisomem Alpha tem como principal característica sua capacidade de liderança, devendo manter a lealdade dos Lobisomens Beta, pois do contrário podem ocorrer violentas disputas. Um Lobisomem Beta pode causar muitos atritos em uma alcateia, e como os Lobisomens Alpha, ainda que líderes, não podem machucar um Lobisomem Beta de sua família sob pena de sofrer os mesmo danos infligidos, levando-o a morte. Por outro lado, um Beta pode matar outro, sendo assim um Lobisomem Alpha sempre tem junto de si outros Lobisomens Beta.
É similar à árvore genealógica onde nenhum pode ferir seus descendentes, mas sim, ferir seus ancestrais e irmãos, e ainda, com o fato de que matar um ancestral irá causar uma quebra na cadeia e abençoar todos da mesma família. A maldição é quebrada quando o Lobisomem Alpha é eliminado.


O lobo que virava homem ou o homem que se tornava lobo...?


Todas estas lendas e suas variações são apenas formas do homem lidar com sua própria bestialidade.
A licantropia é descrita como uma monomania na qual o doente acredita que se transforma em lobo ou outro animal selvagem. Tal estado mental pode ser desencadeado por drogas, estresse, depressão, e independente das causas devem ser tratada com seriedade e respeito devidos.
Para alguns estudiosos o lobisomem era um lobo verdadeiro que foi possuído por um demônio que o torna mais feroz, audaz e invulnerável. Mas a crença mais aceita é a de que, o lobisomem é um bruxo metamorfoseado em animal ou vestindo a pele de um verdadeiro.
Numerosos lobisomens foram durante o século XVI condenados e queimados depois de haver confessado os seus delitos.
Muitas vezes o mito do lobisomem aparece mesclado ao do vampiro, como podemos observar na região dos Bálcãs do sul, onde era usado o termo Vrykolokas. Havia, no entanto, certa confusão na aplicação deste termo e seu significado.
Com o tempo o termo passou a significar somente vampiro, e foi por fim substituído por esta palavra, bem como a mudança da figura do lobo perante os povos daquela região (de animal guerreiro para fera).
Entre os modernos romenos existe uma criatura parecida com o lobo, o tricolici (ou pricolici) um homem que pode assumir a forma de um porco, um cachorro ou menos frequentemente a de um lobo.


Na foto Petrus Gonsalvus, foi um poderoso comerciante e armador português do séc. XVII, que instalou importantes empresas no Brasil

Há também casos, em que devido à genética, os indivíduos apresentem densa pelagem no corpo, sendo então chamados de lobisomens, como é o caso dos Irmãos no México. Por se tratar de algo hereditário não é raro encontrar famílias inteiras com essa característica.

Tal condição genética é conhecida hoje como hipertricose generalizada congênita, afetando homens e mulheres ao redor do globo.



No fundo todos possuímos uma besta interior que por vezes deixamos sair a noite, a liberamos para uivar para lua nossos desejos mais escondidos. Essa besta que não ousamos encarar, e que acreditamos ter domesticado, pode nos surpreender ao nos mostrar quem realmente somos, e que estamos todos bem longe de sermos controlados.


Fontes: Therian Brasil

                Santuário do Feiticeiro

                Morte Súbita

                Rosane Volpatto