10 de agosto de 2010

Iminência

          Ah se eu realmente pudesse... Pois então eu me empanturraria como todo mundo dessa farta leviandade dos corações. Então eu me banharia nesse riso leve, nessa alegria banal que a todos acomete o tempo todo, como uma chaga cujo sintoma maior é a própria vida; eu calaria o meu prazer libertino na dor, encerraria em meus porões a preferência pelos dias chuvosos, pelas horas desfeitas, a minha escolha pelo adeus em oposição a mil olás. E me parece claro, dadas as circunstâncias, que, se eu pudesse, se eu realmente pudesse, então talvez eu alcançaria esse nirvana das emoções, esse eterno orgasmo dos sentimentos; talvez eu alcançasse o último raiar do sol e conseguisse esticá-lo, e assim cobrir a noite, e assim aquietar o silêncio. Mas, como bem sabes, meu caro, eu não posso.
          Faltam-te o quê? quatro ou cinco passos, contando com o que dou neste momento. Lembras de nossa primeira noite, nosso primeiro momento, e de como eu estava fartamente vestido de esperanças? Mas tu, ah, sempre te mantiveste fielmente despido de quaisquer olhares ao horizonte. Sempre riste o amargo riso do escárnio rancoroso diante das flores. E tens de admiti-lo, tu, mais do que todos os outros, ofertaste a mim muitas flores. E eu, como bom amante de tuas, nossas palavras, sempre aceitei tais flores, com o doce sorriso da esperança renovada.
          Faltam-te o quê? mais tantos e tantos versos para sussurrarmos juntos, e mesmo assim já suscitas de mim soluços pela iminente despedida. Quem virá após ti? Quem poderá me ensinar algo que tu, em todas as frias tempestades, já não me tenhas feito aprender? Quem apanhará minha mão, e não a recusará por estar gelada? Quem, afinal, poderá vencer tua voz?
          Faltam-te o quê? um, e outro, e talvez mais dois abraços, e então irei embora. E eu bem sei que tu, em tua habitual frieza - porque jamais alguém foi tão calidamente frio como tu para mim - não me pedirás para ficar. Não. Eu então me virarei, e como um fraco te darei a chance de me apanhar de volta. E obterei um singelo adeus como resposta.
          Faltam-te outras flores? mais árvores? outros lobos? mais pássaros? Não! A ti não falta nada! Tu sempre foste completo, um deus perante quaisquer ponteiros ou reflexos. Talvez apenas nos falte uma última tempestade, ou algumas, mas já não importa. Pois aqui estou, diante de ti, e diante de ti, apenas, eu pude ser sincero. Qual tua reação? Lágrima, riso, indiferença? Não... desde sempre, quando me prostro aos seus pés, quando grito aos céus com a boca vendada diante de ti, tu me olhas com o profundo olhar, o sincero olhar empático que, se não me levanta, ao menos me permite deitar em paz.
          Pois falta-me tudo, meu mais caro amigo, falta-me tudo! Pois, em tua plenitude, eu me tornei amante, não de risos ou volúpias, mas do vazio. E talvez até, numa noite ainda aparentemente distante, eu possa voltar a ti, e te dizer ao pé do ouvido, quando não mais me esperares, quando não mais te lembrares de mim  – cometerás essa virtude? –, então te direi, num cálido sussurro, direi a ti, meu amado Jardim, que eu consegui. Perguntarás, com olhos de saudade, o que afinal eu consegui. E eu te abraçarei, e neste póstumo e gélido abraço eu confessarei ao teu ouvido:
          "Eu amei!"

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Escrito no Jardim, em 09/08/2010, às 03:20h.