31 de agosto de 2010

A música e sua teoria (3ª parte)

           A música, basicamente, nasce e divide-se em duas partes: a primeira é a voz humana, que busca expressar sentimentos; a segunda pode ser observada no soar em conjunto de vozes. A primeira representa a raiz da música vocal (também expressa no canto em uníssono) e a segunda, a raiz da música instrumental.
          O ritmo é a alma da música, ele provavelmente teria se originado nos movimentos do corpo humano, e daí teriam surgido os primórdios musicais. Ele é tão importante que é o único elemento que pode existir independente dos outros dois: harmonia e melodia.
          Outro elemento importante é a harmonia, que responde pelo desenvolvimento da arte musical. Foi da harmonia das vozes humanas que surgiu a música instrumental.
          A melodia é a expressão das capacidades musicais, desenvolvida através da união da língua, da acentuação das palavras, enfim, da fala e seus maneirismos, formando assim uma sucessão de notas características que resultam em um padrão rítmico e harmônico reconhecível.

          A junção destes elementos forma as consonâncias e dissonâncias. A primeira corresponde basicamente aos sons que para nossos ouvidos são harmônicos, e dissonância se refere ao contrário disso, ou seja, o que nos soa desagradável. Contudo, isso não forma um padrão; este conceito pode variar de país a país, e até mesmo pode mudar junto com as épocas. Um exemplo são certos acordes, que eram considerados dissonantes (e inclusive pagãos) na Idade Média, e que aos ouvidos atuais são considerados perfeitamente consonantes. E estas diferenças podem se tornar ainda maiores quando comparamos a música ocidental, a indiana e a chinesa, podendo-se perceber até mesmo paradoxos.
          Cada povo possui suas consonâncias e dissonâncias, refletindo sua cultura, sua identidade, sua subjetividade, enfim, a história de cada povo. Assim, a música basicamente é a expressão dos sentimentos através de sons combinados de modo artístico; ou ainda a ciência que pertence aos domínios da acústica, e que se modifica de acordo com as culturas.
 Definições

          A música é feita de sons, tradicionalmente descritos segundo quatro parâmetros:

- Altura: frequência definida de um som. É o que diferencia um som de um ruído. Não confundir com volume (intensidade).

- Ritmo: distribuição inteligível dos sons (e silêncios) no tempo.

- Intensidade: a força relativa de um som em relação a outros.

- Timbre: qualidade dos sons. Diferencia a mesma altura tocada em dois instrumentos diferentes.

- Enarmonia: apesar do nome estranho, é algo bem simples: quando um mesmo som pode ser atribuído a duas notas diferentes. Por exemplo, lá sustenido (A#) e si bemol (Bb), si sustenido (B#) e dó (C), e assim por diante. O conceito de enarmonia só passou a fazer sentido com o advento da escala cromática (com todas as notas possíveis da escala), pois antes tais notas “iguais” realmente eram encaradas como diferentes.

- Melodia: "Toda e qualquer sucessão inteligível de sons" é uma definição suficiente para abarcar os mais variados estilos. Na linguagem cotidiana, "melodia" refere-se a uma sequencia de alturas com ritmo definido e sentido de conjunto. A melodia é o que você assobia quando se lembra de uma canção. Por analogia à leitura de partituras, onde cada nota é escrita ao lado da outra, diz-se que a melodia representa a dimensão horizontal da música.
- Harmonia: Combinação inteligível de várias alturas soando ao mesmo tempo. Cada combinação forma um acorde; a harmonia é a lógica da formação e sequencia dos acordes. Se a melodia é a dimensão horizontal, a harmonia é sua dimensão vertical. Ela não se limita à elaboração de acordes, mas também à relação entre eles. A harmonia é um sistema hierárquico: alguns sons são mais importantes do que outros para a música. Academicamente, pode ser chamada de “ciência de concatenação de acordes”, e é tida como ‘ciência-mãe da música, pois em nenhum outro parâmetro relativamente autônomo do som, tal como a intensidade ou mesmo a duração, tem-se um tal grau de articulação possível como o que se tem no domínio das alturas’ (retirado do prefácio de Flo Menezes à edição brasileira de Harmonia, de Schoenberg).

- Contraponto: Arte de sobrepor duas ou mais melodias. Há vários tipos possíveis de contraponto (ou polifonia); a noção básica a todos é a criação de várias melodias independentes, que soam ao mesmo tempo na composição. Cada uma das quatro vozes de uma peça coral (soprano, contralto, tenor e baixo) tem sua linha melódica própria, que se combina com as demais. As "vozes" de uma composição instrumental seguem o mesmo princípio.

- Tonalidade: Sistema de organização musical, predominante desde o período barroco (século XVII) até o início do século XX. A tonalidade estabelece uma sintaxe da composição, baseada na hierarquia de notas e acordes. De acordo com esse sistema, a nota mais importante de todas é o primeiro grau da escala (tônica), seguida pelo quinto (dominante) e pelo terceiro (mediante). Outras notas geram tensão ('dissonâncias') e devem ser 'resolvidas' retornando às primeiras. Os acordes básicos são 'tríades': uma nota fundamental, mais a terça e a quinta (dó-mi-sol, ré-fá-lá, mi-sol-si etc). Toda peça tonal está centrada necessariamente no acorde de tônica; e tem de procurar maneiras de se afastar e retornar a ele. A hierarquia tonal reproduz, aproximadamente, a estrutura interna do som (que fisicamente é uma sobreposição de comprimentos de onda, alguns mais fortes do que outros). A tonalidade é, de fato, uma forma extraordinariamente integrada de pensamento musical: a organização interna de cada som espelha-se na hierarquia, nas seções e mesmo na forma musical inteira (as seções resolvem-se umas nas outras da mesma forma que os graus da escala). Esta dinâmica de atrações e repulsões promovida pela tonalidade permite a elaboração de narrativas musicais complexas. Escutar uma peça tonal é acompanhar (consciente ou intuitivamente) esse drama em notas. A enorme maioria das obras que se conhecem como 'música clássica' são tonais. Mas o período tonal não é muito longo na história da música: no sentido estrito, a tonalidade existe do meio do barroco ao fim do romantismo, aproximadamente 250 anos. Ainda hoje há compositores que escrevem música tonal, mas a tonalidade chegou a um limite com os compositores modernistas e deixou de ser a corrente mais importante do pensamento musical erudito há pelo menos 70 anos.


 A estrutura modal e a harmonia moderna

          A estrutura modal, apesar de ter sido utilizada largamente a partir da Idade Média, não surgiu nessa época, mas remete aos modos gregos. Tais modos (compilados pelo papa Gregório I – e que daí se origina o termo gregoriano) eram utilizados nas diferentes regiões da Grécia antiga. Os modos gregos originais são: o modo jônio, ou iônio (da região da Jônia), o modo dórico (da região de Dória), o modo frígio (da Frígia), o modo lídio (da Lídia) e o modo eólio (da Eólia). Há também outros dois: o modo mixolídio, que é uma fusão dos modos lídio e dórico, e o modo lócrio. Este último, criado posteriormente por teóricos da música para completar o ciclo, é de pouca usabilidade prática e raríssima utilização, apesar da música erudita e popular – principalmente o jazz – do século XX utilizar a quarta aumentada largamente, pois a tensão provocada pela dissonância pode ser usada para finalidades expressivas. Mesmo assim, o modo lócrio raramente é usado em sua totalidade.
          Desde a Grécia antiga os modos eram utilizados de acordo com a música que seria executada. Assim, se por exemplo a música faria parte do culto a um determinado deus, então deveria ser executada em determinado modo. Porém, com o temperamento da escala (quando se encontram todos os intervalos possíveis entre as notas, incluindo todos os semitons) e a estipulação de uma afinação padrão, os modos gregos perderam gradativamente sua importância, visto que a escala cromática (com todos os semitons) engloba todos os modos.
          Eles foram, então, classificados em “maiores” e “menores”, como segue:

Modos maiores: jônio, lídio e mixolídio
Modos menores: dórico, frígio, eólio e lócrio (este podendo também ser classificado como diminuto).

          O modo jônio é, notadamente, o que conhecemos como escala maior padrão, e o modo eólio é a atual escala menor padrão.
          Atualmente, para se utilizar os modos gregos, é preciso ter conhecimento sobre harmonia, para se poder entender os encadeamentos harmônicos que cada escala modal propõe. Porém, mesmo não tendo mais tanta aplicabilidade prática, os modos gregos influenciaram toda a harmonia – e, por consequência, a música – ocidental.

A escala diatônica

          Alguém que comece a aprender algo sobre teoria musical se deparará, logo no começo, com as conhecidas notas: dó, ré, mi, fá, sol, lá e si. Essas notas – que apenas possuem esses nomes no Brasil e em mais alguns outros países (na vasta maioria dos países cada nota é representada somente por uma letra: C, D, E, F, G, A e B, respectivamente) – são a base de todo o aprendizado em teoria musical. Mas esse mesmo alguém pode – como eu e certamente mais outras pessoas – em algum momento se perguntar: por que existem apenas 7 notas, e por que justamente estas, com essa sonoridade? A resposta, assim como no tópico anterior, está na Grécia antiga.
          O sábio grego Pitágoras acreditava que tudo no Universo era regido por números. Assim, ele notou que uma corda esticada, quando posta em vibração, emite um determinado som. Porém, se o comprimento dessa corda for reduzido à metade, um som mais agudo é produzido, que guarda uma relação muito interessante com o primeiro. Para variar o comprimento da corda, basta pressioná-la na posição desejada, e assim a parte vibrante é reduzida (como em um violão ou violino).
           Pitágoras dividiu assim a corda em frações determinadas: 1/2, 1/3, 1/4 e 1/5. Supondo que a corda esteja afinada em dó (a afinação em si é totalmente arbitrária, o que valem são os intervalos), tais frações geram as notas dó (“oitavada”), sol, fá e mi, respectivamente. Como toda nota é gerada por determinada frequência, e como a frequência é inversamente proporcional ao comprimento da corda, atribuindo o valor 1 à frequência fundamental da corda, obtêm-se as seguintes frações: mi = 5/4, fá = 4/3 e sol = 3/2.
          Assim, as notas musicais são geradas a partir de relações numéricas simples com a frequência fundamental: multiplicando a frequência da corda por 2, obtém-se uma nota que recebe o mesmo nome da anterior (nota oitavada), por exemplo. Pode-se notar nas frações já citadas que a quinta, ou dominante (no caso o sol, ao supormos que a corda está afinada em dó) possui a relação 3/2.
          Assim, para descobrir as outras notas que faltam na escala, basta multiplicar as frequências (ou frações) das notas já encontradas por 3/2. A partir do mi obtém-se o si (si portanto é dominante de mi), do sol obtém-se o ré, do fá obtém-se o próprio dó e, a partir do ré, obtém-se o lá, completando assim a escala diatônica.
           A escala diatônica (ou escala de sete notas) possui cinco intervalos de tons e dois intervalos de semitons entre as notas. Este padrão se repete a cada oitava numa sequência tonal de qualquer escala. A música ocidental e a fundação da tradição musical europeia utilizaram e utilizam largamente a escala diatônica (por isso conhecemos as notas de cor). Todos os sete modos gregos são diatônicos, assim como as escalas modernas maior e menor (que, como já explicado, “descendem” dos modos gregos).





Esta postagem faz parte de uma série especial de artigos sobre música: 


Um ano de pensamentos (introdução)
A música e a mitologia (1ª parte)
A música na História (2ª parte)



Fontes dos três artigos:

          Spectrum - Música Medieval
          CrowMusic - Música Irlandesa
          Blog Cultura Japonesa - Hogaku
          Fundação Japão - Cultura Japonesa
          Folha de S. Paulo, 24 de março de 1998 - A Música
          Wikipedia - Modos Gregos
          Wikipedia - Raga (em inglês)
          Wikipedia - Escala Diatônica
          Livro "Harmonia", de Arnold Schoenberg