31 de agosto de 2010

A música na História... (2ª parte)


              A música é algo intrínseco à história do ser humano, e uma das suas manifestações mais antigas e importantes.
               Deixando-se de lado a mitologia, a cultura musical no Ocidente obteve seus fundamentos na Grécia. Em Roma, foram inventados instrumentos como: o trompete reto e o hydraulis, o primeiro órgão de tubos, cujo fluxo constante de ar nos tubos era mantido por meio de pressão de água.

Tradições Indianas
 
                As tradições musicais da Índia vêm desde o século XIII a.C., sendo baseada em tons, semitons e microtons, sistema conhecido como rāga, e os músicos tocavam instrumentos de sopro, cordas e percussão. Uma rāga é (parcamente) comparável a uma escala ocidental, porém vai muito além disso – até porque algumas rāgas compartilham a mesma “escala”. Basicamente, uma rāga é um conjunto de swara (notas) que denotam uma determinada ambiência. Há duas vertentes na música clássica indiana: a música Hindustani (proveniente da Índia setentrional) e a música Carnática (proveniente da Índia meridional).
              O modo básico de referência na prática Hindustani moderna (que é conhecido como suddha, ou básico) é equivalente ao modo jônico ocidental. Fazendo um paralelo com o sistema harmônico ocidental, o primeiro grau (Shadja, ou simplesmente Sa) e o quinto grau (Pancham, ou Pa) são imutáveis, e essencialmente tons sacrossantos; todos os outros intervalos, segunda, terça, quarta, sexta e sétima (respectivamente, Ri ou Re, Ga, Ma, Dha e Ni) variam de acordo com a rāga escolhida.
                Muitas rāgas Hindustani são “prescritas” para uma determinada estação, ou mesmo hora do dia.  Quando tocadas no momento determinado, tais rāgas alcançam seu máximo efeito. Por exemplo, muitas rāgas do grupo Malhar são tocadas durante o monção (ventos sazonais da mudança da estação chuvosa para a de estiagem), por serem a este associadas e terem o poder de trazer chuva. Porém, essas prescrições atualmente não são muito seguidas (até porque a maioria dos concertos acontece à noite), e no último século nota-se uma forte tendência dos músicos indianos a adotarem as rāgas da Índia meridional, que não possuem associações com horas do dia ou estações.
            Há, ainda, um sistema de classificação de rāgas já impopular, chamado rāga-rāgini. Consiste de seis rāgas “masculinas”, cada qual com seis “esposas” (rāginis) e um certo número de “filhos” (putras) e até mesmo “noras”. Rāgas e rāginis foram frequentemente ilustradas como deuses Hindus, príncipes Rajput e mulheres nobres num ciclo eterno de amor, saudade e satisfação.




A música e a Idade Média

       Em toda a história do homem, nenhuma época foi tão marcante em suas crenças, e principalmente, sua ligação cotidiana tão perto do divino quanto a Idade Média. Neste período também a música foi grandemente influenciada.
          É na Idade Média que podemos observar o surgimento e o desenvolvimento da polifonia escrita e das primeiras notações musicais. Sempre com um caráter litúrgico ou ligado a ele, também pode-se relacionar a música aos ritos de reminiscência pagã (como as festas que marcam equinócios).
           Foi na Idade Média que o amor profano foi traduzido na arte dos trovadores e a monofonia atinge seu período de maturidade no Ocidente.
          O período da música medieval é marcado pela estrutura modal praticada nas himnodias e salmodias, no canto gregoriano, nos organus polifônicos, nas composições polifônicas da Escola de Notre-Dame, na Ars Antiqua e Ars Nova e ainda na música dos trovadores.
Organetto

Os principais instrumentos utilizados nesta época foram:

* Flauta reta: que engloba as flautas doces (flauta de oito e seis furos). É classificado na Idade Média como instrumento de som suave, baixo, diferenciando-se dos instrumentos altos, como as bombardas.
* Organetto ou Portativo: é o antecessor da Gaita de Fole escocesa, possuía o nome de Portativo, porque seu executor podia carregá-lo. O primeiro centro de construção de órgãos na Idade Média foi Bizâncio.
* Saltério: suas cordas são estendidas em todo o seu comprimento acima da caixa de ressonância, ao contrário do principio da harpa. É tocado pinçando-se as cordas com os dedos ou com plectro. Aparece em uma escultura da catedral de Santiago de Compostela do século XII.
Saltério
* Rabeca: instrumento de cordas friccionadas, escavada em uma só peça de madeira. Suas formas variam entre ovais, elípticas ou retangulares. De proporções menores do que a viela de arco, tem um som agudo e penetrante.
* Flauta Dupla: instrumentos de sopro duplos são reconhecidos desde a Antiguidade. A flauta dupla foi bastante utilizada desaparecendo somente no século XVI.
* Percussão: praticamente não existia antes do século XII, salvo nos jogos de sinos (Cymbala) utilizados nos mosteiros. Vindos provavelmente do Oriente, entre o século XII e XIII, apareceram na Europa os tambores de dois couros, o pequeno tambor em armação, que por vezes era dotado de soalhas, ou pandeiros, címbalos de dedos e outros.
Alaúde
* Harpas: as harpas são reconhecidas por sua forma aproximadamente triangular e pelas cordas de comprimentos desiguais estendidas em um plano perpendicular ao corpo sonoro. As cordas são presas por cravelhas, e podem variar, no número, de 7 a 25. A pequena harpa portátil teve sua origem na Irlanda, com a vinda dos monges irlandeses.
* Alaúde: o alaúde foi introduzido na Europa pelos mouros, no século XII, mantendo seu nome árabe (A'lud, que se tornou Laud na Espanha, depois Luth na França).


          Em muitos momentos a música se torna elemento fundamental, e representativo da cultura de um povo, como podemos observar na música irlandesa, onde durante um longo período de dominação britânica as canções se tornaram uma forma de patriotismo e cultura. 



Música Celta e Música Irlandesa

          Em termos gerais, o termo 'celta' define a música tradicional das nações celtas - especialmente Irlanda, Escócia e Bretanha francesa - e também a música preservada pelos imigrantes dessas terras celtas nos EUA e no Canadá. De forma alguma, contudo, pode o termo "música celta" referir-se à música produzida e executada pelos celtas da Idade do Bronze, por um motivo muito simples: não há o menor registro de como era a música daquela época.
             Portanto, podemos dizer que, se o termo "música irlandesa" é bastante abrangente, o termo "música celta" é ainda mais! Ambos se misturam e se mesclam, o que pode soar um pouco confuso a quem estabelece contato pela primeira vez com os estilos, mas a exposição constante e ouvidos atentos logo facilitam a compreensão.
              A música é seguramente uma das mais preciosas manifestações da alma humana. Por seus feitos, alguns indivíduos ultrapassam os limites de seu tempo e entram para a história como guardiões da tradição musical de um povo. Abaixo, alguns dos nomes mais importantes para a formação da Irish Trad Music.

Turlough O'Carolan:
Impossível falar de música irlandesa sem mencionar Turlough O'Carolan, o harpista cego que deixou os primeiros registros da música irlandesa ainda no séc. XVIII. Seu intercâmbio com compositores continentais fez dele um nome conhecido em outras terras, e também garantiu a introdução de outros elementos musicais à sua arte. Sua música era predominantemente composta para a harpa, instrumento tradicional dos bardos e poetas da Irlanda celta, e o fato de O'Carolan atuar como músico itinerante faz dele um herdeiro direto da tradição dos poetas celtas da Irlanda medieval e pré-cristã. Após O'Carolan, muito por força da opressão cultural e política britânica, a música irlandesa não produziu nenhum nome de vulto até seu renascimento já no século XX.



Sean O'Riada : O "pai" da música tradicional irlandesa nasceu John Reidy, em 1931, mas logo adotou a versão 'gaelicisada' de seu nome por amor à sua cultura e sua nação - amor que fica evidente já em seu primeiro trabalho de vulto: a trilha sonora composta para o filme "Míse Éire" ("Eu sou a Irlanda", 1951) sobre o nascimento da nação irlandesa. Anos mais tarde, O'Riada criaria e dirigiria o mítico Ceoltóirí Chualann, grupo que resgatou muitas músicas tradicionais que estavam condenadas ao desaparecimento nos rincões rurais da Irlanda e, através de programas televisivos, garantiram que tais músicas fossem conhecidas pelas novas gerações.



Tradições Japonesas

             O Japão é um país de cultura milenar, no entanto, a influência da música ocidental, que foi introduzida no século 19, tornou-se popular rapidamente, ofuscando em muitos momentos a música tradicional.
             O Hogaku é o nome da música tradicional japonesa, existindo vários tipos:
             O Min' yo (música folclórica japonesa), refere-se às músicas de tradição oral ou de autores anônimos cantadas pelo povo. Contudo, também inclui músicas clássicas, teatrais, ou ainda populares urbanas. Algumas músicas são somente instrumentais, enquanto outras são utilizadas como acompanhamento de danças, festivais e rituais. Existem outros tipos de min'yo, que são considerados híbridos com o estilo ocidental, onde os intérpretes utilizam tecnologias diversas.
            O Kayokyoku (música popular japonesa) é o estilo comumente apreciado no Japão, junto com o pop. O primeiro sucesso kayokyoku foi "Kachusha no Uta", de 1914.


Gagaku: era comumente executado nas cortes da China e Coréia, sendo um dos mais velhos tipos de música tradicional japonesa.

Biwagaku:
música executada com o biwa, um instrumento semelhante ao violão, com 4 cordas.

Nogaku: c
onsiste em um conjunto formado por: hayashi (flauta), tsuzumi (tambor) e outros instrumentos.

Shakuhachi: música predominantemente executada pelo shakuhachi. O shakuhachi é uma flauta japonesa vertical com 5 buracos, feita da base do caule de bambu; tem cerca de 54,5 cm de comprimento. A origem e a introdução do shakuhachi no Japão são desconhecidas. Apenas é certo que no século 14 existiu um ancestral de shakuhachi de 5 cavidades. A origem de shakuhachi está ligada ao monge budista Fukeshu, do Período de Morokoshi da China, e no Japão teria sido introduzido por Kakishin, um monge zen-budista da Era Kamakura (1185-1333), mas como não há uma prova circunstancial não se considera como um fato histórico.
Somente a partir do século XVII foi possível confirmar a existência do shakuhachi no budismo Fukeshu. O shakuhachi era utilizado nas três seguintes situações:

1) Fazia parte do culto budista;
2) Mendicância religiosa;
3) Um meio para a prática zen-budista.

         Nessa época nasceram as músicas zen e para meditação para serem tocadas com shakuhachi, músicas que só os monges tinham permissão para executar.
Shamisenongaku: música executada usando o shamisen, que foi introduzido no Japão na metade do século XVI. O instrumento foi inspirado no "sanhsien" chinês e espalhou-se no Japão por meio dos okinawanos, que o chamavam de sanshin. Semelhante ao banjo, possui três cordas que são tocadas com um plectro (bachi) de marfim, madeira, carapaça de tartaruga e, mais recentemente, plástico, de formato triangular. Seu “corpo” é coberto de pele de gato e de cachorro. Já o sanshin (shamisen de Okinawa) usa pele de cobra e o instrumento tem o braço mais curto. O shamisen, quando tocado em conjunto com koto e shakuhachi, passa a ser chamado de “sanguen”.


Sokyoku: música executada por koto, que tardiamente sofreu o acompanhamento pelos shamisen e shakuhachi. O koto foi trazido da China no século XI; é uma espécie de cítara japonesa. A caixa é feita de madeira, medindo aproximadamente 180 cm de comprimento por 30 cm de largura. Geralmente, esse instrumento possui 13 cordas, cada uma esticada sobre uma espécie de cavalete e tocada com as duas mãos, sendo que na direita são colocados plectros nos dedos polegar, indicador e médio. Durante o Período Meiji, esse instrumento tornou-se muito popular, especialmente entre as mulheres.


Shiguin: estilo que hoje conta com poucos seguidores. Trata-se de uma manifestação, como a própria palavra sugere, da arte de recitação de poema (chi) chinês ou japonês com entonação japonesa, obedecendo a uma linha melódica uniforme, com acompanhamento de um determinado instrumento e que pode ser dos mais variados, em especial o koto e o shakuhachi, mas poderá ser violino, piano e outros.

              Estes estilos foram por muito tempo representativos das classes sociais no Japão: o gagaku na corte, o nogaku para os samurais, o shamisen do povo, o shomyo dos templos e o min'yo dos camponeses, por exemplo.

O TAIKÔ
Dizem que o som de um grande tambor se assemelha à batida do coração de mãe, ouvido e sentido no interior do ventre materno.

              Antigamente, no Japão, o tambor era considerado símbolo da comunidade rural. Diziam que o limite da aldeia era determinado não só geograficamente, mas também pela distância em que a batida do tambor era audível.
              Registros comprovam que o taikô está presente na música japonesa há cerca de 1.500 anos, escreve Masahiro Nishitsunoi, estudioso de música japonesa. O tsuzumi (tamboril com formato de uma ampulheta) aparece nas pinturas do final do século XII, e no final do século XIV ele se incorpora às apresentações de teatro nô.
            O taikô está ligado, na maioria das vezes, às festividades xintoístas. A apresentação do conjunto de taikô como evento musical artístico surgiu somente depois da Segunda Guerra Mundial, e estimulou a sua difusão por todo o Japão, ressuscitando essa arte de percussão.


Esta postagem faz parte de uma série especial de artigos sobre música: 


Um ano de pensamentos (introdução)
A música e a mitologia (1ª parte)
A música e sua teoria (3ª parte)


Fontes dos três artigos:

          Spectrum - Música Medieval
          CrowMusic - Música Irlandesa
          Blog Cultura Japonesa - Hogaku
          Fundação Japão - Cultura Japonesa
          Folha de S. Paulo, 24 de março de 1998 - A Música
          Wikipedia - Modos Gregos
          Wikipedia - Raga (em inglês)
          Wikipedia - Escala Diatônica
          Livro "Harmonia", de Arnold Schoenberg