5 de novembro de 2009

Marionete



À furtiva luz de um rubro crepúsculo
Repousa a bela marionete caída
Descansa o corpo preso a fios
Olhos vítreos, frios, a não-enxergar

Pois eis que ela acordou mais uma vez!
Trouxeram os pássaros o seu manto
Alva seda a contornar uma pele rija
Suas lágrimas queimaram os fios

Anda, como a criança a aprender
Chora, como o cego a rever
E ouve sua voz, trôpega, a gritar
Que a noite uma vez mais a abraçou

Salta a janela, segue estrelas
E corre! Pés livres, olhos vivos
Alma a dançar com a dádiva almejada
Uma noite a mais como um anjo

Enxerga o mesmo lago, espelhado
Acaricia sua face mais uma vez
Como tantas vezes fez o bufão
Em um torpe espetáculo ao dia

Mas desta vez, ah que é ela mesma
Não um boneco, matéria inerte
De volta ao seu lar, ganha asas
Como um sonho, vê na água o paraíso

Mas o céu a acolheria agora?
A lua refletida a convida
À longa jornada ilusionada
Em cem mil noites de cárcere

Asas de pano, ela pensa
Corpo de um boneco, ela sente
Ah, que o sonho da criança é ofuscado
Pelo espinho impiedoso da Razão

Mas pássaros voam, a chamam
As copas das árvores a convidam
Nuvens a convocam como a mais bela dançarina
Que o balé dos céus já acalentou

Pois então tenta, bate as asas
Reaprende e saboreia como delícia
O vento a erguer seu lacerado corpo
E chora, ao seu lar retorna, viva.

Mas ah, que o sol agora acorda
E o sonho acaba, e a música cessa
E de um céu antes noturno despenca
Um boneco vestido de anjo

Em seu lago mergulha, e dorme
Longe dos céus, perde as asas
Longe dos fios, finalmente sorri
Livre, ante o céu, a sonhar


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Escrito no Jardim, em 26/10/2009.

Imagem: esboço de Sasha, personagem de Misty Circus, por Victoria Francés