24 de agosto de 2009

Fantasma

 
E nas sombras você vem
Assombrar meu escurecido adormecer
E me ouvir. Você pode ouvir?

Desde sempre, já há muito
Em cada verso, cada lágrima
Como o vigia a banhar-se com o horizonte
Guardando o tolo sonhador

Somos ao fim mais puros, diferentes?
Como as nuvens se abraçam amigas
Meu mais Profundo toca o seu
No silêncio, na distância, você vê?

Eternamente, pelo infindável passado
Vejo enfim a sua voz, suave
A bela melodia áspera de sonhos
A esconder um vítreo coração

Memória, loucura, ilusão, saudade
E um frio levantar dos olhos
Meu ou seu, o destino se esconde
Enquanto brinca com marionetes

E ao fim de cada ínfima jornada
Vêm os seus olhos inexcrutáveis
Em vigília. No completo escuro, você sente?

E se andássemos pela noite?
E se abraçássemos o orvalho frio
E realmente expandíssemos a mente
E se os tijolos desmoronassem?

Em meu elísio, em seu refúgio
Sente você o meu intangível toque
Ou enfim aquela Alice de sonhos
Caminha livre pelas noites findas?

Dedos nos lábios, que não se diga
Que trocamos lágrimas pelo tempo
Diferentes, opostos, mais puros
Como o vento que apenas dança com a flor

E nas minhas sombras, você se vai
Passos no ar, um coração imóvel
Adormecido. Você pode sonhar?

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Escrito no Jardim, em 22/08/2009
Pintura por Victoria Francés