14 de agosto de 2009

Cinza


Em braços que não toquei
Me perdi como criança
Brincando em areia, ao vento
Construí outro mundo, novo castelo

Pois cada dor e cada mágoa
Cada frio, névoa ou temor
Se tornaram pó sobre o piano
Enquanto martelos arrebentam cordas

Cores se perdem nos sons
Mas não voltam, nada volta
Espero que a surpresa venha
Mas só me cumprimenta o silêncio

E cada riso falho que nasceu
Cada ardente olhar que brotou
Tornou-se daninha a crescer
Envolvendo as notas enfermas

Olhos permanecem vivos
Dedos ainda coreografam a dança
Mas foi-se longe o átimo,
O fiasco quebradiço de vida

O corpo que agora abraças
Não passa de pele e ossos
E um fino lápis denuncia
As cartas não entregues

Ainda que de tua fonte beba
Que tua mão eu beije
Que meu pulso dilaceres
Que meus ossos se dissolvam

Não há banquete que acorde
O que no abismo nasceu
Podes avermelhar teus dentes
São tuas as inabitadas veias

Pois a mim resta o tempo
Resta a maldita espera gritante
No vazio cinza que o céu consome
Restam minutos que não dançam

Fica apenas o silêncio interno
Imerso em oceanos de palavras
Tempestade em meus pulmões
Sorrisos em teus lábios

Deixa-me somente o sono
Tira-me o vermelho, o ritmo
Mas deita-me no chão
Canta-me uma cantiga invernal
E em tuas mãos adormecerei.


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Escrito no Jardim, em 01/07/2009