19 de dezembro de 2009

Sebos


Existem alguns lugares que por terem um nome estranho parecem irreais, se você fala que foi a uma livraria, não diz muita coisa, mas quando você fala que frequentou um sebo, soa um tanto estranho.
Assim como as bibliotecas, os sebos possuem uma aura de magia impressionante. 
Faz tempo que não frequento um sebo, o último que fui,  eu adquiri o livro "A Volta ao Mundo em 80 dias - Julio Verne", nem preciso falar que gostei, não conhecia Verne e ter entrado naquele local me trouxe novas experiências... 

Mas qual é a história desse lugar que vende tantas histórias?

O nome "sebo" vem do tempo em que não havia energia elétrica e as pessoas liam à luz de velas amarelentas, sujando e engordurando os livros. O contato com as velas deixava o livro todo engordurado, ensebado, sebento, termo que evoluiu a sebo.
Outra teoria defende que a palavra decorreu de várias derivações: do particípio presente "sapiente" se fizeram várias derivadas: "sabença" ("sapientia"), no português arcaico "assabentar", "sabentar". Desta forma verbal "sabenta" e por fim "sebenta" - a obra, a coleção de notas de classe que tornava o estudante mais preparado, mais sábio.-(Silveira Bueno).

No Brasil, "sebo" tornou-se a forma vulgarizada de designar a livraria onde se vendem livros usados e raros, conforme consta no livro "Guia dos sebos do Brasil" de Jorge Brito, e no minidicionário "Aurélio".

Na obra de Brito, o autor revela que os primeiros sebos surgiram na Europa em meados do século 16, quando os mercadores e pesquisadores de papiros vendiam documentos importantes da época. O historiador Leonardo Dantas Silva conta que estes mascates eram chamados alfarrabistas (alfarrábio significa livro velho e raro), nome que os acompanha até hoje em países como a França e Bélgica, em que a atividade dos sebistas é considerada essencial para historiadores e pesquisadores em geral. Os sebos também são chamados de alfarrábios.


No Brasil, o comércio de livros usados precedeu mesmo o início da Imprensa. Devido à dificuldade de importação havia intermediários de livros já no século XVII. O comércio desenvolveu-se mesmo após a chegada Família Real (1808). 

É possível reconhecer, em linhas gerais, alguns traços comuns entre as pessoas que visitam sebos regularmente. Dentre os principais atrativos listados pelos assíduos, estão a raridade de títulos e os preços inferiores aos dos livros novos. Parte desse público aprecia antiguidades de uma forma geral e ainda há os colecionadores, que buscam, por exemplo, obras autografadas ou não mais publicadas.

A maior parte dos clientes possui uma formação educacional média ou superior. A maior demanda é do acervo de literatura clássica, poesia e das obras cujo conteúdo se relaciona ao campo de formação de cada leitor.

O público é composto em geral por apreciadores de livros que têm um prazer intelectual na leitura das obras e na preservação da memória delas.E eles se demoram, muitos passam horas descobrindo os livros e decidindo quais comprar naquela visita. Professores, escritores, acadêmicos, jornalistas e colecionadores formam uma parcela significativa dos frequentadores de sebos. 

 



A economia em torno do sebo

Uma das razões que explica o crescimento da procura pelos sebos é a diminuição do poder de compra da classe média que busca alternativas mais apropriadas a sua renda. A maior circulação dos livros pode indicar também uma perda da “aura” que, muitas vezes, acompanha essas publicações. Os livros deixam de pertencer a um dono só. A existência dos sebos contribui, de alguma forma, com a democratização do acesso ao livro.

Dentre as sugestões de melhorias dos sebos, os clientes destacam preços mais baixos na venda e mais altos na compra de livros acrescentados ao acervo. O processo de formação do preço dos livros usados segue alguns critérios gerais, segundo o blog do sebo "traça":


-livros comuns em catálogo custam, em média, metade do preço de novos

-livros comuns fora do catálogo, com procura, até a totalidade do preço de novos

- livros comuns fora do catálogo, sem procura, até metade do preço de novos

-livros raros: dependem exclusivamente da oferta e da procura

Algumas obras muito raras chegam à casa de milhares de reais, enquanto outras não chegam a R$ 1. Há até sebos com "moeda própria".O sebo carioca Berinjela estabelece seus preços na “moeda berinjela”, cada uma equivale a R$ 2




Sebos : vestígios e futuro

Os livros usados além de levar como quaisquer outros, o conhecimento procurado, revelam curiosidades e marcas. Suas páginas têm acontecimentos, experiências, sentimentos encobertos. Há memórias por detrás das anotações, dedicatórias e folhas marcadas. A aparência não revela tudo o que um livro provocou em alguém. O novo dono desconhece o caminho de seu livro até ali.

A socióloga Márcia Delgado, autora do livro Cartografia Sentimental de Livros e Sebos , marca em sua obra alguns destes vestígios e histórias. Ela escreve que boa parte do acervo dos sebos de Belo Horizonte foi vendida por viúvas. Várias delas costumam vender a biblioteca dos maridos assim que eles morrem. Há as que se desfazem da coleção para não sofrerem tanto com a lembrança de seus esposos. Outras sentem por esses livros raiva, por terem recebido a atenção que elas queriam. Para estas e aquelas o destino das lembranças foi o sebo.

Cada obra do grande acervo dos sebos forma repertórios intelectuais e concepções de mundo. Forma gente e histórias. 

Eles estão perto, acomodam-se em beiras de calçadas, entradas de metrôs ou portinhas escondidas nos centros das cidades e demonstram ser hoje um importante e crescente espaço de trocas entre gerações e culturas. Em um momento no qual o número de leitores de livros do país é ainda muito pequeno, os sebos se colocam como possibilidades de acesso à produção de idéias de uma sociedade além de importantes centros de conservação das memórias intelectuais.. Aquela idéia que se tinha deles como lugares sujos, vazios, com livros amontoados e em péssimo estado vai perdendo lugar. Os sebos se mostram hoje espaços de convivência entre a tradição e um público cada vez mais atento às possibilidades das novas mídias. Um jeito antigo e atualizado de vender aquilo que ultrapassa tempos e previsões alarmistas de fim.



A cidade dos Sebos


 
Há uma cidadezinha chamada Hay-on-Wye, no País de Gales, que é considerada a cidade dos livros. Dizem seus moradores, cerca de duas mil pessoas, que é a Meca dos bibliófilos, principalmente para os que preferem livros usados. A maioria das livrarias são sebos. Desde 1998 há um festival literário, quando mais de 80 mil pessoas visitam a cidade. Vários nomes importantes da literatura participam deste evento patrocinado pelo jornal The Guardian.

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